Sou eu,
Anaximandro de Mileto1,
exilado de minha pátria.
Ainda ouço o ruído seco das esferas negras
caindo na urna de argila.
Culpado.
Mas é preciso ponderar bem
o que é o exílio.
Será que o homem o experimenta
apenas uma vez?
Para começar,
você é exilado do ventre materno.
É o primeiro infortúnio e a causa de todos os outros.
Depois você é afastado
do seio, do colo materno.
Exilado da encantadora inconsciência infantil,
depois da juventude, da força
e do pequeno coração de uma mulher.
Exilado, um após outro, de todos os conceitos
que os homens consideram bons.
Por fim, depois de sofrer todos os exílios,
você será exilado da vida,
desta mínima partícula de fôlego.
Mas exilado da pátria?
Daquele naco de terra
não mais fértil que qualquer outro,
daquela multidão de ruidosos concidadãos
que fedem a alho e cebola?
Então estou exilado
de brigas, rixas, fedor.
Isso não é castigo. É quase uma graça.
Se eu fosse poeta,
comporia hinos de gratidão
em louvor à minha pátria,
tão agradável de longe.
Aqui faz tanto calor quanto no forno de um oleiro ateniense.
O mar é o mesmo,
e certamente as estrelas não serão diferentes quando nascerem.
Aqui, neste promontório, fundaremos
uma cidade de salvação
das rixas da pátria.
Já consigo ver as telhas vermelhas,
onde as gaivotas virão pousar,
janelas cobertas por uma rede,
varandas entre videiras e figueiras,
onde gozaremos o entardecer.
Exilado — de quais privilégios?
Das trapaças dos mercadores?
Da insolência dos pequenos burocratas?
Da soberba dos filósofos?
Da corrupção dos juízes?
Da putaria dos escritores?
Ou talvez do privilégio do riso popular
quando os malabaristas se instalam junto à ágora?
E ainda assim,
eu, Anaximandro
de Mileto,
exilado de minha pátria!
Privado do direito de tremer por seu destino,
de sofrer com ela e chorar!
Trad.: Nelson Santander, a partir da versão inglesa de Grażyna Drabik e David Curzon, cotejada com o original em polonês.
- Anaximandro de Mileto (c. 610–546 a.C.) foi um dos primeiros filósofos pré-socráticos e uma figura central da escola jônica. Uma tradição antiga, transmitida por Eliano, afirma que ele teria liderado colonos de Mileto na fundação de Apolônia Pôntica, a atual Sozopol, na costa búlgara do Mar Negro; a historicidade desse relato é, porém, discutida, sobretudo porque a cronologia conhecida tornaria Anaximandro jovem demais para ter participado da fundação, situada por volta de 610 a.C. Séculos depois, Apolônia passou a chamar-se Sozopolis — literalmente, “cidade da salvação” —, origem do nome moderno Sozopol. Kamieńska transforma essa tradição incerta numa fábula sobre o exílio: seu Anaximandro imagina fundar uma nova “cidade de salvação”, livre das rixas da pátria, para descobrir ao final que o desterro o privou não apenas de um lugar, mas do direito de compartilhar o destino e o sofrimento de sua terra. ↩︎
Anaxiamander lands at the shore of exile and founds the city of Sozopolis
It’s me,
Anaximander of Miletus,
exiled from my country.
I can still hear the clatter of black balls
falling into the clay urn.
Guilty.
But one should weigh carefully
what exile is.
Is it only once that a man
experiences exile?
To begin with
you are exiled from mother’s womb.
It’s the first misfortune, and the cause of all the others.
Later on you are pushed away
from her breast, from her lap.
Exiled from the child’s charming ignorance,
then from youth, strength
and from the small hearts of women.
Exiled, one after another, from all ideas
that people value as good.
Finally, after you suffer through all exiles,
you’ll be exiled from life,
from this mere sliver of breath.
But exiled from your country?
From that scrap of earth
no more fertile than any other,
from that throng of raucous fellow citizens
who stink of garlic and onions?
So I’m exiled
from brawls, squabbles, stench.
But this isn’t punishment. It’s almost a favor.
If I were a poet
I’d compose hymns of thanks
to extol my country,
so pleasant from a distance.
It’s as hot here as in the oven of an Athenian potter.
The sea’s the same
and surely the stars won’t be different when they rise.
Here, on this promontory, we’ll found
a city of deliverance
from homeland squabbles.
I can already see red tiles,
on which seagulls will rest,
windows shaded by a fishing net,
porches covered by grapevines, among fig trees,
where we’ll enjoy the evening.
Exiled — from what privileges?
From the swindles of merchants?
From the insolence of petty bureaucrats?
From the conceit of philosophers?
From the corruption of judges?
From the whorishness of writers?
Or perhaps from the privilege of a crowd’s laughter
when jugglers set themselves up near the agora?
And yet,
I, Anaximander
of Miletus,
exiled from my country!
Denied the right to tremble about its fate,
to suffer with it and to cry.

Deixe um comentário