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Annie Dillard – Como consumimos nossos dias

Como consumimos nossos diasé, evidentemente,como consumimos nossas vidas. O que fazemos com esta hora,e com aquela,é aquilo que fazemos. Um calendárioprotege do caos e do arbítrio. É uma redepara capturar dias.É um andaime sobre o qual um trabalhadorpode ficar em pée laborar com ambas as mãos em espaços de tempo.Um calendário é uma maqueteda razão…
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Wislawa Szymborska – Bodas de Ouro

Devem ter sido diferentes um dia,fogo e água, diferindo com veemência,sequestrando e se doandono desejo, no assalto à dessemelhança.Abraçados, apropriaram-se e expropriarampor tanto tempo,que nos braços restou o artranslúcido depois do relâmpago. Um dia a resposta antecipou a pergunta.Uma noite adivinharam a expressão do olhar do outropelo tipo de silêncio, no escuro. O sexo fenece,…
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Ada Limón, poeta laureada

Ada Limón, uma legítima representante da novíssima geração de poetas norte-americanos, e de quem venho traduzindo alguns poemas para o blog desde 2020, acaba de ser eleita a nova poeta laureada dos Estados Unidos, a comenda de maior prestígio do campo da poesia daquele país. O cargo de poeta laureado – que tradicionalmente é conferida…
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Jim Harrison – Água

Antes de nascer eu era água.Pensei nisso sentado em uma cadeiraazul cercado por malvas rosas, vermelhas,e brancas no jardim em frenteao meu estúdio verde. Há conclusões aquia tirar, mas eu não posso mais fazer isso. O homem nasce, cresce, canta, dança, ama, envelhece,agoniza. Isto é um rio circulare nós somos seus peixes que se tornam água. Trad.:…
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Wislawa Szymborska – Natureza-morta com um Balãozinho

Em vez da volta das lembrançasna hora de morrerquero ter de voltaas coisas perdidas. Pela porta, janela, malas,sombrinhas, luvas, casaco,para que eu possa dizer:Para que tudo isso. Alfinetes, este e aquele pente,rosa de papel, barbante, faca,para que eu possa dizer:Nada disto me faz falta. Esteja onde estiver, chave,tente chegar a tempo,para que eu possa dizer:Ferrugem,…
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Eavan Boland – Cartas aos mortos

I Estudiosos do Império Antigo encontraram cerâmicasgravadas por toda parte com marcas e sinais. II Escritos em louças de lodo. Nas bordas dos vasos.Colocados na entrada dos túmulos.O vermelho do ferro de um mundo.Postado no limiar de outro.Chamaram-nas de cartas aos mortos. III Eles não choravam ou se lamentavam por meio destas marcas e sinais.Eles…
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Wislawa Szymborska – Nada Duas Vezes

Nada acontece duas vezesnem acontecerá. Eis nossa sina.Nascemos sem práticae morremos sem rotina. Mesmo sendo os piores alunosna escola deste mundão,nunca vamos repetirnenhum inverno nem verão. Nem um dia se repete,não há duas noites iguais,dois beijos não são idênticos,nem dois olhares tais quais. Ontem quando alguém falouo teu nome junto a mimfoi como se pela…
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Tarde na Andaluzia, de Sahar Romani, lido por Sandra Daher
Sandra Daher, uma generosa seguidora do blog, publica em seu perfil no Facebook a leitura que faz de poemas que a inspiram. Em sua postagem mais recente, ela surge lendo o belíssimo “Tarde na Andaluzia”, de Sahar Romani, traduzido por mim e publicado há algum tempo no blog. Confiram o resultado clicando no link que…
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Stephen Dunn – Ignorância

O sonho antigo de voar se tornou realidadee eu olho para cima, sem espanto.Por que não cai?Uma pergunta de criança que eu não sei responder.Eu visto minha ignorância naquilo que eu sei.Uma vez houve pterodátilos, eu digo.Uma vez o céu era presságios e pássaros. Ele é imenso e diminuto e tão altoque não emite nem…
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Wislawa Szymborska – A Cada Cem Pessoas

A cada cem pessoas: sabem de tudo e muito melhor do que os outros:– cinquenta e duas. ficam inseguras a cada passo:– quase todas as outras. estão prontas a ajudardesde é claro que isso não lhes tome muito tempo:– quarenta e nove, o que já não é mau. são sempre boas porque incapazes de ser…