Anna Kamieńska – Anaximandro chega à costa do exílio e funda a cidade de Sozópolis

Sou eu,
Anaximandro de Mileto1,
exilado de minha pátria.
Ainda ouço o baque seco das esferas negras
caindo na urna de argila.
Culpado.
Mas é preciso ponderar bem
o que é o exílio.
Será que o homem o experimenta
apenas uma vez?
Para começo de conversa,
somos exilados do ventre materno.
É o primeiro infortúnio – e a raiz de todos os demais.
Depois somos afastados
do seio, do colo materno.
Exilados da doce ignorância da infância,
mais tarde da juventude, da força
e dos corações estreitos das mulheres.
Exilados, um por um, de todos os ideais
que os homens reputam como bons.
Por fim, após suportar todos os exílios,
seremos exilados da vida,
desta tênue nesga de ar.
Mas exilado da pátria?
Daquele naco de terra
não mais fértil que qualquer outro,
daquela multidão de ruidosos concidadãos
que cheiram a alho e cebola?
Então, estou exilado
de brigas, rixas, do mau cheiro.
Isso não é castigo – é quase um favor.
Se eu fosse poeta,
comporia hinos de gratidão
louvando minha pátria,
tão agradável de longe.

Aqui faz tanto calor quanto no forno de um oleiro ateniense.
O mar é o mesmo,
e certamente as estrelas não serão diferentes quando surgirem.
Aqui, neste promontório, fundaremos
uma cidade de libertação
das disputas da terra natal.
Já consigo ver as telhas vermelhas,
onde as gaivotas virão pousar,
janelas sombreadas por redes de pesca,
varandas cobertas por videiras, entre figueiras,
onde gozaremos o entardecer.

Exilado — de quais privilégios?
Dos embustes dos mercadores?
Da insolência dos pequenos burocratas?
Da soberba dos filósofos?
Da corrupção dos juízes?
Da prostituição dos escritores?
Ou talvez do privilégio do riso da multidão
quando malabaristas se estabelecem junto à ágora?

E ainda assim,
eu, Anaximandro
de Mileto,
exilado de minha pátria!
Privado do direito de estremecer com seu destino,
de sofrer com ela e de chorar.

Trad.: Nelson Santander, tradução do polonês a partir da versão para o inglês feita por Grazyna Drabik and David Curzon

  1. Anaximandro de Mileto (c. 610–546 a.C.) foi um filósofo pré-socrático, discípulo de Tales e pioneiro no pensamento cosmológico e geográfico da Grécia antiga. Não há registros históricos de que tenha sido exilado ou fundado Sozópolis — cidade cujo nome, “cidade da salvação”, existiu em vários pontos do mundo grego, mas sem relação com o filósofo. Kamieńska cria, aqui, uma fábula poética: reinventa Anaximandro como símbolo do pensador expulso de sua terra e fundador de uma nova ordem, mais justa e contemplativa, onde o exílio se transforma em ato de criação. ↩︎

Anaxiamander lands at the shore of exile and founds the city of Sozopolis

It’s me,
Anaximander of Miletus,
exiled from my country.
I can still hear the clatter of black balls
falling into the clay urn.
Guilty.
But one should weigh carefully
what exile is.
Is it only once that a man
experiences exile?
To begin with
you are exiled from mother’s womb.
It’s the first misfortune, and the cause of all the others.
Later on you are pushed away
from her breast, from her lap.
Exiled from the child’s charming ignorance,
then from youth, strength
and from the small hearts of women.
Exiled, one after another, from all ideas
that people value as good.
Finally, after you suffer through all exiles,
you’ll be exiled from life,
from this mere sliver of breath.
But exiled from your country?
From that scrap of earth
no more fertile than any other,
from that throng of raucous fellow citizens
who stink of garlic and onions?
So I’m exiled
from brawls, squabbles, stench.
But this isn’t punishment. It’s almost a favor.
If I were a poet
I’d compose hymns of thanks
to extol my country,
so pleasant from a distance.

It’s as hot here as in the oven of an Athenian potter.
The sea’s the same
and surely the stars won’t be different when they rise.
Here, on this promontory, we’ll found
a city of deliverance
from homeland squabbles.
I can already see red tiles,
on which seagulls will rest,
windows shaded by a fishing net,
porches covered by grapevines, among fig trees,
where we’ll enjoy the evening.

Exiled — from what privileges?
From the swindles of merchants?
From the insolence of petty bureaucrats?
From the conceit of philosophers?
From the corruption of judges?
From the whorishness of writers?
Or perhaps from the privilege of a crowd’s laughter
when jugglers set themselves up near the agora?

And yet,
I, Anaximander
of Miletus,
exiled from my country!
Denied the right to tremble about its fate,
to suffer with it and to cry.