“Todas as fotos são memento mori. Tirar uma foto é participar da mortalidade, da vulnerabilidade e da mutabilidade de outra pessoa (ou coisa). Precisamente por cortar uma fatia deste momento e congelá-lo, toda foto testemunha a dissolução implacável do tempo (…). A fotografia é simultaneamente uma pseudo-presença e um sinal de ausência.”
Susan Sontag, em "Sobre Fotografia"
Arquivos do autor: Nelson Santander
William Stafford – Sim
Pode acontecer a qualquer momento, tornado,
terremoto, Armageddon. Pode acontecer.
Ou luz solar, amor, salvação.
Pode acontecer, você sabe. É por isso que despertamos
e olhamos para fora – não há garantias
nesta vida.
Apenas alguns bônus: a manhã,
este instante, o meio-dia,
o entardecer.
Trad.: Nelson Santander
Yes
It could happen any time, tornado,
earthquake, Armageddon. It could happen.
Or sunshine, love, salvation.
It could, you know. That’s why we wake
and look out – no guarantees
in this life.
But some bonuses, like morning,
like right now, like noon,
like evening.
Carlos Drummond de Andrade – Morte das Casas de Ouro Preto
Sobre o tempo, sobre a taipa,
a chuva escorre. As paredes
que viram morrer os homens,
que viram fugir o ouro,
que viram finar-se o reino,
que viram, reviram, viram,
já não vêem. Também morrem.
Assim plantadas no outeiro,
menos rudes que orgulhosas
na sua pobreza branca,
azul e rosa e zarcão,
ai, pareciam eternas!
Não eram. E cai a chuva
sobre rótula e portão.
Vai-se a rótula crivando
como a renda consumida
de um vestido funerário.
E ruindo se vai a porta.
Só a chuva monorrítmica
sobre a noite, sobre a história
goteja. Morrem as casas.
Morrem, severas. É tempo
de fatigar-se a matéria
por muito servir ao homem,
e de o barro dissolver-se.
Nem parecia, na serra,
que as coisas sempre cambiam
de si, em si. Hoje vão-se.
O chão começa a chamar
as formas estruturadas
faz tanto tempo. Convoca-as
a serem terra outra vez.
Que se incorporem as árvores
hoje vigas! Volte o pó
a ser pó pelas estradas!
A chuva desce, às canadas.
Como chove, como pinga
no país das remembranças!
Como bate, como fere,
como traspassa a medula,
como punge, como lanha
o fino dardo da chuva
mineira, sobre as colinas!
Minhas casas fustigadas,
minhas paredes zurzidas,
minhas esteiras de forro,
meus cachorros de beiral,
meus paços de telha-vã
estão úmidos e humildes.
Lá vão, enxurrada abaixo
as velhas casas honradas
em que se amou e pariu,
em que se guardou moeda
e no frio se bebeu.
Vão no vento, na caliça,
no morcego, vão na geada,
enquanto se espalham outras
em polvorentas partículas,
sem as vermos fenecer.
Ai, como morrem as casas!
Como se deixam morrer!
E descascadas e secas,
ei-las sumindo-se no ar.
Sobre a cidade concentro
o olhar experimentado,
esse agudo olhar afiado
de quem é douto no assunto.
(Quantos perdi me ensinaram.)
Vejo a coisa pegajosa,
vai circunvoando na calma.
Não basta ver morte de homem
para conhecê-la bem.
Mil outras brotam em nós,
à nossa roda, no chão.
A morte baixou dos ermos,
gavião molhado. Seu bico
vai lavrando o paredão
e dissolvendo a cidade.
Sobre a ponte, sobre a pedra,
sobre a cambraia de Nize,
uma colcha de neblina
(já não é a chuva forte)
me conta por que mistério
o amor se banha na morte.
REPUBLICAÇÃO: poema originalmente publicado na página em 23/02/2016
Sean Thomas Dougherty – O Segundo O do Sofrimento
De alguma forma, ainda estou aqui, muito depois
dos rádios transístores, das fitas que meu pai tocava alto
dirigindo de cidade em cidade por Ohio,
vendendo coisas, a música que dançávamos
apenas para nos mantermos vivos. Percebo agora que não
deveria ter partido tão cedo, meio século
uma espécie de rocha que empurrei morro acima
& agora, por um momento, como Sísifo,
observo-a rolar.
Caminho pela neve.
Respiro o vento sujo do East Side
passando pela igreja russa, o odor
de peixes & cargueiros & da refinaria
preenchendo o vazio em meu peito — quantos anos
se acumularam desde que pela última vez cambaleei sobre o gelo
& me sentei para morrer?
Apenas para erguer os olhos para a geometria
do céu — & me levantar
para encarar quem quer que precisasse de mim —
Trad.: Nelson Santander
The Second O of Sorrow
Somehow, I am still here, long after
transistor radios, the eight-tracks my father blared
driving from town to town across Ohio
selling things, the music where we danced
just to keep alive. I now understand I was not
supposed to leave so soon, half a century
a kind of boulder that I’ve pushed up the hill
& now for a moment, like Sisyphus
I watch it roll.
I walk through the snow.
I breathe the dirty East Side wind
pushing past the Russian church, the scent
of fish & freighters & the refinery
filling the hole in my chest—how many years
have piled since I last stumbled out onto the ice
& sat down to die.
Only to look up at the geometry
of sky—& stood
to face whoever might need me—
T. S. Eliot – Quatro Quartetos (Excertos): East Coker
Em meu princípio está meu fim. Uma após outras
As casas se levantam e tombam, desmoronam, são ampliadas,
Removidas, destruídas, restauradas, ou em seu lugar
Surgem um campo aberto, uma usina ou um atalho.
Velhas pedras para novas construções, velhas lenhas para novas chamas,
Velhas chamas em cinzas convertidas, e cinzas sobre a terra semeada,
Terra agora feita carne, pele e fezes,
Ossos de homens e bestar, trigais e folhas.
As casas vivem e morrem: há um tempo para construir
E um tempo para viver e conceber
E um tempo para o vento estilhaçar as trêmulas vidraças
E sacudir o lambril onde vagueia o rato silvestre
E sacudir as tapeçarias em farrapos tecidas com a silente legenda.
Em meu princípio está meu fim. Agora a luz declina
Sobre o campo aberto, abandonando a recôndita vereda
Cerrada pelos ramos, sombra na tarde,
Ali, onde te encolhes junto ao barranco, quando passa um caminhão,
E a recôndita vereda insiste
Rumo à aldeia, ao aquecimento elétrico
Hipnotizada. Na tépida neblina, a luz abafada
É absorvida, irrefratada, pela rocha cinzenta.
As dálias dormem no silêncio vazio.
Aguarda a coruja prematura.
A este campo aberto
Se não vieres muito perto, se muito perto não vieres,
À meia-noite de verão, poderás ouvir a música
Da tíbia flauta e do tambor pequenino
E vê-los a dançar ao redor do fogo
Homem e mulher ajuntados
Bailando na dança que celebra o matrimônio,
Esse dino e commodo sacramento.
Dous e dous, necessaria comunhãao,
Huus aos outros enleados pollo braço ou polla mãao,
Na dança que anumçia a comcordia. Girando e girando ao
redor do fogo
Saltando por entre as chamas, ou reunidos em círculos,
Rusticamente solenes ou em rústico alvoroço
Erguendo os pesados pés que rudes sapatos calçam
Pés de terra pés de barro, suspensos em campestre alegria,
Alegria dos que há muito repousam sob a terra
Nutrindo o trigo. Mantendo o ritmo
Mantendo o ritmo da sua dança
Como em suas vidas nas estações da vida
O tempo das estações e das constelações
O tempo da ordenha e o tempo da colheita
O tempo da cópula entre homem e mulher
E o das bestas. Pés para cima, pés para baixo,
Comendo e bebendo. Bosta e morte.
Desponta a aurora, e um novo dia
Para o silêncio e o calor se apresta. O vento da aurora
Desliza e ondula no mar alto. Estou aqui,
Ou ali, ou mais além. Em meu princípio.
(…)
III
Ó escuro escuro escuro. Todos mergulham no escuro,
Nos vazios espaços interestelares, no vazio que o vazio inunda,
Capitães, banqueiros, eminentes homens de letras,
Generosos mecenas de arte, estadistas e governantes,
Ilustres funcionários públicos, presidentes de vários comitês,
Magnatas da indústria e pequenos empreiteiros, todos
mergulham no escuro,
E escuros o Sol e a Lua, o Almanaque de Gotha,
A Gazeta da Bolsa, o Anuário dos Diretores,
E frio o sentido e perdido o fundamento da ação,
E todos os seguimos no silente funeral,
Funeral de ninguém, pois a ninguém há que enterrar.
Eu disse à minh’alma, fica tranquila, e deixa baixar o escuro sobre ti,
Pois que aí tudo será treva divina. Como num teatro,
As luzes se apagam para a troca de cenários
Com um côncavo ribombo de asas, com um movimento e
treva sobre treva,
E sabemos que as colinas e as árvores, o distante panorama
E a soberba fachada altiva estão sendo arrastados para longe
– Ou quando, no metrô, um trem se demora entre duas estações
E as conversas se animam e lentamente tombam no vazio
E vês por detrás de cada rosto aprofundar-se o vazio mental
Que semeia apenas o crescente terror de nada haver em que pensar;
Ou quando, sob o éter, o pensamento é consciente, mas
consciente de nada –
Eu disse à minh’alma, fica tranquila, e espera sem esperança
Pois a esperança seria esperar pelo equívoco; espera sem amor
Pois o amor seria amar o equívoco; contudo ainda há fé
Mas a fé, o amor e a esperança permanecem todos à espera.
Espera sem pensar, pois que pronta não estás para pensar:
Assim a treva em luz se tornará, e em dança há de o repouso se tornar.
Murmúrio de águas velozes e relâmpagos de inverno.
O irrevelado tomilho selvagem e os morangos silvestres.
O riso no jardim, êxtase repetido pelo eco
Jamis perdido, mas que reclama e persegue a agonia
Da morte e do nascimento.
Dirás que estou a repetir
Alguma coisa que antes já dissera. Tornarei a dizê-lo
Tornarei a dizê-lo? Para chegares até lá,
Para chegares onde estás, para saíres de onde não estás,
Deves seguir por um caminho onde o êxtase não medra.
Para chegares ao que não sabes
Deves seguir por um caminho que é o caminho da ignorância.
Para possuíres o que não possuis
Deves segur pelo caminho do despojamento.
Para chegares ao que não és
Deves cruzar pelo caminho em que não és.
E o que não sabes é apenas o que não sabes
E o que possuis é o que não possuis
E onde estás é onde não estás.
Trad.: Ivan Junqueira
REPUBLICAÇÃO: poema originalmente publicado na página em 23/02/2016
Rosemerry Wahtola Trommer – Névoa
E às vezes, quando me vejo
à margem de uma imensidão —
um lago, um mar, uma encosta de montanha —
minha pequenez me extasia
e a maior de minhas tristezas
diminui e fica menor que o espaço
entre grãos de areia,
e nesse instante,
conhecendo meu lugar,
surge em mim um amor tão grande
que posso amar qualquer pessoa, qualquer pessoa,
até a mim mesma.
Trad.: Nelson Santander
Misty
And sometimes when I move
at the edge of a greatness—
a lake or a sea or a mountainside—
my insignificance thrills me
and the largest of my sadnesses
dwindles smaller than the space
between grains of sand
and in that moment,
knowing my place,
comes a love so enormous
I can love anyone, anyone,
even myself.
T. S. Eliot – Quatro Quartetos (Excertos): Burnt Norton
I
O tempo presente e o tempo passado
Estão ambos talvez presentes no tempo futuro
E o tempo futuro contido no tempo passado.
Se todo tempo é eternamente presente
Todo tempo é irredimível.
O que poderia ter sido é uma abstração
Que permanece, perpétua possibilidade,
Num mundo apenas de especulação.
O que poderia ter sido e o que foi
Convergem para um só fim, que é sempre presente.
Ecoam passos na memória
Ao longo das galerias que não percorremos
Em direção à porta que jamais abrimos
Para o roseiral. Assim ecoam minhas palavras
Em tua lembrança.
Mas com que fim
Perturbam elas a poeira sobre uma taça de pétalas.
Não sei.
Outros ecos
Se aninham no jardim. Seguiremos?
Depressa, disse o pássaro, procura-os, procura-os
Na curva do caminho. Pela primeira porta,
Aberta ao nosso mundo primeiro, aceitaremos
A trapaça do tordo? Em nosso mundo primeiro.
Lá estavam eles, dignificados e invisíveis,
Movendo-se imponderáveis sobre as folhas mortas,
No calor do outono, através do ar vibrante,
E o pássaro cantou, em resposta
À inaudita música oculta na folhagem.
E um radiante olhar impressentido trespassou o espaço,
porque as rosas
Tinham aparência de flores contempladas.
Lá estavam eles, como nossos hóspedes, acolhidos e acolhedores.
Assim, caminhamos, lado a lado, em solene postura,
Ao longo da alameda deserta, rumo à cerca de bruxos,
Para mergulhar os olhos no tanque agora seco.
Seco o tanque, concreto seco, calcinados bordos,
E o tanque inundado pela água da luz solar,
E os lótus se erguiam, docemente, docemente,
A superfície flamejou no coração da luz,
E eles atrás de nós, refletidos no tanque.
Passou então uma nuvem, e o tanque esvaziou.
Vai, disse o pássaro, porque as folhas estão cheias de crianças,
Maliciosamente escondidas, a reprimir o riso.
Vai, vai, vai, disse o pássaro: o gênero humano
Não pode suportar tanta realidade.
O tempo passado e o tempo futuro,
O que poderia ter sido e o que foi,
Convergem par aum só fim, que é sempre presente.
(…)
Trad.: Ivan Junqueira
REPUBLICAÇÃO: poema originalmente publicado na página em 23/02/2016
Ada Limón – Resgate
No cume do Monte Pisgah, na encosta
oeste das Mayacamas, há uma madrone,
meio queimada pelas chamas, meio viva
pela urgência natural de perpetuar-se. Um lado
é cinza escuro, e em sua raiz há o que
parece ser uma cavidade escavada pelo fogo.
Do outro lado, brotos verde-prateados de folhas largas
ascendem em direção à luz invernal
e sua casca é uma mescla entre o cavalo-baio
e o alazão, vermelha e aveludada
como o pescoço do animal que ela evoca.
Fitando a árvore demoradamente, lembro-me
da integridade que tinha antes de ser queimada
pelo tempo. Sinto falta de quem eu era, de quem todos éramos
antes de sermos isso: meio vivos para o céu que clareia,
mas já meio mortos. Pouso minha mão sobre a casca
sem cicatrizes, fresca e intocada, e porque não posso
pedir desculpas à árvore, a mim mesma digo: lamento.
Lamento ter sido tão imprudente com sua vida.
Salvage
On the top of Mount Pisgah, on the western
slope of the Mayacamas, there’s a madrone
tree that’s half-burned from the fires, half-alive
from nature’s need to propagate. One side
of her is black ash, and at her root is what
looks like a cavity hollowed out by flame.
On the other side, silvery-green broadleaf
shoots ascend toward the winter light
and her bark is a cross between a bay
horse and a chestnut horse, red and velvety
like the animal’s neck she resembles. Staring
at the tree for a long time now, I am reminded
of the righteousness I had before the scorch
of time. I miss who I was. I miss who we all were,
before we were this: half-alive to the brightening sky,
half-dead already. I place my hand on the unscarred
bark that is cool and unsullied, and because I cannot
apologize to the tree, to my own self I say, I am sorry.
I am sorry I have been so reckless with your life.
Ernest Dowson – Vitae Summa Brevis Spem Nos Vetat Incohare Longan
Vitae Summa Brevis Spem nos Vetat Incohare Longam
A brevidade da vida impede que possamos acalentar longas esperanças – Horácio
A alegria, o desejo, o pranto, o amor
E a raiva duram pouco.
Nada disso, que eu saiba, há de transpor
O umbral conosco.
Poucos dias de rosas e de vinho:
Surge num vago sonho
E logo se desfaz nosso caminho
Dentro de um sonho.
Trad.: Nelson Ascher
Vitae Summa Brevis Spem Nos Vetat Incohare Longam
The brief sum of life forbids us the hope of enduring long – Horace
They are not long, the weeping and the laughter,
Love and desire and hate:
I think they have no portion in us after
We pass the gate.
They are not long, the days of wine and roses:
Out of a misty dream
Our path emerges for a while, then closes
Within a dream.
William Stafford – Como é
Há um fio que você segue. Ele passa entre
as coisas que mudam. Mas ele não muda.
As pessoas se perguntam o que você persegue.
Você precisa explicar sobre o fio.
Mas é difícil para os outros enxergá-lo.
Enquanto o segura, você não pode se perder.
Tragédias ocorrem; pessoas se ferem
ou morrem; e você sofre e envelhece.
Nada que você faz pode deter o desenrolar do tempo.
Você nunca solta o fio.
The Way It Is
There’s a thread you follow. It goes among
things that change. But it doesn’t change.
People wonder about what you are pursuing.
You have to explain about the thread.
But it is hard for others to see.
While you hold it you can’t get lost.
Tragedies happen; people get hurt
or die; and you suffer and get old.
Nothing you do can stop time’s unfolding.
You don’t ever let go of the thread.