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Lisel Mueller – Há manhãs

Mesmo agora, quando o enredoexige que eu me torne pedra,o sol intervém. Em certas manhãsde verão saio de casae o céu se abree se derrama dentro de mimcomo se eu fosse uma santaprestes a morrer. Mas o enredoexige que eu viva,seja comum, não diga nadaa ninguém. Dentro de casaos espelhos ardem quando passo. Trad.: Nelson…
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W. H. Auden – Aquele que Ama Mais

Contemplando as estrelas, logo eu discirnoQue, por elas, eu posso ir para o inferno,Porém, na terra, a indiferença é o que menosTemos a temer, de animais e humanos Como seria se os astros de paixãoPor nós ardessem e disséssemos não?Se os afetos nunca podem ser iguaisPois que seja eu aquele que ama mais. Por mais…
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John Murillo – Variações sobre um tema de Elizabeth Bishop

Comece com a perda. Perca tudo. Então perca tudo outra vez.Perca uma boa mulher em um dia ruim. Encontre uma mulher melhor,e depois perca cinco amigos correndo atrás dela. Aprenda a perder como sesua vida dependesse disso. Aprenda que sua vida depende disso.Aprenda como se aprende caratê, ou a andar de bicicleta. Aprenda-o, domine-o.Perca dinheiro,…
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Ricardo Silvestrin – Bilhete

Não me parecias frágil,via-te doce.Talvez fosses mesmo forte,é preciso ser valentepra decretar a própria morte. Tinha-te por calmo.Que rio obscuro e discretote puxava para o fundo,sem saber nadar,sem ninguém saber de nada? Não deixaste uma carta,um poema, um bilhete de suicida.Como se quisesses dizerque a mortenão deve explicações à vida REPUBLICAÇÃO: poema publicado no blog…
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Timothy Liu – Os restos

Os restos —Wuxi, China Saindo do novo cemitério, meu paipega a minha mão, tendo acabado de reenterrar os restosde seu próprio pai e das duas esposas dele —aos dez anos, ele já perdera a mãe para a tuberculose. Ele pega a minha mão e diz: Agora posso morrer em pazmesmo sem termos conseguido os ossos…
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Sophia de Mello Breyner Andresen – Meio-dia

Meio-dia. Um canto da praia sem ninguém.O sol no alto, fundo, enorme, aberto,Tornou o céu de todo o deus deserto.A luz cai implacável como um castigo.Não há fantasmas nem alvas,E o mar imenso solitário e antigo,Parece bater palmas. REPUBLICAÇÃO: poema publicado no blog originalmente em 09/08/2017
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Jean Sprackland – Perdendo o escuro

Novembro, quando o dia deveria terminar mais cedocomo um livro maçante. Mas naquela tardeuma pequena nuvem em forma de ponto de interrogaçãopassou sobre o sol e se dissolveu.Seis horas; oito; dez. E a luz do diaainda inundava a rua espantada. Uma dádiva. Como uma daquelas noites de verãoem que nos sentamos, copo na mão,sob a…
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Rainer Maria Rilke – O Mundo Estava no Rosto da Amada

“O Mundo Estava no Rosto da Amada”, um poema de Rainer Maria Rilke que concentra o infinito no rosto amado e revela o amor como excesso que nos transborda e nos desfaz.
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W. S. Merwin — Um aniversário

Algo continua e eu não sei como chamá-loembora o idioma esteja cheio de sugestõesem termos de linguagem mas elas todas são anônimase é quase seu aniversário música junto aos meus ossosnestas noites ouvimos os cavalos correndo na chuvaao parar a lua aparece e nós ainda estamos aquias goteiras no telhado continuam pingando depois que a…
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Paulo Henriques Britto – Envoi

O tempo, que a tudo distorce,às vezes alisa, conserta,e a golpes cegos acerta: em seu tosco código Morsede instantes sem rumo e roteiroentão dá forma a algo de inteiro. Não um verso, que em folha esquivaa gente retoca e remendaaté ser coisa que se entenda, mas algo que na carne vivase esboça, se traça, se…