Alberto Ríos – Coelhos e fogo

Tudo já foi dito
Menos uma última coisa – terrível – sobre o
Deserto: durante os incêndios no deserto de Sonora,
Incêndios rasteiros que ocorrem antes das monções e no grande,
Profundo, extenso e sufocante calor dos meses mais quentes,
Os meses mais longos,
Nas hipnóticas e imensuráveis tréguas de agosto e julho —
Durante esses incêndios de verão, lebres —
Lebres e qualquer outra coisa
Que viva nas matas das encostas,
Mas especialmente lebres —
As lebres podem acabar presas entre as chamas,
Não importa quão grandes e velozes e fortes e lisas elas sejam.
E quando são apanhadas,
Acossadas dentro e contra os grossos
Troncos e os finos ferrões dos cactos,
Quando não podem mais recuar,
Quando não podem mais se mover, a chama —
Ela as toca,
E seus pelos pegam fogo.
É claro, elas fogem da chama,
Encontrando força mesmo quando não há nenhuma para ser encontrada,
Dando grandes saltos para o alto sobre a onda de fogo, ou recuando
Ainda mais através do impenetrável
Emaranhado de saguaro endurecido
E figo-da-índia e cholla e espinheiro,
Mas seja qual for o caminho que elas encontram,
O que acontece é o que acontece: elas pegam fogo
E depois levam o fogo com elas quando correm.
No início, elas não sabem que estão pegando fogo,
Correndo tão rápido que fazem as chamas
Explodir como um motor de foguete e fumaça atrás deles,
Mas então as lebres se cansam
E a chama as alcança,
Coladas a elas como os espinhos dos cactos,
Que a princípio deve ser o que elas pensam que sentem em suas peles.
Eles já sentiram isso antes, todos os coelhos.
Mas desta vez a sensação não para.
E, claro, eles incendeiam os arbustos e o capim secos
Mais uma vez, provocando mais fogo, ao redor deles.
Eu lamento pelos coelhos.
E lamento que
Saibamos disso.

Trad.: Nelson Santander

Rabbits and Fire

Everything’s been said
But one last thing about the desert,
And it’s awful: During brush fires in the Sonoran desert,
Brush fires that happen before the monsoon and in the great,
Deep, wide, and smothering heat of the hottest months,
The longest months,
The hypnotic, immeasurable lulls of August and July—
During these summer fires, jackrabbits—
Jackrabbits and everything else
That lives in the brush of the rolling hills,
But jackrabbits especially—
Jackrabbits can get caught in the flames,
No matter how fast and big and strong and sleek they are.
And when they’re caught,
Cornered in and against the thick
Trunks and thin spines of the cactus,
When they can’t back up any more,
When they can’t move, the flame—
It touches them,
And their fur catches fire.
Of course, they run away from the flame,
Finding movement even when there is none to be found,
Jumping big and high over the wave of fire, or backing
Even harder through the impenetrable
Tangle of hardened saguaro
And prickly pear and cholla and barrel,
But whichever way they find,
What happens is what happens: They catch fire
And then bring the fire with them when they run.
They don’t know they’re on fire at first,
Running so fast as to make the fire
Shoot like rocket engines and smoke behind them,
But then the rabbits tire
And the fire catches up,
Stuck onto them like the needles of the cactus,
Which at first must be what they think they feel on their skins.
They’ve felt this before, every rabbit.
But this time the feeling keeps on.
And of course, they ignite the brush and dried weeds
All over again, making more fire, all around them.
I’m sorry for the rabbits.
And I’m sorry for us
To know this.

Paulo Henriques Britto – de “Nenhuma Arte”

Os deuses do acaso dão, a quem nada
lhes pediu, o que um dia levam embora;
e se não foi pedida a coisa dada
não cabe se queixar da perda agora.
Mas não ter tido nunca nada, não
seria bem melhor — ou menos mau?
Mesmo sabendo que uma solidão
completa era o capítulo final,
a anestesia valeria o preço?
(Rememorar o que não foi não dá
em nada. É como enxergar um começo
no que não pode ser senão o fim.
Ontem foi ontem. Amanhã não há.
Hoje é só hoje. Os deuses são assim.)

REPUBLICAÇÃO: poema publicado no blog originalmente em 04/02/2017

Lynn Emanuel – Minha vida

Como Jonas pelo peixe, eu fui por ela recebida,
revirada e varrida por suas águas escuras,
por ela conduzida para as profundezas e para além de incontáveis rochas.
Sem ser tocada por seus dentes, caí nela
sem um esforço maior que um grão de areia
entrando pela porta de uma catedral, tão largas eram suas mandíbulas.
Desci, de cabeça e calcanhar,
pela vasta viela de sua goela, parei no interior
do seu peito amplo como um salão, e, como Jonas, me levantei
perguntando onde estava a besta e não a encontrando em lugar nenhum,
ali, de gordura e tristeza, construí meu caramanchão.

Trad.: Nelson Santander
My Life

Like Jonas by the fish was I received by it,
swung and swept in its dark waters,
driven to the deeps by it and beyond many rocks.
Without any touching of its teeth, I tumbled into it
with no more struggle than a mote of dust
entering the door of a cathedral, so muckle were its jaws.
How heel over head was I hurled down
the broad road of its throat, stopped inside
its chest wide as a hall, and like Jonas I stood up
asking where the beast was and finding it nowhere,
there in grease and sorrow I build my bower.

Paulo Henriques Britto – De “Bonbonnière”

I

A seletividade da memória —
a cor exata da pele, a textura,
o odor de cada côncavo e orifício,
o lábio, a língua, o dente, o plexo

solar, a sola do pé, o suor e a
saliva, a coxa arisca, a dobra escura,
o beijo salobro, o sabor difícil,
a carne assombrada, o esperma perplexo

— falsa perfeição, mero artifício
do tempo, a desmaiar todos os tons
do que destoaria do desejo

como um menino a retirar sem pejo
da caixa que lhe deram os bombons
de que ele abre mão sem nenhum sacrifício.

(…)

IV

Só não dói mais porque não é preciso.
Se fosse o caso, a dor era pior.
Não há nada nisso de extraordinário:

A natureza odeia o desperdício,
tal como o vácuo. Sem tirar nem pôr.
É exatamente a conta necessária,

até que alguma solução se encontre.
O que aliás não acontece nunca.
E isso também é natural. No entanto
há sempre um tralalá, um deus, um bálsamo

pra não perder a esperança e o bonde:
A caixa de bombons. A “Marcha húngara”
de Liszt. Ou Brahms. Um dos dois. Ou não. Tanto
faz. A dor continua. Hoje é sábado.

REPUBLICAÇÃO: poemas publicados no blog originalmente em 16 e 17/01/2017

Billy Collins – A vida após a morte

Enquanto você se prepara para dormir, escovando os dentes,
ou folheando uma revista na cama,
os defuntos do dia estão iniciando sua jornada.

Eles se movem em todas as direções imagináveis,
cada qual de acordo com sua crença pessoal,
e este é o segredo que o silencioso Lázaro não quis revelar:
todos estão certos, no fim das contas.
Você vai para o lugar que sempre imaginou que iria,
o lugar que você manteve aceso em uma alcova em sua cabeça.

Alguns estão sendo jogados por um funil de cores cintilantes
para uma zona de luz, branca como um sol de janeiro.
Outros estão nus diante de um juiz intimidante que se senta
com uma escada dourada de um lado e uma calha de carvão do outro.

Alguns já se juntaram ao coro celestial
e cantam como se tivessem feito isto desde sempre,
enquanto os menos inventivos encontram-se presos
em uma grande sala com ar condicionado cheia de coristas e comida.

Alguns se aproximam do apartamento do Deus feminino,
uma mulher na casa dos quarenta com cabelos curtos e crespos
e óculos pendurados no pescoço por um cordão.
Com um dos olhos, ela mira os mortos através de um furo em sua porta.

Há aqueles que se espremem em corpos
de animais – águias e leopardos – e um que experimenta
a pele de um macaco como a um terno apertado,
pronto para começar outra vida em uma chave mais simples,

enquanto outros flutuam em uma espécie de imprecisão benigna,
pequenas unidades de energia rumo ao definitivo lugar.

Há até mesmo alguns classicistas sendo conduzidos ao submundo
por uma mitológica criatura com cascos e barbas.
Ela os levará para a boca da furiosa caverna
guardada por Edith Hamilton1 e seu cão de três cabeças.

Os demais estão deitados de costas em seus caixões
desejando poder voltar para aprender italiano
ou ver as pirâmides, ou jogar um pouco de golfe sob a chuva rala.
Eles gostariam de poder acordar de manhã, como você,
e ficar em uma janela apreciando as árvores de inverno,
cada ramo traçado com a caligrafia fantasmagórica da neve.

(E alguns apenas sorriem, para sempre)

Trad.: Nelson Santander

Nota:

1. Edith Hamilton foi uma educadora, escritora e historiadora americana do Século XX e renomada classicista, frequentemente creditada por haver repopularizado a mitologia clássica 

The Afterlife

While you are preparing for sleep, brushing your teeth,
or riffling through a magazine in bed,
the dead of the day are setting out on their journey.

They’re moving off in all imaginable directions,
each according to his own private belief,
and this is the secret that silent Lazarus would not reveal:
that everyone is right, as it turns out.
You go to the place you always thought you would go,
The place you kept lit in an alcove in your head.

Some are being shot into a funnel of flashing colors
into a zone of light, white as a January sun.
Others are standing naked before a forbidding judge who sits
with a golden ladder on one side, a coal chute on the other.

Some have already joined the celestial choir
and are singing as if they have been doing this forever,
while the less inventive find themselves stuck
in a big air conditioned room full of food and chorus girls.

Some are approaching the apartment of the female God,
a woman in her forties with short wiry hair
and glasses hanging from her neck by a string.
With one eye she regards the dead through a hole in her door.

There are those who are squeezing into the bodies
of animals–eagles and leopards–and one trying on
the skin of a monkey like a tight suit,
ready to begin another life in a more simple key,

while others float off into some benign vagueness,
little units of energy heading for the ultimate elsewhere.

There are even a few classicists being led to an underworld
by a mythological creature with a beard and hooves.
He will bring them to the mouth of the furious cave
guarded over by Edith Hamilton and her three-headed dog.

The rest just lie on their backs in their coffins
wishing they could return so they could learn Italian
or see the pyramids, or play some golf in a light rain.
They wish they could wake in the morning like you
and stand at a window examining the winter trees,
every branch traced with the ghost writing of snow.

(And some just smile, forever on)

Paulo Henriques Britto – De “Biographia Literária”

(…)

ii

Não volta mais, aquele voo cego
rumo ao que nunca esteve lá, porém
só surge em pleno ar. E não renego
a rota tonta que segui. Ninguém
se faz em linhas retas. Todo porto
a que se chega é a meta desejada.
E o caminho tomado, por mais torto,
acaba sempre sendo a exata estrada
a dar naquilo que, afinal, se é.
Assim, todo e qualquer passado, até
o que se esqueceria, se pudesse,
vai pouco a pouco virando uma espécie
de bala que se chupa com deleite,
mesmo se azeda. Isso, chupe. Aproveite.

REPUBLICAÇÃO: poema publicado no blog originalmente em 14/01/2017

Dorianne Laux – No limite

Depois que sua mãe morrer, você aprenderá a viver
no limite da vida, a se segurar
como ela fazia, uma mão no painel,
a outra agarrando sua bolsa enquanto você
passa pelo sinal de pare, ombros tensos,
olhos totalmente fechados, esperando pela colisão
que não vem. Você aprenderá
a ficar acordada a noite toda sabendo que ela se foi,
vendo a manhã se abrir
como um cisne de origami, o céu,
um caminho se abrindo, a pergunta
que você não pode responder. Na prisão, mulheres
fazem tatuagens com cinzas de cigarro
e xampu. É o que elas têm.
Imagine o peixe, escamas cinzas
e bigodes pretos, crescendo lentamente
em suas costas, seus lábios beijando seu pescoço.
Imagine as letras do nome de sua filha
uma escura corrente ao redor do seu pulso.
Qual é a distância entre este momento
e o último? A última visita e a próxima?
Eu quero minha mãe de volta. Quero
procura-la como ao presente perfeito,
aquele que você busca de loja em loja
até que seus pés o encontrem, delirando com seu cheiro.
Esta é a bagagem de sua vida, um sinal
de sua fé, este permanecer desperto
após a exaustão, esta agulha em sua garganta.

Trad.: Nelson Santander

On the Edge

After your mother dies, you will learn to live
on the edge of life, to brace yourself
like she did, one hand on the dashboard,
the other gripping your purse while you drive
through the stop sign, shoulders tense,
eyes clamped shut, waiting for the collision
that doesn’t come. You will learn
to stay up all night knowing she’s gone,
watching the morning open
like an origami swan, the sky
a widening path, a question
you can’t answer. In prison, women
make tattoos from cigarette ash
and shampoo. It’s what they have.
Imagine the fish, gray scales
and black whiskers, growing slowly
up her back, its lips kissing her neck.
Imagine the letters of her daughter’s name
a black chain around her wrist.
What is the distance between this moment
and the last? The last visit and the next?
I want my mother back. I want
to hunt her down like the perfect gift,
the one you search for from store to store
until your feet ache, delirious with her scent.
This is the baggage of your life, a sign
of your faith, this staying awake
past exhaustion, this needle in your throat.

Abdellatif Laâbi (Marrocos, 1942)

Paulo Henriques Britto – De “Duas Bagatelas”

(…)

II

Então viver é isso,
é essa obrigação de ser feliz
a todo custo, mesmo que doa,
de amar alguma coisa, qualquer coisa,
uma causa, um corpo, o papel
em que se escreve,
a mão, a caneta até,
amar até a negação de amar,
mesmo que doa,
então viver é só
esse compromisso com a coisa,
esse contrato, esse cálculo
exato e preciso, esse vicio,
só isso.

REPUBLICAÇÃO: poema publicado no blog originalmente em 13/01/2017

Nâzim Hikmet – O otimista

quando criança ele nunca arrancou as asas das moscas
ele não atava latas nos rabos dos gatos
não prendia besouros em caixas de fósforos
nem esmagava formigueiros
ele cresceu
e todas estas coisas foram feitas com ele
eu estava ao lado de sua cama quando ele morreu
ele disse leia para mim um poema
sobre o sol e o oceano
sobre satélites e reatores nucleares
sobre a grandeza da humanidade

Trad.: Nelson Santander (a partir de tradução para o inglês feita por Randy Blasing e Mutlu Konuk)

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Optimistic Man

as a child he never plucked the wings off flies
he didn’t tie tin cans to cats’ tails
or lock beetles in matchboxes
or stomp anthills
he grew up
and all those things were done to him
I was at his bedside when he died
he said read me a poem
about the sun and the sea
about nuclear reactors and satellites
about the greatness of humanity