Donizete Galvão – Solitude

Juntos, em solitude.
Cada qual com sua chaga.
Cada qual com sua cruz.
Dois corpos ardentes tão próximos,
separados pela geografia
que a mágoa desenha.
Entre os braços,
interpõem-se
desertos, salinas e dunas.
O amor morreu?
Não. Condenou-se.
Soterrou-se em veios
de duro e negro minério.
Duas árvores cujas raízes
trançaram-se rumo ao fundo.
Que frutos falhos e ásperos
nessas mãos antes tão íntimas,
que, mesmo durante o sono,
permanecem bem fechadas.

Giuseppe Ungaretti – Céu Claro

Bosque de Courton, julho de 1918

Depois de tanta
névoa
uma
a uma
se desvelam
as estrelas

Respiro
o frescor
que me deixa
a cor do céu

Me reconheço
imagem
passageira

Presa de um ciclo
imortal

Trad.: Geraldo Holanda Cavalcanti

REPUBLICAÇÃO: poema publicado no blog originalmente em 15/09/2017

Sereno

Bosco di Courton Iuglio 1918

Dopo tanta
nebbia
a una
a una
si svelano
le stelle.

Respiro
il fresco
che mi lascia
il colore del cielo,

mi riconosco
immagine
passeggera

Presa in un giro
immortale

Alison C. Rollins – Para quem me lê agora

Para quem me lê agora

depois de Jorge Luis Borges

Você é invulnerável.
A única constante é a mudança.
Tal repetição leva à nostalgia
do presente. Tenso e tímido
você recita este livro de cor. Às
cegas, você me confia à memória.
O calvo e impertinente filósofo
sabe que o caráter do homem é o seu destino.
Este poema – não vivo, mas os vestígios
de um construto conhecido como vontade.
Heráclito caminha sobre as águas na Líbia
ou: nenhum homem jamais entrou no mesmo rio duas vezes.
Desconfie de como o tradutor distorce
minhas palavras, estas ruínas que ele interpreta como
vivas. Por que você teme ser esquecido?
Saiba que de certa forma
você já está morto.

Trad.: Nelson Santander

To Whoever Is Reading Me

after Jorge Luis Borges

You are invulnerable.
The only thing constant is change.
Such repetition leads to nostalgia
for the present. Tense and timid
you recite this book by heart. Blind-
folded you commit me to memory.
The baldhead scallywag philosopher
knows that man’s character is his fate.
This poem – not alive, but the remains
of a construct known as will.
Heraclitus is walking on water in Libya
or: no man ever steps in the same river twice.
Be wary of how the translator twists
my words, these ruins he interprets as
alive. Why do you dread being forgotten?
Know that in some sense
you are already dead.

Nicanor Parra – Acácias

Passeando anos atrás
por uma rua cheia de acácias em flor
soube por um amigo bem informado
que você tinha acabado de se casar.
Respondi que por certo
eu não tinha nada a ver com o assunto.
Mas apesar de nunca ter amado você
– e disso você sabe melhor do que eu –
cada vez que florescem as acácias
– imagina só –
sinto de novo a mesma coisa que senti
quanto me atiraram à queima-roupa
a notícia devastadora
de que você tinha se casado com outro.

REPUBLICAÇÃO: poema publicado no blog originalmente em 12/09/2017

Aromos

Paseando hace años
por una calle de aromos en flor
supe por un amigo bien informado
que acababas de contraer matrimonio
contesté que por cierto
que yo nada tenía que ver en el asunto.
Pero a pesar de que nunca te amé
– eso lo sabes mejor que yo –
cada vez que florecen los aromos
– imagínate tú –
siento la misma cosa que sentí
cuando me dispararon a boca de jarro
la noticia bastante desoladora
de que te habías casado con otro.

Tyree Daye – Rio Neuse

Diga-lhes para não irem
à orla sozinhos.

Diga-lhes onde
podem beber

sem precisar olhar
por cima dos ombros.

Diga-lhes que o afogamento
está em terceiro em sua lista

de preocupações.
A primeira é deite-se,

a segunda, vem cá.
Mesmo a água

em que fui batizado
não é segura.

Eu sabia que Deus
era homem

porque ele pôs
um bebê em Maria

sem a per-
missão dela.

Trad.: Nelson Santander

Neuse River

Tell them not to go
to the banks alone.

Tell them where
they can drink

without watching
over shoulders.

Tell them drowning
is third on your list

of concerns.
First is lie down,

second, come here.
Even the water

I was baptized in
isn’t safe.

I knew God
was a man

because he put
a baby in Mary

without her
permission.

Ana Martins Marques – Interiores

AÇUCAREIRO

De amargo
basta
o amor

Agridoce,
ela disse

Mas a mim
pareceu
amargo

CADEIRA

I

Repetes
diariamente
os gestos
do primeiro homem
que se sentou
numa tarde quente
olhando as savanas

II

Pouso
de gigantescos pássaros
cansados

FRUTEIRA

Quem se lembrou de pôr sobre a mesa
essas doces evidências
da morte?

CRISTALEIRA

Guarda
e revela
a nudez
branca
da louça
o incêndio
despareado
dos cristais

TALHERES

Colher

Se o sol nela
batesse
em cheio
por exemplo
numa mesa posta
no jardim
imediatamente se formaria
um pequeno lago
de luz

Garfo

Em três ramos
floresce
o metal

Faca

Sua fria elegância
não escamoteia
o fato:
é ela que melhor se presta
ao assassinato

CÔMODA

E dela
o que restou
senão
sobre a cômoda
um par de brincos
que talvez não sejam dela?

ESTANTE

Dentro da garrafa
o navio
acaba de partir

CORTINA

Entre o fora e o dentro
lês
o vento

REPUBLICAÇÃO: poema publicado no blog originalmente em 09/09/2017

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Lisel Mueller – Há manhãs

Mesmo agora, em que o enredo
pede que eu me torne pedra,
o sol intervém. Em algumas manhãs
de verão eu saio
e o céu se abre
e se derrama sobre mim
como se eu fosse um santo
prestes a morrer. Mas o enredo
pede que eu viva,
seja comum, diga nada
a ninguém. Dentro de casa
os espelhos queimam quando eu passo.

Trad.: Nelson Santander

There Are Mornings

Even now, when the plot
calls for me to turn to stone,
the sun intervenes. Some mornings
in summer I step outside
and the sky opens
and pours itself into me
as if I were a saint
about to die. But the plot
calls for me to live,
be ordinary, say nothing
to anyone. Inside the house
the mirrors burn when I pass.

W. H. Auden – Aquele que Ama Mais

Contemplando as estrelas, logo eu discirno
Que, por elas, eu posso ir para o inferno,
Porém, na terra, a indiferença é o que menos
Temos a temer, de animais e humanos

Como seria se os astros de paixão
Por nós ardessem e disséssemos não?
Se os afetos nunca podem ser iguais
Pois que seja eu aquele que ama mais.

Por mais admirador que eu julgue ser
De estrelas que de mim não querem saber
Não posso dizer, agora que as contemplo,
Que lhes tive saudade em algum momento.

Se sumissem ou morressem todas elas
Me habituaria a um céu sem estrelas
E a sentir como sublime a treva total
Embora isso levasse um tempo, afinal.

Trad.: Nelson Santander

REPUBLICAÇÃO: poema publicado no blog originalmente em 28/08/2017

The More Loving One

Looking up at the stars, I know quite well
That, for all they care, I can go to hell,
But on earth indifference is the least
We have to dread from man or beast.

How should we like it were stars to burn
With a passion for us we could not return?
If equal affection cannot be,
Let the more loving one be me.

Admirer as I think I am
Of stars that do not give a damn,
I cannot, now I see them, say
I missed one terribly all day.

Were all stars to disappear or die,
I should learn to look at an empty sky
And feel its total dark sublime,
Though this might take me a little time.

John Murillo – Variações sobre um tema de Elizabeth Bishop

Comece com a perda. Perca tudo. Então perca tudo outra vez.
Perca uma boa mulher em um dia ruim. Encontre uma mulher melhor,
e depois perca cinco amigos correndo atrás dela. Aprenda a perder como se
sua vida dependesse disso. Aprenda que sua vida depende disso.
Aprenda como se aprende caratê, ou a andar de bicicleta. Aprenda-o, domine-o.
Perca dinheiro, perca tempo, perca sua mente natural.
Seja abandonado e depois aprenda a abandonar. Perca e
perca novamente. Mensure o caixão de um pai em comparação com as
células T de um primo. Beije sua irmã através do vidro de uma cela.
Saiba por que sua mulher não está atendendo suas ligações.
Perca o sono. Perca a religião. Perca sua carteira em El Segundo1.
Abra sua janela. Ouça: as últimas notas lentas
de uma canção de Donny Hathaway2. Uma criança chorando. Ouça:
um bêbado pragueja contra a lua. Ele soa como
seu tio morto que, antes de partir, perdeu uma perna
para o açúcar. Uma vergonha. Aprenda que o que é dado pode ser tomado;
e o que pode ser tomado, o será. Pode apostar nisso sem
perder. Claro como o anoitecer e uma cama vazia. Perca
e perca de novo. Perca até que isso seja a sua segunda natureza. Perca
mais, e perca mais rápido3. Incline-se pela janela aberta, ouça:
a criança está rindo agora. Não, é o bêbado de novo
na rua, perdendo sua voz, sofrendo por estrelas invisíveis.

Trad.: Nelson Santander

Nota:

  1. Cidade americana do Estado da Califórnia.
  2. Cantor e compositor norte-americano de soul, gospel e jazz que se suicidou em 1979, aos 33 anos de idade.
  3. Primeiro verso da terceira estrofe de “One Art”, de Elizabeth Bishop, ao qual o presente poema faz referência expressa. Para ajudar na compreensão da presente tradução, colo aqui a tradução magnífica que Paulo Henriques Britto fez do poema de Bishop e, na sequência, o original:

A Arte de Perder

A arte de perder não é nenhum mistério;
tantas coisas contêm em si o acidente
de perdê-las, que perder não é nada sério.

Perca um pouquinho a cada dia. Aceite, austero,
a chave perdida, a hora gasta bestamente.
A arte de perder não é nenhum mistério.

Depois perca mais rápido, com mais critério:
lugares, nomes, a escala subseqüente
da viagem não feita. Nada disso é sério.

Perdi o relógio de mamãe. Ah! E nem quero
lembrar a perda de três casas excelentes.
A arte de perder não é nenhum mistério.

Perdi duas cidades lindas. E um império
que era meu, dois rios, e mais um continente.
Tenho saudade deles. Mas não é nada sério.

— Mesmo perder você (a voz, o riso etéreo
que eu amo) não muda nada. Pois é evidente
que a arte de perder não chega a ser mistério
por muito que pareça (Escreve!) muito sério.

Trad.: Paulo Henriques Britto

One Art

The art of losing isn’t hard to master;
so many things seem filled with the intent
to be lost that their loss is no disaster,

Lose something every day. Accept the fluster
of lost door keys, the hour badly spent.
The art of losing isn’t hard to master.

Then practice losing farther, losing faster:
places, and names, and where it was you meant
to travel. None of these will bring disaster.

I lost my mother’s watch. And look! my last, or
next-to-last, of three loved houses went.
The art of losing isn’t hard to master.

I lost two cities, lovely ones. And, vaster,
some realms I owned, two rivers, a continent.
I miss them, but it wasn’t a disaster.

– Even losing you (the joking voice, a gesture
I love) I shan’t have lied. It’s evident
the art of losing’s not too hard to master
though it may look like (Write it!) like a disaster.

Variation on a Theme by Elizabeth Bishop

Start with loss. Lose everything. Then lose it all again.
Lose a good woman on a bad day. Find a better woman,
then lose five friends chasing her. Learn to lose as if
your life depended on it. Learn that your life depends on it.
Learn it like karate, like riding a bike. Learn it, master it.
Lose money, lose time, lose your natural mind.
Get left behind, then learn to leave others. Lose and
lose again. Measure a father’s coffin against a cousin’s
crashing T-cells. Kiss your sister through prison glass.
Know why your woman’s not answering her phone.
Lose sleep. Lose religion. Lose your wallet in El Segundo.
Open your window. Listen: the last slow notes
of a Donny Hathaway song. A child crying. Listen:
a drunk man is cussing out the moon. He sounds like
your dead uncle, who, before he left, lost a leg
to sugar. Shame. Learn what’s given can be taken;
what can be taken, will. This you can bet on without
losing. Sure as nightfall and an empty bed. Lose
and lose again. Lose until it’s second nature. Losing
farther, losing faster. Lean out your open window, listen:
the child is laughing now. No, it’s the drunk man again
in the street, losing his voice, suffering each invisible star.

Ricardo Silvestrin – Bilhete

Não me parecias frágil,
via-te doce.
Talvez fosses mesmo forte,
é preciso ser valente
pra decretar a própria morte.

Tinha-te por calmo.
Que rio obscuro e discreto
te puxava para o fundo,
sem saber nadar,
sem ninguém saber de nada?

Não deixaste uma carta,
um poema, um bilhete de suicida.
Como se quisesses dizer
que a morte
não deve explicações à vida

REPUBLICAÇÃO: poema publicado no blog originalmente em 26/08/2017