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Derek Walcott – O Amor Depois do Amor

Um dia viráem que, eufórico,você cumprimentará a si próprio chegandoà sua porta, em seu espelhoe cada um dará ao outro um sorriso de boas-vindas, e você dirá, sente-se aqui. Coma.Você amará outra vez o estranho que foi.Sirva vinho. Reparta o pão. Restituao seu coraçãopara si, para o estranho que um dia você amou por toda…
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Gillian Clarke – Advento

Tempos sombrios. Dezembro.O eixo da terra inclinadoe os minutos caem do diaum pouco de cada vez. Assim, dormimos além da escuridão,sonâmbulos das horas cinzentas.Impossível crer na luz,ou em um nascimento, até esta alvorada invernal, a raposavoltando para casa com sangue na boca,todos os elementos químicos da aurora em seus olhos,e o céu abismado. Trad.: Nelson…
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Roger Wolfe – Pálpebra

Pedro Salinasdisse num poema1que não quer deixar de sentira dor da ausênciada mulher que amaporque isso é tudoo que dela fica:a dor.Não me recordo das suas palavras exactas.Ele di-lo melhor do que eu.Eram outros tempos.Salinas está morto.A mulher que ele amava também.Em breve o estaremos todos.A vida é uma simples pálpebra.Abre os olhose fecha-os. Trad.:…
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Jack Gilbert – Fracasso e voo

Todo mundo esquece que Ícaro também voou.É a mesma coisa quando o amor chega ao fim,ou o casamento fracassa e as pessoas falamque sabiam que aquilo era um erro, que nunca daria certo. Que ela tinhaidade suficiente para sabê-lo. Mas qualquer coisaque valha a pena fazer, deve ser feita com seriedade.Como estar ali, junto ao…
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Pedro Salinas – Não quero que te vás

Não quero que te vásdor, última maneirade amar. Sinto-me vivoquando me martirizasnão em ti, nem aqui,além: no chão, no anode onde tu vieste,naquele amor por elae tudo o que foi.Nessa realidadesubmersa que negaa si mesma e se empenhaem nunca ter havido,que só foi um pretextoque achei para viver.Se tu não fosses minha,ó dor, irrefutável,até creria…
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Carlos Drummond de Andrade – Romaria

Romaria A Milton Campos Os romeiros sobem a ladeira cheia de espinhos, cheia de pedras,sobem a ladeira que leva a Deuse vão deixando culpas no caminho. Os sinos tocam, chamam os romeiros: Vinde lavar os vossos pecados.Já estamos puros, sino, obrigados,mas trazemos flores, prendas e rezas. No alto do morro chega a procissão.Um leproso de…
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Octavio Paz – Irmandade

Homenagem a Claudio Ptolomeo Sou homem: duro poucoe enorme é a noite.Mas olho para cima:as estrelas escrevem.Sem entender, compreendo:também sou escritae neste exato instantealguém me soletra. Trad.: Nelson Santander REPUBLICAÇÃO: Poema publicado no blog originalmente em 07/10/2017 – agora traduzido por mim Hermandad Homenaje a Claudio Ptolomeo Soy hombre: duro…
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Joan Margarit – Cumprimentar-se

Aprendeste o gesto com os anos.Encontras o vizinho, vos cumprimentais,lado a lado, dois velhos na calçadacada um fechando a própria porta.As casas. E a convenção generosade algumas palavras na rua.Para além, já nada mais restaque esta paixão final, a calmasolitária e feroz das recordaçõessob um pedaço de azul nítido como um cálculo.Em seu quintal, cada…
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Ferreira Gullar – Digo Sim

Poderia dizerque a vida é bela, e muito,e que a revolução caminha com pés de flornos campos de meu país,com pés de borrachanas grandes cidades brasileirase que meu coraçãoé um sol de esperança entre pulmõese nuvens Poderia dizer que meu povoé uma festa só na vozde Clara Nunesno rodardas cabrochas no Carnavalda Avenida.Mas não. O…
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Ada Limón – O que eu quero lembrar

Logo antes da casa do general Vallejo,com suas imponentes pedras e paredes amarelas, há um campo ao longo do caminhopara o qual as chuvas de primavera conduzem os sapos, toda uma sinfonia deles, inaugurandoas horas logo após o sol afundar no Oceano Pacífico, a apenasuma hora de distância. Por que estou colocando você aqui? Estou…