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Ted Kooser – Fazenda Abandonada

Ele era um homem grande, diz o tamanhodos seus sapatos sobre uma pilha de pratos quebrados junto à casa;um homem alto também, diz o comprimento da camano quarto do andar de cima; e um homem bom e temente a Deus,diz a Bíblia com a contracapa arruinadano chão abaixo da janela, empoeirada de sol;mas não um…
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Manuel António Pina – O Regresso

Como quem, vindo de países distantes fora desi, chega finalmente aonde sempre estevee encontra tudo no seu lugar,o passado no passado, o presente no presente,assim chega o viajante à tardia idadeem que se confundem ele e o caminho. Entra então pela primeira vez na sua casae deita-se pela primeira vez na sua cama.Para trás ficaram…
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Peter Sirr – Uma cartilha saxônica

Uma cartilha saxônica Para além deste afã e deste verso, aguarda-me inesgotável o universo. – Borges Penso então em Borges ficando cego,e no que ele disse sobre a alma.Ele tentava entender por queum homem que perde o mundobusca espadas e monstrose saxões com vozes rudes no Salão de Hidromel1. É que a alma sabe-se imortal,diz ele,…
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Lawrence Ferlinghetti – Café Notre Dame

Uma espécie de trauma sexualprende um casal abismadoEle está segurando as duas mãos delanas suasEla está beijando as mãos deleEstão olhando-senos olhosde muito pertoEla tem um casaco de pelesfeito duma centena de coelhos correndoEletem um casaco clássico sombrioe calças cinza-de-pardoAgora estão a examinar as palmasdas mãos um do outrocomo se fossem mapas de Parisou do…
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Paulo Henriques Britto – de “Fim de Verão”

VII Eis que acabou o tempo dos inícios, tendo durado o exato suficiente pra formação do hábito (ou vício) de habitar não um mísero presente, mas um futuro sempre a exigir rigorosíssimo planejamento, até que se escute a ficha cair: o tempo se esgotou. Chegou o momento de enfim viver conforme o planejado, ou então…
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Marina Tzvietáieva – Um poema em duas traduções

Tentativa de ciúme –Trad.: Augusto de Campos Como vai você com a outra?Fácil, não é? — Um golpe de remo! —E de pronto a linha da costaSe foi e você já nem se lembra De mim, ilha flutuante(No céu, por certo, não no mar)!Almas! Almas! — antes amarComo irmãs, não como amantes! Como vai você…
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Paulo Henriques Britto – de “Oito sonetos entrópicos”

I Deixar de ser é coisa natural,como é natural ser. Pensando bem(ou só pensando, seja bem ou mal),o que haverá de natural, porém,em ser o que se é, e não ser, apenas?Não haverá um toque de artifícioimplícito em escamas, pelos, penas,nos ossos que sustentam o edifíciotodo, na fome que impele essa máquinafuriosa e cega, essa…
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Anne Sexton – Para o meu Amante Voltando Para a Esposa

Ela está bem aqui.Ela foi cuidadosamente esculpida para vocêsaída de sua infânciasaída dentre seus cem colegas de escola preferidos. Ela sempre esteve aqui, meu bem.Ela é de fato extraordinária.Fogos de artifício no meio do sempre maçante Fevereiroe tão real como uma panela de ferro fundido. Vamos ser sinceros, eu fui passageira.Um artigo de luxo. Um…
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Paulo Henriques Britto – Bálsamo

Seja hoje um dia igual a qualquer outro,um dia besta, esvaziado e amorfo, o tipo de data que é esquecidaantes mesmo de virada a folhinha, e esteja você completamente imersoneste dia, como um peixe dessas espécies das regiões abissais, isentas de luz,longe do ar e seus azuis, que nas funduras de silêncio e noitefalta não…