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Lawrence Ferlinghetti – Allen Ginsberg morrendo

Allen Ginsberg está morrendoEstá em todos os jornaisEstá no noticiário noturnoUm grande poeta está morrendoMas sua voznão vai morrerSua voz está na terraNo Baixo Manhattanna sua camaele está morrendoNão há nadaa fazer sobre issoEle está morrendo a morte que todos enfrentamEle está morrendo a morte do poetaEle tem um telefone em sua mãoe liga para…
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Billy Collins – Esquecimento

O nome do autor é o primeiro a desaparecerseguido obedientemente pelo título, a trama,a conclusão comovente, o romance inteiroque subitamente se torna algo que você nunca leu,nunca sequer ouviu falar, como se, uma a uma, as memórias que você costumava abrigardecidissem se aposentar no hemisfério sul do cérebro,em uma pequena aldeia de pescadores onde não…
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Alberto Pucheu – A luta antes da luta

Você sabe, de nada adianta rezar no canto do ringue. Aquele que nele sobe, sobe sozinho. As bravatas lançadas na hora da pesagem e o peso da multidão colado em sua carne, você sabe, lá em cima, só aumentarão seu abandono. Você sabe também o preço que terá de pagar se deixar que qualquer vagabundo…
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Bertrand Russell – de “No que acredito”

“Acredito que ao morrer apodrecerei e nada do meu eu sobreviverá. Não sou jovem e amo a vida. Mas desdenho tremer de terror à ideia do aniquilamento. A felicidade não se torna menos verdadeira por ter que chegar ao fim, e o pensamento e o amor não perdem o seu valor por não durarem para…
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Carlos Drummond de Andrade – A bruxa

Nesta cidade do Rio,de dois milhões de habitantes,estou sozinho no quarto,estou sozinho na América. Estarei mesmo sozinho?Ainda há pouco um ruídoanunciou vida ao meu lado.Certo não é vida humana,mas é vida. E sinto a bruxapresa na zona de luz. De dois milhões de habitantes!E nem precisava tanto…Precisava de um amigo,desses calados, distantes,que leem verso de…
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Joan Margarit – No museu

Agacha-se junto ao menino e aponta para o quadro.Com um gesto solene, comprime o punhoe tenta explicar a força queacredita ver na pintura.Esta velha obsessão de transmitiraos pequenos nossos pobres recursos.Atento, o menino observa com temor.Talvez pressinta a solidão que se ocultanos gestos, na retórica da arte.Temos sempre a verdade diante de nós,mas, assim como…
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Michael Krüger – Discurso do homem lento

A história acelera,logo nos alcança,precedendo-nos com passos ligeiros.Vemos então por trása Era Glacial, Grécia,Roma, a Revolução francesa,a nuca de Stalin, as luzes traseirasdo carro de Hitler.Estranho que não se cansenem esmoreça.Às vezes se virae nos mostra sua caracom a boca escancaradae os dentes podres. Trad.: Nelson Santander (a partir de tradução para o italiano feita…
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Louise Glück – Under Taurus

Estávamos no píer, e você desejavaque eu visse as Plêiades. Eu podia vertudo, menos o que você desejava. Agora o seguirei. Não há uma única nuvem; as estrelasaparecem, até mesmo a irmã invisível. Mostre-me onde olhar,como se elas fossem ficar onde estão. Instrua-me na escuridão. Trad.: Nelson Santander Mais do que uma leitura, uma experiência.…
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Dan Fante – [Agora que eu já escrevi]
![Dan Fante – [Agora que eu já escrevi]](https://singularidadepoetica.art/wp-content/uploads/2020/02/open_road_b6355_-_geograph.org_.uk_-_150433.jpg)
Agora que eu já escrevi dez anos de livros e peças e abandonei álcool e cigarros e a gloriosa pornografia suja e minhas roupas não fedem por passar a noite dormindo no velho Pontiac e meu cabelo está caindo e estou dez quilos mais gordo Aos meus cinquenta anos com ligações a retornar e responsabilidades…
