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Robert Hayden – A nevasca

Incapaz de dormir ou rezar, permaneçoao lado da janela olhando para as aluadas árvores envergadas pelo gelo de uma tempestade de dezembro. Bordo e freixo da montanha se curvamsob seu peso vítreo,seus galhos fendidos caindo sobrea neve congelada. As árvores em si, como nos invernos passados,sobreviverão a este fardo,quebradas florescerão. E eu sou menos para…
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Carlos Drummond de Andrade – Os Ombros Suportam o Mundo

Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus.Tempo de absoluta depuração.Tempo em que não se diz mais: meu amor.Porque o amor resultou inútil.E os olhos não choram.E as mãos tecem apenas o rude trabalho.E o coração está seco. Em vão mulheres batem à porta, não abrirás.Ficaste sozinho, a luz apagou-se,mas na sombra…
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Kelli Russell Agodon – Capelas imaginárias

Sento-me no chão de um museu com um homemque não conheço. Estamos contemplando um quadrode 1508. Maria parece triste mas não está chorando.Outro homem se senta à minha esquerda e encosta sua cabeçacontra a parede. Atrás de mim, uma mulher estáchorando. Eu me levanto e caminho em direção a um estranhoque está dizendo, Está tudo…
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Alan Jenkins – Pertences

Segurei a mão dela, que estava sempre marcadaPor cortar, fatiar, pelas facas que estavam à espreitaNo lavatório, mão mal-acabada,Os nós avermelhados dos dedos, ásperos de esfregar com forçapanelas, frigideiras, xícaras e pratos,Dando amor do único jeito que ela sabia,Em cada corte barato de carne, em assados e ensopados,Comidas tradicionais que ela preparava e nós comíamos;E…
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Stanley Plumly – Rinoceronte branco

O último da minha espécie, um dos últimos apreciadores das florese da grama das pastagens do norte, e certamenteum dos poucos habilitados a esfregar as costas no baobáe no carvalho centenário que ainda sobrevive no quintal. O truque está na pedra, parecer algo que se soltoude uma montanha, algo tão sobrante a ponto de nãoestar…
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Carlos Drummond de Andrade – Inocentes do Leblon

Os inocentes do Leblonnão viram o navio entrar.Trouxe bailarinas?trouxe imigrantes?trouxe um grama de rádio?Os inocentes, definitivamente inocentes, tudo ignoram,mas a areia é quente, e há um óleo suaveque eles passam nas costas, e esquecem. REPUBLICAÇÃO: poema publicado no blog originalmente em 08/11/2016 Conheça outros livros de Carlos Drummond de Andrade clicando aqui
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Robinson Jeffers – Regresso

Um pouco abstratos e um pouco sábios demais,É tempo de beijarmos a terra novamente,É tempo de deixar que as folhas chovam dos céus,Deixar que a rica vida corra para as raízes novamente.Eu irei para os Sur Rivers feiticeiros,E neles mergulharei meus braços até o peito.Encontrarei minha contabilidade onde treme a folha dos amieirosCom o vento…
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Cassiano Ricardo – Testamento

Deixo os meus olhos ao cegoque mora nesta rua.Deixo a minha esperançaao primeiro suicida.Deixo à polícia meu rasto,a Deus o meu último eco.Deixo o meu fogo-fátuoao mais triste viandanteque se perder sem lanternanuma noite de chuva.Deixo o meu suor ao fiscoque me cobriu de impostos;e a tíbia da perna esquerdaa um tocador de flautapara, com…
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Abdellatif Laâbi – Por que esta folha?

Por que esta folha?Salvo por um detalhe,o mundo não mudouem tão pouco tempoSalvo por um detalheesta manhã é uma réplicacinzentada anteriorSalvo por um detalheo peso esmagador do peitonão se reduziu nem um gramaSalvo por um detalhesentimo-nos ainda vivosum pouco maisum pouco menosO mesmo equilíbriofrágil ou nãoSalvo por um detalheo de uma pergunta desconcertante:Por que esta…
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Jorge Valdés Días-Vélez – Pro nobis

Pro nobis para José Emilio Pacheco Uma vez mais, abriu o Averno suas mandíbulas escaldantes. Assomam os pesadelos e o terror da morte se o sono o invade e se transforma em chama negra, se, ao dormir, o levam até ele, ao lagar luxurioso dos demônios. O menino, mudo, contempla sua silhueta e chora. Na…