Carlos Rennó – O Momento

 

Tem um momento (que de todos é diverso)
Em que você se une ao todo, ao universo

O tempo então congela (feito lá no pólo)
Seu ego some, seu eu ergue-se do solo

E sai voando entre as estrelas na amplidão
Você se torna uma delas na explosão

Dentro de si você vê uma grande luz
Rompem-se todas as amarras e tabus

Você mergulha e chega à raiz da vida
Bebe na fonte do seu jorro sem medida

Enquanto escuta a doce música distante
Que toca fundo, ao fundo, infinda, nesse instante

A eternidade então num lapso encapsula
E a divisão entre você e o outro é nula

Esse estado não é nenhum sonho impossível
Algo irreal ou ideal, ou desse nível

Nem tá vedado à multidão de abandonados
E reservado só a alguns iluminados

Mas ao alcance de nós todos, qualquer um
De qualquer homem ou qualquer mulher comum

Você não chega lá por uma fé num deus
Cê chega lá porque então cê é um deus

Já cega por um raio de um clarão tremendo
A carne do seu ser põe-se a vibrar, tremendo

Esse é o momento, enfim, de sol e nebulosa
Em que você, meu caro, minha cara, …

– Go-o-o-o-o-o-o-o-o-o-o-za!… –

… goza

Pedro Abrunhosa – Quem me Leva os meus Fantasmas

Intérprete: Maria Bethânia

“De que serve ter o mapa
Se o fim está traçado,
De que serve a terra à vista
Se o barco está parado,
De que serve ter a chave
Se a porta está aberta,
De que servem as palavras
Se a casa está deserta?”

Aquele era o tempo
em que as mãos se fechavam
E nas noites brilhantes as palavras voavam
E eu via que o céu me nascia dos dedos
E a Ursa Maior eram ferros acesos
Marinheiros perdidos em portos distantes
Em bares escondidos
em sonhos gigantes
E a cidade vazia
da cor do asfalto
E alguém me pedia que cantasse mais alto

Quem me leva os meus fantasmas?
Quem me salva desta espada?
Quem me diz onde é a estrada?
Quem me leva os meus fantasmas?
Quem me leva os meus fantasmas?
Quem me salva desta espada?
E me diz onde é a estrada

Aquele era o tempo
Em que as sombras se abriam,
Em que homens negavam
O que outros erguiam.
E eu bebia da vida em goles pequenos,
Tropeçava no riso, abraçava venenos.
De costas voltadas não se vê o futuro
Nem o rumo da bala
Nem a falha no muro.
E alguém me gritava
Com voz de profeta
Que o caminho se faz
Entre o alvo e a seta.

Quem leva os meus fantasmas?
Quem me salva desta espada?
Quem me diz onde é a estrada?
Quem leva os meus fantasmas?
Quem leva os meus fantasmas?
Quem me salva desta espada?
E me diz onde e a estrada

Itamar Assumpção – Noite Torta

Intérprete: Zeca Baleiro

Na sala numa fruteira
a natureza está morta
laranjas, maçãs e pêras
bananas, figos de cera
decoram a noite torta

Sob a janela do quarto
a cama dorme vazia
encaro nosso retrato
sorrindo sobre o criado
no meio da noite fria

Está pingando o chuveiro
que banho mais apressado
molhado caíste fora
no espelho minh’alma chora
lá fora está tão gelado

Sozinha nesta cozinha
em pé eu tomo um café
na pia a louça suja
me lembra da roupa suja
no tanque que a vida é

Engenheiros do Hawaii – Novos Horizontes

Corpos em movimento
O universo em expansão
E o apartamento que era tão pequeno
Não acaba mais

“Vamos dar um tempo”
Não sei quem deu a sugestão
E aquele sentimento que era passageiro
Não acaba mais

Quero explodir as grades
E voar
Não tenho pra onde ir
Mas não quero ficar

Novos horizontes
Se não for isso, o que será?
Quem constrói a ponte
Não conhece o lado de lá

Quero explodir as grades e voar
Não tenho pra onde ir
Mas não quero ficar
Suspender a queda livre
Libertar
O que não tem fim sempre acaba assim

Oswaldo Montenegro – Travessuras

 

Eu insisto em cantar
Diferente do que ouvi
Seja como for recomeçar
Nada há, mais há de vir
Me disseram que sonhar
Era ingênuo, e daí?
Nossa geração não quer sonhar
Pois que sonhe a que há de vir

Eu preciso é te provar
Que ainda sou o mesmo menino
Que não dorme a planejar travessuras
– E fez do som da tua risada um hino

Humberto Gessinger – Além da Máscara

Intérprete: Pouca Vogal

Agora que a terra é redonda
E o centro do universo é outro lugar
É hora de rever os planos
O mundo não é plano, não pára de girar
Agora que tudo é relativo
Não há tempo perdido, não há tempo a perder

Num piscar de olhos tudo se transforma
Tá vendo? Já passou!
Mas ao mesmo tempo
Fica o sentimento
De um mundo sempre igual
Igual ao que já era
De onde menos se espera
Dali mesmo é que não vem

Agora que tudo está exposto
A máscara e o rosto trocam de lugar
Tô fora se esse é o caminho
Se a vida é um filme, eu não conheço diretor
Tô fora, sigo o meu caminho
Às vezes tô sozinho, quase sempre tô em paz

Num piscar de olhos tudo se transforma
Tá vendo? Já passou!
Mas ao mesmo tempo
Esse mundo em movimento
Parece não mudar
É igual ao que já era
De onde menos se espera
Dali mesmo é que não vem

Visão de raio-x
O x dessa questão
É ver além da máscara
Além do que é sabido, além do que é sentido
Ver além da máscara

Augusto de Campos – Pulsar (1975)

Intérprete: Caetano Veloso

Caetano Veloso – O Homem Velho

O homem velho deixa a vida e morte para trás
Cabeça a prumo, segue rumo e nunca, nunca mais
O grande espelho que é o mundo ousaria refletir os seus sinais
O homem velho é o rei dos animais

A solidão agora é sólida, uma pedra ao sol
As linhas do destino nas mãos a mão apagou
Ele já tem a alma saturada de poesia, soul e rock’n’roll
As coisas migram e ele serve de farol

A carne, a arte arde, a tarde cai
No abismo das esquinas
A brisa leve traz o olor fugaz
Do sexo das meninas

Luz fria, seus cabelos têm tristeza de néon
Belezas, dores e alegrias passam sem um som
Eu vejo o homem velho rindo numa curva do caminho de Hebron
E ao seu olhar tudo que é cor muda de tom

Os filhos, filmes, ditos, livros como um vendaval
Espalham-no além da ilusão do seu ser pessoal
Mas ele dói e brilha único, indivíduo, maravilha sem igual
Já tem coragem de saber que é imortal

Silvio Rodriguez e Pablo Milanés – Por Quem Merece Amor

(intérpretes: MPB4)

Te perturba esse amor?
Amor de juventude
Meu amor é amor de virtude

Te perturba esse amor?
Sem máscaras por trás
Meu amor é uma arte de paz

Te perturba esse amor?
Amor de humanidade
Meu amor é amor de verdade

Te perturba esse amor?
Com todos ao redor
Meu amor é uma arte maior

Meu amor, minha prenda encantada
Minha eterna morada
Meu espaço sem fim

Meu amor não aceita fronteira
Como a primavera
Não escolhe jardim

Meu amor, não é amor de mercado
Esse amor tão sangrado
Não se tem pra lucrar

Meu amor é tudo quanto tenho
E se eu vendo ou empenho
Para que respirar

¿Te molesta mi amor?
Mi amor de juventud
Y mi amor es un arte en virtud

¿Te molesta mi amor?
Mi amor sin antifaz
Y mi amor es un arte de paz.

¿Te molesta mi amor?
Mi amor de humanidad
Y mi amor es un arte en su edad

¿te molesta mi amor?
Mi amor de surtidor
Y mi amor es un arte mayor

Meu amor, alivia e acalma
É o remédio da alma
Pra quem quer se curar

Meu amor é humilde é singelo
E o destino mais belo
É torná-lo maior

Meu amor, o mais apaixonado
Pelo injustiçado
Pelo mais sofredor

Meu amor abre o peito pra morte
E se entrega pra sorte
Por um tempo melhor

Meu amor, esse amor destemido
Arde em fogo infinito
Por quem merece amor.

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Silvio Rodriguez – Pequeña Serenata Diurna

(intérprete: Silvio Rodriguez)

Vivo en un país libre
cual solamente puede ser libre
en esta tierra, en este instante
yo soy feliz porque soy gigante.
Amo a una mujer clara
que amo y me ama
sin pedir nada
o casi nada,
que no es lo mismo
pero es igual

Y si esto fuera poco,
tengo mis cantos
que poco a poco
muelo y rehago
habitando el tiempo,
como le cuadra
a un hombre despierto.
Soy feliz,
soy un hombre feliz,
y quiero que me perdonen
por este día
los muertos de mi felicidad.