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Manuel António Pina – A Canção dos Adultos

Parece que crescemos mas não.Somos sempre do mesmo tamanho.as coisas que à volta estãoé que mudam de tamanho. Parece que crescemos mas não crescemos.São as coisas grandes que há,o amor que há, a alegria que há,que estão a ficar mais pequenos. Ficam de nós distantesque às vezes já mal os vemos.Por isso parece que crescemose…
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Dunya Mikhail – A guerra trabalha duro

Quão magnífica é a guerra!Quão ambiciosae eficiente!Logo cedo, ela desperta as sirenese despacha ambulânciasa vários lugares,sacode corpos pelo ar,empurra macas para os feridos,convoca chuvanos olhos das mães,escava a terraexpulsando muitas coisasde baixo das ruínas…Algumas, inanimadas e reluzentes,outras, pálidas e ainda pulsantes…Ela produz muitas perguntasnas cabeças das crianças,entretém os deuseslançando fogos de artifícios e mísseisno céu,semeia…
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Francisco Brines – Os Verões

A Carmen Marí Foram longos e ardentes os verões!Ficamos nus juntos ao mar,e o mar ainda mais nu. Com os olhos,e em corpos ágeis, praticávamosa mais prazerosa posse do mundo. Éramos tocados por vozes banhadas de lua,e era a vida vulcânica e violenta,ingratos com o sonho, fluíamos.O ritmo sombrio das ondasnos abrasava eternamente, e éramos…
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Clint Smith – Tudo ao mesmo tempo

As sequoias estão em chamas na California. Uma inundação submerge um bairro que por três séculos repousou tranquilo no litoral. Uma criança dá os primeiros passos e cai nos braços do pai. Duas pessoas em Nova Orleans se apaixonam sob um carvalho cujos galhos se curvam como a tristeza. Uma floresta de sementes é plantada…
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Poemas Palestinos

Mosab Abu Toha Em uma noite sem estrelas Em uma noite sem estrelas,eu viro de um lado para outro.A terra treme, e eu caio da cama.Olho pela minha janela. A casavizinha não existe mais. Está deitada, como um velho tapete nochão da terra, pisoteada por mísseis, largos chinelosvoando de pés sem pernas.Eu não sabia que…
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Abel Silva – O Poço

A moeda do Acasocai tão fundono Poço dos Destinosque vivemos descoladosdo viver do outro,como num contrato de comportamento.O milagre do viver nos entorpece.Então a notícia da doença de um amigo,o convite para a missa de um outro,um susto, um alarme, uma suspeitanos vareja no rosto uma aragem de morte.Às vezes choramos,ficamos desorientadosmas abrimos os olhos,levantamos…
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C. Dale Young – O ponto

Os outros médicos afirmaram que ele morreria dentro de um mês. Ele continuou vivo por anos: a simples verdade é que ele mal tinha trinta anos, mas já estava morrendo há quase dois. O desejo de profecia está íntima e profundamente enraizada no retorcido e humano coração — nós o buscamos, sua borda metálica brilhante.…
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Carlos Drummond de Andrade – Procura

Procurar sem notícia, nos lugaresonde nunca passou;inquirir, gente não, porém textura,chamar à fala muros de nascença,os que não são nem sabem, elementosde uma composição estrangulada. Não renunciar, entre possíveis,feitos de cimento do impossível,e ao sol-menino opor a antiga busca,e de tal modo revolver a morteque ela caia em fragmentos, devolvendoseus intactos reféns — e aquele…
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Francisco X. Alarcón – Prece

Quero um deuspor cúmpliceque vire a noiteem espeluncasde má reputaçãoe acorde tardeaos sábados um deusque assobiepelas ruase estremeçadiante dos lábiosdo seu amor um deusque fique na filaà entradados cinemase tome café com leite um deusque cuspasangue detuberculosoe não tenhanem para o ônibus um deusque desmaiecom uma cacetadada polícianum atode protesto um deusque se urinede medo…
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Joan Margarit – Cemitério de Montjuïc

Algo resta das almas,como a brisa que surgedepois de alguém passar,e que faz estremeceruma fina cortina na janela.Pela trilha de pedras ásperas que não esquecemmas calam, severas, o que sabem,o vento deixa um silêncio de lágrimaspor vidas como a nossa, perdidas.“Jazigo perpétuo”, a terrasempre dura, fileiras de ciprestes:provinciano teatro da morte.Nosso amor é como o…