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Jorge Valdés Díaz-Vélez – Polaroide

Polaroide para Eugenio Montejo São sete contra a parede, em pé, e um sentado.Mal conservam os traços desbotados pelos anos. Os rostos resistem ao desgaste,embora já não possuam as cores vivasque ontem os distinguiram. Entre livros e taças,os olhares sorridentes, as mãos dadascelebrando a vida na prata e gelatina*se apagam na sépia de sua jovem…
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Pedro Salinas – Não Te Vejo

Não te vejo. Bem seique estás aqui, atrásde uma frágil paredede ladrilhos e cal, bem ao alcanceda minha voz, se chamasse.Mas não chamarei.Chamarei amanhã,quando, ao não te ver maisimagine que continuasaqui perto, ao meu lado,e que basta hoje a vozque ontem eu não quis dar.Amanhã… quando estivereslá atrás de umafrágil parede de ventos,de céus e…
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Tomas Tranströmer – Neve Cai

Enterros chegammais e mais pertocomo placas na estradaao se aproximar a cidade. Milhares de olhares humanosna longa terra das sombras. Uma ponte apontadevagarbem longe no espaço. Trad.: Marcia Sá Cavalcante Schuback SNÖ FALLER Begravningarna kommertätare och tätaresom vägskyltarnanär man närmar sig en stad. Tusentals människors blickari de långa skuggornas land. En bro bygger siglångsamtrakt ut…
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William Butler Yeats – Viajando para Bizâncio

Aquela não é terra para velhos. Gentejovem, de braços dados, pássaros nas ramas— gerações de mortais — cantando alegremente,salmão no salto, atum no mar, brilho de escamas,peixe, ave ou carne glorificam ao sol quentetudo o que nasce e morre, sêmen ou semente.Ao som da música sensual, o mundo esqueceas obras do intelecto que nunca envelhece.…
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Robinson Jeffers – Pecado original

O símio-terrestre com seu cérebro e mãos de homem, fisicamenteO mais repulsivo de todos os animais de sangue quenteDa terra até então: eles cavaram uma armadilhaE capturaram um mamute, mas como poderiam seus paus e pedrasAtingir a vida naquela tocaia? Eles dançaram ao redor do poço, guinchandoCom excitação de macaco, arremessando pedras afiadas em vão,…
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Vinicius de Moraes – Poema de Natal

Para isso fomos feitos:Para lembrar e ser lembradosPara chorar e fazer chorarPara enterrar os nossos mortos —Por isso temos braços longos para os adeusesMãos para colher o que foi dadoDedos para cavar a terra. Assim será nossa vida:Uma tarde sempre a esquecerUma estrela a se apagar na trevaUm caminho entre dois túmulos —Por isso precisamos…
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John Keats – Ode sobre a melancolia

Não! Não vás para o Letes, nem tristes raízes Tortures para obter o vinho que te acena;Nem no pálido rosto os beijos cicatrizes Da beladona, que Prosérpina envenena.Não faças teu rosário com amoras parcas, Nem permitas que o escaravelho ou a falena Sejam tua Psique, nem que o mocho do abandonoPartilhe dos mistérios do teu…
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Cassiano Ricardo – A Graça Triste

Só me resta agoraEsta graça tristeDe te haver esperadoAdormecer primeiro.Ouço agora o rumorDas raízes da noite,Também o das formigasImensas, numerosas,Que estão, todas, corroendoAs rosas e as espigas. Sou um ramo secoOnde duas palavrasGorjeiam. Mais nada.E sei que já não ouvesEstas vãs palavras.Um universo espessoDói em mim com raízesDe tristeza e alegria.Mas só lhe vejo a…
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Algernon Charles Swinburne – O Jardim de Proserpina

Cá, em que a terra é calma;Cá, em que o drama é comoAr morto e exaustas almas,Dúbios sonhos assomo;Eu vejo o campo a medrarPara a ceifa e o plantar,A colheita e o roçar,Mundo fluido de sono. Farto de dor e riso,E de quem chora e ri;Do que vem sem avisoAos que colhem aqui:Dos dias e…
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Reginald Gibbons – O que remanesce

Sim, o pão está envenenado. E não há sequer um gole de ar.Como é difícil curar a ferida da vida.O próprio José, vendido ao Egito como escravo,não poderia ter ficado mais profundamente magoado. Então, sob o enxame de estrelas do céu, chegam os Beduínos.Eles acalmam seus cavalos. Então, por turnos, com olhos fechados,cada um inventa…