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Paulo Henriques Britto – De “Duas Bagatelas”

(…) II Então viver é isso,é essa obrigação de ser feliza todo custo, mesmo que doa,de amar alguma coisa, qualquer coisa,uma causa, um corpo, o papelem que se escreve,a mão, a caneta até,amar até a negação de amar,mesmo que doa,então viver é sóesse compromisso com a coisa,esse contrato, esse cálculoexato e preciso, esse vicio,só isso.…
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Nâzim Hikmet – O otimista

quando criança ele nunca arrancou as asas das moscasele não atava latas nos rabos dos gatosnão prendia besouros em caixas de fósforosnem esmagava formigueirosele cresceue todas estas coisas foram feitas com eleeu estava ao lado de sua cama quando ele morreuele disse leia para mim um poemasobre o sol e o oceanosobre satélites e reatores…
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Paulo Henriques Britto – De “Biographia Literária”

VII Nada disso foi do jeito que eu quis.Se fosse como eu quis, não haveriade ser tão sofrido, tão infeliz.Mas eu – o eu que sou – eu não seria. Assim, não me lamento. Até me sintocomo quem tem não o que foi pedido,e sim o que, guiado pelo instinto,não pelo querer, teria querido. O…
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Andrea Cohen – O comitê avalia

Digo à minha mãe queganhei o Prêmio Nobel. De novo? ela diz. Em qualcategoria desta vez? É uma brincadeiraque fazemos: eu finjo que sou alguém, elafinge não estar morta. Trad.: Nelson Santander The Committee Weighs In I tell my motherI’ve won the Nobel Prize. Again? she says. Whichdiscipline this time? It’s a little gamewe play:…
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Paulo Henriques Britto – Balanços

(…) II Como saber sem tentar?Como tentar se é tão fácilconformar-se de saídacom a ideia de fracasso? Pois fracassar justificao não se ter nem sequeradmitido não querer-seaquilo que mais se quer. É um beco sem saída,mas sempre é melhor que a rua:mais estreito. Acolhedor.Vem, entra. A casa é tua. REPUBLICAÇÃO: poema publicado no blog originalmente…
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Sylvia Plath – Estrelas sobre a Dordonha

Estrelas caem densas como rochas na linhaEnfolhada de árvores cuja silhueta é mais escuraDo que o breu do céu porque não tem estrelas.O bosque é um poço. As estrelas caem silenciosamente.Parecem grandes, mas caem, e nenhuma lacuna é visível.Elas tampouco emitem fogos de onde caemOu qualquer sinal de angústia ou ansiedade.Elas são imediatamente devoradas pelos…
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Paulo Henriques Britto – Circular

Neste mesmo instante, em algum lugar,alguém está pensando a mesma coisaque você estava prestes a dizer.Pois é. Esta não é a primeira vez. Originalidade não tem vezneste mundo, nem tempo, nem lugar.O que você fizer não muda coisaalguma. Perda de tempo dizer O que quer que você tenha a dizer.Mesmo parecendo que desta vezalgo de…
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Jack Gilbert – O vale abandonado

Consegue entender o que é estar só por tanto tempoque você sairia no meio da noite e colocaria um balde no poçoapenas para sentir algo lá embaixopuxando a outra ponta da corda? Trad.: Nelson Santander The Abandoned Valley Can you understand being alone so longyou would go out in the middle of the nightand put…
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Paulo Henriques Britto – De “Cinco Sonetos Frívolos”

(…) III Mesmo o mais sólido somesem deixar nenhum vestígio,sem nem se ter (como exige ocostume) lhe dado um nome. E, como sempre, o sentido —que se dá a posteriori,antes que se deteriorede todo o mal percebido — não capta mais que um minúsculoângulo do evento únicoque só durou um segundo Entrementes, coisas…
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Jane Kenyon – O pretendente

Repousamos de costas um para o outro. As cortinassobem e descem,como o peito de alguém dormindo.Os ventos movem as folhas do bordo;elas expõem seus lados iluminados,girando todas de uma vezcomo um cardume de peixes.Subitamente, compreendo que estou feliz.Por meses esse sentimentotem-se aproximado, parandopara curtas visitas, como um tímido pretendente. Trad.: Nelson Santander The Suitor We…