-
Cassiano Ricardo – Vociferação

I Homem em Adão. Homemem Cristo. Homem em globo. II como salvar Deus?nós faremos d’Elenovamente o Autor de tudo:do peixe, da ave, da cobra, da maçã,do sapo, do rouxinol do sol. Oobrigaremos contudoa suar san-gue conosco, na guerra, na fome na peste na terra suja; a engolir fogo como nós, no circo queimando bocae estômago. Um Deusque nos socorra.Que não fuja; que morraem nós. Quando qualquer de nós morra. À semelhançade qualquer de nós. Deus mal-me- querDeus bem-me- quer )horizontal vertical( no leitona forca ou numbatiscafo. III Um Deusde cabeça pra…
-
Natasha Trethewey – Teorias sobre o tempo e o espaço

“Teorias sobre o tempo e o espaço,” um poema de Natasha Trethewey em que a jornada por paisagens familiares e esquecidas revela memórias soterradas, ecos de identidade e o peso silencioso da passagem do tempo.
-
Cassiano Ricardo – Gramática Visual de Cristo

1 “Cristo, terá sidoem vão teu sacri-fício?vê, o sangue escorre,acre, no massacredas ruas.” Cristo espalmou amãocobrindo os olhoshorizontalmentepra não vera destruiçãodo ser 2 “Cristo,vê os pequeninosque tanto amasteagora garotosnos becoscomo ratos dentrode sapatosrotos.” Cristo escondeu,de novo, a face,como se chorassenão querendoque o vissemchorar. Gramática visuala de Cristo;“Não veré não ser visto.“ 3 “Cristo,ouve a imprecaçãoque…
-
Linda Gregg – Uma sede contrária

“Uma Sede Contrária”, um poema de Linda Gregg sobre a luta íntima entre a ordem e a ruína, onde a beleza floresce apenas para ser entregue ao tempo, e até Deus parece habitar no frio desolado das ruas abandonadas.
-
Louis MacNeice – Uma catarata concebida como uma procissão de cadáveres

“Uma catarata concebida como uma procissão de cadáveres”, um poema de Louis MacNeice em que o rio se transforma em palco de um ritual sombrio, onde a correnteza sussurra segredos de morte e esquecimento, arrastando o eco de vidas que se perdem na cadência interminável das águas.
-
Cassiano Ricardo – Etc.

Existe tudo porque existo.Há porque vemos.(Fernando Pessoa) Para que o mundo exista, existimos.Pois seja. Sem os nossos olhos, sem o que somos,que adiantaria haver mundo?Seria a árvore dos dourados pomos, etc. O que é ignorado não existe.O que é eterno também não existe.A eternidade é uma forma de não existência. Ao menos para nós o…
-
Carl Sandburg – O crepúsculo dos búfalos

“O Crepúsculo dos Búfalos”, um poema de Carl Sandburg sobre a memória efêmera de uma era perdida, onde a terra, marcada por grandes presenças, agora se vê vazia e silenciosa, carregando apenas ecos de um passado distante.
-
Jorge Luis Borges – Remorso por qualquer morte

Livre da memória e da esperança,Ilimitado, abstrato, quase futuro,O morto não é um morto: é a morte.Como o Deus dos místicos,A quem se devem negar todos os predicados,O morto, onipresentemente alheio,Não é senão a perdição e a ausência do mundo.Tudo lhe roubamos,Não lhe deixamos nem uma cor, nem uma sílaba:Aqui está o pátio que seus…
-
W.S. Merwin – Rio

“Rio”, um poema de W. S. Merwin sobre a efemeridade das coisas, evocando a memória de Li Po e a fluidez do tempo que, como um rio, segue seu curso indiferente ao desaparecimento de tudo ao redor.
-
Cassiano Ricardo – Missa de Corpo Presente

O seu corpo tão alvo, o seu corpo presenteé a coisa mais ausente, é uma ilusãopensar que a rosa ou o fruto já colhidosainda soluçam desprendidos da haste. O seu corpo é já um fruto neutro e frio.Não obstante jovem, tem a mesma idadede todos os que morreram antes, ou mesmona mais remota origem babilônica.…
