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Paulo Henriques Britto – Mosaico

Os dias a amontoar-secomo se rumo a um sentido,algo que se assemelhassea uma meta, ou um destino, mas formando (sem sabê-lo,claro — o que sabem os dias?)uma estrutura em relevo,espécie de marchetaria, com padrão indecifrável(por não seguir um projeto),mas assim mesmo um resguardo,um remédio contra o medo de nada haver — nem…
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Roderick Ford – Giuseppe

Meu tio Giuseppe me contouque na Sicília, durante a 2ª Guerra Mundial,no pátio atrás do aquário,onde a buganvília crescia tão bem,a única sereia cativa do mundofoi esquartejada no solo seco e empoeiradopor um médico e um peixeiro, dentre outros.Ela, aquilo, nunca aprendera a falarporque era simplória, ou assim diziam.Mas o padre que segurou uma de…
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Paulo Henriques Britto – De “Biographia Literária”

V Céu azul. Cores vivas. Você rindode alguma coisa ou alguém que está à esquerdado fotógrafo. É talvez domingo.É claro que essa sensação de perda não está na foto, não – não está na imagemextremamente, absurdamente nítida.E se fosse menor a claridade,ou se estivesse sem foco, ou tremida, ou se fosse em sépia, ou preto…
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R. S. Thomas – O campo brilhante

Eu vi o sol avançar atéiluminar um pequeno campopor um momento, segui meu caminhoe o esqueci. Mas aquela era umapérola de grande valor, o único campo comum tesouro dentro dele. Agora perceboque devo dar tudo o que tenhopara possuí-lo. A vida não está em lançar-se para um futuro que se afasta, nem ansiar por um…
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Paulo Henriques Britto – De “Seis Sonetos Soturnos”

I A qualquer hora, o que se chama vidapode mudar da água pro vinho. Ou vice–versa. Cada palavra proferida —uma sentença grave, uma tolice —pode retornar feito um bumeranguecapaz de destruir o que encontrar.E nada que se funde em carne e sangueescapa dessas bólides de ar:o amor e demais estados de graça,reputações, ações, fazendas, gado,longos…
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Craig Santos Perez — Amor em tempos de mudanças climáticas

Amor em tempos de mudanças climáticas reciclando o “Sonnet XVII”1 de Pablo Neruda Não te amo como se fosses metais raros da terra,diamantes de sangue ou reservas de petróleo bruto que provocama guerra. Eu te amo como amamos as espécies mais vulneráveis: urgentemente, entre o habitat e a sua perda. Eu te amo como se…
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Paulo Henriques Britto – Madrigal

Desista: não vai dar certo.O mundo é o mesmo de sempre,desejo é uma coisa cega.Desista, enquanto é tempo. As mãos não sabem o que pegam,os pés vão aonde não sabem.As cartas estão marcadas:vai dar desgraça na certa. O mundo é sempre a esmo,desejo é uma porta aberta.Desista, que a vida é incerta.Ou insista. Dá no…
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Lucille Clifton – o poema do bebê perdido

na vez em que deixei cair seu quase corpopara encontrar as águas sob a cidadee nelas fluir com o esgoto para o maro que sabia eu sobre águas correndo de voltao que sabia eu sobre afogamentoou sobre ser afogada você teria nascido no invernono ano do gás desligadoe sem carro teríamos feito a singularcaminhada pela…
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Gwendolyn Brooks – a mãe

Abortos não te deixam esquecer.Você se lembra das crianças que gerou mas não teve,Da polpinha molhada com pouco ou nenhum cabelo,Cantores e trabalhadores que nunca viram a luz do dia.Você nunca irá negligenciá-los ou baterNeles, ou mandar eles se calarem ou lhes comprar um confeito.Você nunca vai arrancar da boca o dedo que chupamOu espantar…
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Paulo Henriques Britto – Cuidado Poeta…

Cuidado, poeta: o tempo engorda a alma.Depois de um certo número de páginasanjos não pousam mais nas entrelinhas.E até a lucidez, essa moderna,também se gasta, como qualquer moeda. O ter o que dizer é jogo arriscado,não se resolve com um só lance de dados.Não basta a precisão do gesto apenas.O gesto mais felino é quase…