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John Murillo – Variações sobre um tema de Elizabeth Bishop

Comece com a perda. Perca tudo. Então perca tudo outra vez.Perca uma boa mulher em um dia ruim. Encontre uma mulher melhor,e depois perca cinco amigos correndo atrás dela. Aprenda a perder como sesua vida dependesse disso. Aprenda que sua vida depende disso.Aprenda como se aprende caratê, ou a andar de bicicleta. Aprenda-o, domine-o.Perca dinheiro,…
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Ricardo Silvestrin – Bilhete

Não me parecias frágil,via-te doce.Talvez fosses mesmo forte,é preciso ser valentepra decretar a própria morte. Tinha-te por calmo.Que rio obscuro e discretote puxava para o fundo,sem saber nadar,sem ninguém saber de nada? Não deixaste uma carta,um poema, um bilhete de suicida.Como se quisesses dizerque a mortenão deve explicações à vida REPUBLICAÇÃO: poema publicado no blog…
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Timothy Liu – Os restos

Os restos —Wuxi, China Saindo do novo cemitério, meu paipegou a minha mão, tendo acabado de reenterrar os restosmortais de seu próprio pai e suas duas esposas —sua mãe morrera de tuberculose quando ele tinha dez anos. Ele pegou a minha mão e disse: Agora posso morrer em pazmesmo que não tenhamos os ossos verdadeiros. Os…
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Sophia de Mello Breyner Andresen – Meio-dia

Meio-dia. Um canto da praia sem ninguém.O sol no alto, fundo, enorme, aberto,Tornou o céu de todo o deus deserto.A luz cai implacável como um castigo.Não há fantasmas nem alvas,E o mar imenso solitário e antigo,Parece bater palmas. REPUBLICAÇÃO: poema publicado no blog originalmente em 09/08/2017
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Jean Sprackland – Perdendo o escuro

Novembro, quando o dia deveria terminar mais cedocomo um livro maçante. Mas naquela tardeuma pequena nuvem em forma de ponto de interrogaçãopassou sobre o sol e se dissolveu.Seis horas; oito; dez. E a luz do diaainda inundava a rua espantada. Uma dádiva. Como uma daquelas noites de verãoem que nos sentamos, copo na mão,sob a…
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Rainer Maria Rilke – O Mundo Estava no Rosto da Amada

O mundo estava no rosto da amada –e logo converteu-se em nada, emmundo fora do alcance, mundo-além. Por que não o bebi quando o encontreino rosto amado, um mundo à mão, ali,aroma em minha boca, eu só seu rei? Ah, eu bebi. Com que sede eu bebi.Mas eu também estava pleno demundo e, bebendo, eu…
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W. S. Merwin — Um aniversário

Algo continua e eu não sei como chamá-loembora o idioma esteja cheio de sugestõesem termos de linguagem mas elas todas são anônimase é quase seu aniversário música junto aos meus ossosnestas noites ouvimos os cavalos correndo na chuvaao parar a lua aparece e nós ainda estamos aquias goteiras no telhado continuam pingando depois que a…
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Paulo Henriques Britto – Envoi

O tempo, que a tudo distorce,às vezes alisa, conserta,e a golpes cegos acerta: em seu tosco código Morsede instantes sem rumo e roteiroentão dá forma a algo de inteiro. Não um verso, que em folha esquivaa gente retoca e remendaaté ser coisa que se entenda, mas algo que na carne vivase esboça, se traça, se…
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Sara Teasdale – Eu não sou tua

Eu não sou tua, e não estou perdida em ti,Não estou perdida embora deseje estarPerdida como uma vela acesa ao meio-dia,Perdida como um floco de neve no mar. Tu me amas, e eu ainda te consideroUma alma com brilho e beleza incontroversa,Contudo, eu sou eu, que anseia por estarPerdida como uma luz que na luz…
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Francis J. Quirós – Efêmero

Efêmero é algo breve, de curta duração. Efêmera é a tua história na história da humanidade. A humanidade é efêmera. Tudo o que é material é efêmero. Também o imaterial: um olhar, um gesto, uma saudação, um beijo, um orgasmo. As coisas que são e as que não são mais, mas que foram um dia:…