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Joan Margarit – Água-forte

O granizo metralha as vidraças,as rajadas arrasam as calçadas.E tu e eu aqui, onde o mau temporesume os obstáculos que às vezesnos levam à beira do abismo.Olhos brilhantes de desacertos,mãos queimadas por se salvarem agarradasaos gelados corrimãos do inferno.Que o acaso continue disparandosem razão, como sempre, nas vidraças.Além do amor – desse nosso amor –nada…
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Paul Verlaine – Colóquio sentimental

No velho parque frio e abandonado Duas formas passaram lado a lado. Olhos sem vida já, lábios tremendo, Apenas se ouve o que elas vão dizendo. No velho parque frio e abandonado, Dois vultos evocaram o passado. – Lembras-te bem do nosso amor de outrora? – Por que é que hei de lembrar-me disso agora?…
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Tarso de Melo – Raiz e minério

ainda é possível ouvir (mais fundo, mais fundo,você encontra) o som da lama se arrastando por baixodas portas e aos pés do sofá (o que há é o homem,esse bicho) nos vãos da estante e no meio dos livrosnas gavetas da geladeira (que invade a terra procurandooutro homem) na altura do peito e entre os…
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Manuel Vilas – Delia’s Gone

Bendito seja o suicídio. O melhor do nosso amor foi termos nos suicidado. Tantos suicidas em Paris, Nova Iorque, Genebra, Londres, Estocolmo e Madrid. Homens e mulheres que se jogam pelas janelas, do décimo ou décimo primeiro andar, tentando voar no absurdo vento das cidades. Bendito seja o suicídio, que nos iguala aos anjos mais…
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Wislawa Szymborska – Bagagem de volta

Uma quadra de pequenas tumbas no cemitério. Nós, que vivemos muito, passamos furtivamente, como os ricos passam pelos bairros dos pobres. Aqui jazem a Zosia, o Jacek, o Dominik, prematuramente tirados do sol, da lua, da mudança das estações, das nuvens. Não juntaram muito na bagagem de volta. Fragmentos de vista não muito no plural.…
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Ferreira Gullar – Morrer no Rio de Janeiro

Se for março quando o verão esmerila a grossa luz nas montanhas do Rio teu coração estará funcionando normalmente entre tantas outras coisas que pulsam na manhã ainda que possam de repente enguiçar. Se for março e de manhã as brisas cheirando a maresia quando uma lancha deixa seu rastro de espumas no dorso da…
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Joan Margarit – Anos Sessenta

Lento, muito mais lento, tempo meu: falemos sobre o amor mesmo que as rosas tenham que acabar sempre na lixeira. Deslumbrou-nos um futuro. Que futuro? Sem esperança alguma, críamos em algo, ou, porque era difícil a fé em algo, nunca perdemos a esperança. Restam as bandeiras vermelhas de perigo defronte ao mar bravio. Lembro-me de…
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Luis Alberto de Cuenca – Nos veremos novamente

Nos veremos novamente onde sempre é de dia e os feios são bonitos e eternamente jovens, onde os poderosos não abusam dos mais fracos e, das árvores, pendem brinquedos e gibis. Nesta morada de luz que não fere os olhos Voltaremos, tu e eu, a dizer-nos bobagens de mãos dadas, contemplando as ondas a morrer…
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Jules Laforgue – O silêncio azul

Por todo o transcorrido eterno e no vindouro, A Noite universal povoa-se infinita E cegamente em coágulos onde se agita A vida que rabisca em arabescos de ouro. Eis que um daqueles, tão desassistido e só, Junto a seus deuses, artes, erros e mania, Seu lodaçal, miséria e cantos de ironia, Escreve história, grita ao…
