Najwan Darwish – Fobia

serei banido da cidade
antes que a noite caia: alegarão
que não paguei pelo ar
serei banido da cidade
antes que anoiteça: alegarão
que não paguei aluguel pelo sol
nem taxas pelas nuvens
serei banido da cidade
antes que o sol nasça: dirão
que fiz infeliz a noite
e falhei em louvar as estrelas
serei banido da cidade
antes mesmo de deixar o ventre
porque tudo o que fiz por sete meses
foi escrever poemas e esperar para ser
serei banido do ser
porque sou afeito ao vazio
serei banido do vazio
por meus laços suspeitos com o ser
serei banido do ser e do vazio
porque nasci do devir

serei banido

Trad.: Nelson Santander, a partir da versão em inglês traduzida do árabe por Kareem James Abu-Zeid

N. do T.: Najwan Darwish (n. 1978) é um dos principais poetas palestinos contemporâneos. Nascido em Jerusalém, sua obra mistura lirismo, crítica política e reflexão filosófica, explorando temas como exílio, identidade e resistência. Seus poemas, traduzidos para diversas línguas, têm ganhado crescente reconhecimento no cenário literário internacional. Clique aqui para ler outros poemas palestinos já publicados no blog.

Phobia

I’ll be banished from the city
before night falls: They’ll claim
I neglected to pay for the air
I’ll be banished from the city
before the advent of evening: They’ll claim
I paid no rent for the sun
nor any fees for the clouds
I’ll be banished from the city
before the sun rises: They’ll say
I gave night grief
and failed to lift my praises to the stars
I’ll be banished from the city
before I’ve even left the womb
because all I did for seven months
was write poems and wait to be
I’ll be banished from being
because I’m partial to the void
I’ll be banished from the void
for my suspect ties to being
I’ll be banished from both being and the void
because I was born of becoming

I’ll be banished

Poemas Palestinos

Mosab Abu Toha

Em uma noite sem estrelas

Em uma noite sem estrelas,
eu viro de um lado para outro.
A terra treme, e eu caio da cama.
Olho pela minha janela. A casa
vizinha não existe mais. Está deitada, como um velho tapete no
chão da terra, pisoteada por mísseis, largos chinelos
voando de pés sem pernas.
Eu não sabia que meus vizinhos ainda tinham aquela pequena TV, que aquele quadro
antigo ainda estava pendurado em suas paredes, que a gata deles tivera filhotes.

O que é lar?

O que é lar?
é a sombra das árvores no meu caminho para a escola antes de serem arrancadas.
é a foto em preto e branco do casamento dos meus avós antes das paredes desmoronarem.
É o tapete de oração do meu tio, onde dezenas de formigas dormiam nas noites de inverno, antes de ser saqueado e colocado em um museu.
É o forno que minha mãe usava para assar pão e frango antes de uma bomba reduzir nossa casa a cinzas.
É a cafeteria onde eu assistia a partidas de futebol e jogava.
Meu filho me interrompe: uma palavra de três letras pode conter tudo isso?

Merecemos uma morte melhor

Merecemos uma morte melhor.
Nossos corpos estão desfigurados e retorcidos,
adornados com balas e estilhaços.
Nossos nomes são mal pronunciados
no rádio e na TV.
Nossas fotos, afixadas nas paredes de nossos prédios,
desbotam e empalidecem.
As inscrições em nossas lápides desaparecem,
cobertas por fezes de pássaros e répteis.
Ninguém rega as árvores que fazem sombra
em nossos túmulos.
O sol abrasador subjuga
nossos corpos em decomposição.

Mosab Abu Toha, poeta palestino. Segundo o The New York Times, recentemente ele foi detido pelas tropas israelitas enquanto migrava para o sul de Gaza com sua família. Depois de espancado, torturado e interrogado pelos soldados de Israel, acabou sendo solto no último dia 21/11.

Khaled Juma

Oh crianças malcriadas de Gaza

Oh crianças malcriadas de Gaza.
Vocês que me perturbavam o tempo todo
com seus gritos debaixo da minha janela.
Vocês que enchiam de caos e correria
todas as minhas manhãs.
Vocês que quebraram meu vaso
e roubaram a flor solitária em minha varanda.
Voltem,
e gritem o quanto quiserem
e quebrem todos os vasos.
Roubem todas as flores.
Voltem.
Apenas voltem.

Khaled Juma é um renomado escritor e poeta da Palestina. Nascido em Rafah, em 25 de outubro de 1965, Juma foi criado no campo de refugiados palestinos de Al-Shaboura, na Faixa de Gaza. Ele é chefe do Departamento Cultural da Agência de Notícias e Informações da Palestina (WAFA) e foi editor-chefe da revista Roya por sete anos.

Mahmoud Darwish

A guerra terá um fim

A guerra terá um fim.
Os líderes trocarão apertos de mãos.
A idosa continuará
esperando pelo filho martirizado.
Aquela moça vai esperar pelo
amado marido.
E essas crianças esperarão
por seu heroico pai.
Não sei quem vendeu nossas terras.
Mas eu vi quem pagou o preço.

Mahmoud Darwish (Al-Birweh, 13 de março de 1941 – Houston, 9 de agosto de 2008) foi um renomado poeta e escritor palestino. Nascido em um vilarejo a 10,5 quilômetros de Acre, na Galileia, era o segundo dos oito filhos de uma família sunita de proprietários de terras. A vila árabe foi inteiramente arrasada pelas forças israelenses durante a guerra de 1948, e a família Darwish refugiou-se no Líbano. Darwish foi membro do Movimento de Libertação da Palestina e seus estudos em Moscou o levaram à prisão e expulsão de sua terra várias vezes. Ele é o autor da Declaração de Independência Palestina, escrita em 1988 e lida pelo líder palestino Iasser Arafat, quando declarou unilateralmente a criação do Estado Palestino. Darwish é considerado o poeta nacional da Palestina.

N. do T.: todas as traduções foram feitas a partir de versões em inglês dos poemas acima.