A moeda do Acaso cai tão fundo no Poço dos Destinos que vivemos descolados do viver do outro, como num contrato de comportamento. O milagre do viver nos entorpece. Então a notícia da doença de um amigo, o convite para a missa de um outro, um susto, um alarme, uma suspeita nos vareja no rosto uma aragem de morte. Às vezes choramos, ficamos desorientados mas abrimos os olhos, levantamos os ombros e seguimos em frente. A gente é assim. Como não guardo a esperança de um encontro feliz ao final das eras, valorizo o tempo do aconchego, abraço, beijo, conforto, aceito, sirvo. Armo como posso a teia do afeto, enquanto estamos perto enquanto estamos vivos.
REPUBLICAÇÃO: poema publicado na página originalmente em 02/01/2019
Os outros médicos afirmaram que ele morreria
dentro de um mês. Ele continuou vivo por anos:
a simples verdade é que ele mal tinha trinta anos,
mas já estava morrendo há quase dois.
O desejo de profecia está íntima e profundamente
enraizada no retorcido e humano coração —
nós o buscamos, sua borda metálica brilhante.
O câncer se espalhou para seus ossos e depois para o fígado.
Cada vez que reaparecia, tratávamos
com radiação; estancávamos, detínhamos,
até que se espalhou para os pulmões, tornando cada tratamento
que eu propunha menos e menos uma opção.
Então é isso? Você vai simplesmente me deixar morrer? Mano, você vai me abandonar assim?
Mas aqui, veja, a língua é mais astuta do que
uma faca, a palavra escolhida não é apenas “irmão” mas
uma palavra que corta mais fundo do que o inglês jamais poderia.
O desejo de profetizar é profundo, mas não garantido.
Não lhe ofereci nenhuma resposta. Não lhe dei mais nada.
E quando tentei colocar minha mão em
seu braço, ele se afastou de mim e me pediu
para deixa-lo, deixa-lo naquele momento, e acrescentou:
Mano, novamente, para enfatizar o ponto mais afiado.
O fato é que ele mal tinha trinta anos de idade,
e eu havia falhado com ele, não tinha mais o que tentar.
Nem mesmo eu poderia culpa-lo por aquela facada finamente
afiada, aquela palavra espanhola cuidadosamente escolhida.
Para alguns, a coruja é o símbolo da morte por vir.
Para outros, a guardiã que conduz as almas.
Ainda não tenho certeza a qual hipótese devo aderir.
Mas não havia coruja à vista naquela manhã,
apenas uma semana depois que tentei falar com ele,
e nada para ver lá fora, apenas a escuridão.
Eu sabia que havia algo errado, terrivelmente errado,
por mais que tentasse acalmar minha mente.
Fiquei ali pensando, pensando em tudo:
nossa última conversa, meus fracassos, e agora?
Tentei me tranquilizar, sabendo que
havia feito tudo o que podia por ele.
Alguns de nós estudam o futuro; outros, o passado.
Não faz diferença alguma. Naquele dia, no trabalho,
a irmã dele ligou para me avisar que ele havia morrido.
Ele falecera naquela manhã, pouco antes do sol
começar a surgir. Porque eu sabia disso então,
sabia antes mesmo das notícias chegarem,
ainda me perturba até hoje. Não o inglês.
Não “irmão”, incômodo sepultado na palavra.
Em vez disso, a palavra em espanhol que ele conhecia deixaria
uma marca, cortaria até o osso, afiada como uma faca.
The Point
His other doctors proclaimed he would die
within a month. He kept on living for years:
the simple fact is that he was barely thirty
but had been dying for almost two of them.
The urge for prophecy is deep and deeply
rooted inside the gnarled and human heart—
we seek it out, its shiny metallic edge.
The cancer spread to his bones and then his liver.
Each time it reappeared, we treated it
with radiation; we stalled it, held it back,
until it spread to his lungs making every treatment
that I proposed seem less and less an option.
So this is it? You’re just going to let me die?
Mano, you leave me here to die like this?
But here, you see, the tongue is wiser than
a knife, the word selected not just “brother” but
a word that cut far deeper than English ever could.
The urge to prophecy is deep but not a given.
I gave no answer. I gave him nothing more.
And when I tried to rest my hand against
his arm, he turned away from me and said
to leave him, leave him now, to which he added
Mano, again, to drive the sharpened point home.
The fact is that he was barely thirty years old,
and I had failed him, run out of things to try.
Not even I could blame him for that finely-
honed stab, that carefully-chosen Spanish word.
To some, the owl is a symbol of death to come.
For others, it is the guardian that ferries souls.
I’m still not sure to which one I subscribe.
But there was not an owl in sight that morning,
barely a week since trying to talk to him,
and nothing to see outside except the dark.
I knew that something was off, was terribly wrong,
no matter how I tried to calm my mind.
I stood there thinking, thinking about it all:
our final conversation, my failures, what now?
I tried to reassure myself that I
had done all that I could have done for him.
Some of us study the future, and others the past.
It makes no difference at all. At work that day,
his sister called to let me know he died.
He passed that morning just before the sun
had started rising. Why I knew this then,
knew it before the news had yet to come,
troubles me even to this day. Not English.
Not “brother,” bother buried inside the word.
Instead, the Spanish word he knew would leave
a mark, would slice to the bone, sharp as a knife.
Procurar sem notícia, nos lugares onde nunca passou; inquirir, gente não, porém textura, chamar à fala muros de nascença, os que não são nem sabem, elementos de uma composição estrangulada.
Não renunciar, entre possíveis, feitos de cimento do impossível, e ao sol-menino opor a antiga busca, e de tal modo revolver a morte que ela caia em fragmentos, devolvendo seus intactos reféns — e aquele volte.
Venha igual a si mesmo, e ao tão-mudado, que o interroga, insinue a sigla de um armário cristalino, além do qual, pascendo beatitudes, os seres-bois, completos, se transitem, ou mugidoramente se abençoem.
Depois, colóquios instantâneos liguem Amor, Conhecimento, como fora de espaço e tempo hão de ligar-se, e breves despedidas sem lenços e sem mãos restaurem — para outros — na esplanada o império do real, que não existe.
REPUBLICAÇÃO: poema publicado na página originalmente em 27/12/2018
Algo resta das almas, como a brisa que surge depois de alguém passar, e que faz estremecer uma fina cortina na janela. Pela trilha de pedras ásperas que não esquecem mas calam, severas, o que sabem, o vento deixa um silêncio de lágrimas por vidas como a nossa, perdidas. “Jazigo perpétuo”, a terra sempre dura, fileiras de ciprestes: provinciano teatro da morte. Nosso amor é como o que eles perderam. Já é noite. Olha, do topo da colina dos mortos, sob o céu negro, as luzes da cidade: um navio ancorado no firmamento que nos espera para zarpar.
Trad.: Nelson Santander
REPUBLICAÇÃO: poema publicado na página originalmente em 24/12/2018
Algo queda de las ánimas, como la brisa que surge después de que alguien ha pasado, y que hace estremecer una leve cortina en la ventana. Por la senda de piedras ásperas que no olvidan pero callan, severas, lo que saben, el viento deja un silencio de lágrimas por vidas como la nuestra, perdidas. «Concesión perpetua», la tierra siempre dura, hileras de cipreses: provinciano teatro de la muerte. Nuestro amor es como el que ellos perdieron. Ya es de noche. Mira, desde la cumbre de la colina de los muertos, bajo el cielo negro, las luces de la ciudad: un navío anclado en el firmamento que está esperándonos para zarpar.
Não sei por onde começar
na lista
de todas as coisas que estão desaparecendo: peixes, pássaros, árvores,
flores, abelhas,
e também idiomas. Dizem que, se as taxas históricas forem
calculadas,
um idioma morrerá a cada quatro meses.
No tempo que leva para dizer eu te amo, ou ir morar com alguém,
ou admitir o filho que se está carregando, todas as palavras intricadas
de um idioma se extinguem.
Há coisas demais para segurar na palma do cérebro.
Seu pai com Alzheimer usa a palavra coisa para descrever
muitos substantivos diferentes e nós adivinhamos a palavra que ele quer dizer.
Quando acertamos, ele acena como se fosse óbvio.
Quando erramos, seu rosto se fecha como um punho.
Caminhando pelo bairro, há um poste largo
de metal
em que foi riscada a frase "Brandy Earlywine ama
Jack Pickett", seguida de corações. A enxurrada de
corações
riscados repetidamente como se, caso tenhamos esquecido
a palavra amor, conheçamos seu símbolo. Como se a srta. Earlywine
quisesse que soubéssemos que, mesmo depois que ela e o sr. Pickett
partiram e seus corações reais cessaram — aqueles que não se parecem
em nada com esses pequenos símbolos — frenética e furiosamente,
tarde da noite sob a luz da rua, enquanto seus pais pensavam
que eles estavam dormindo, eles inscreveram no corpo de algo como
uma árvore permanente, um coração — para que, mesmo depois que seus corpos
deixassem de ser corpos e suas bocas não fossem mais capazes de palavras,
aquela forma universal nos contasse como ela se sentiu, em uma noite azul,
há muito tempo, quando ainda havia 7.000 idiomas que nomeavam e honravam
as plantas e os animais, cada um à sua
maneira, quando seu pai dizia coisa e nós sabíamos o que significava,
e as abelhas eram grandes e redondas e zumbiam.
Trad.: Nelson Santander
On a lamppost long ago
I don’t know what to think of first in the list
of all the things that are disappearing: Fishes, birds, trees, flowers, bees,
and languages too. They say that if historical rates are averaged, a language will die every four months.
In the time it takes to say I love you, or move in with someone, or admit to the child you’re carrying, all the intricate words of a language become extinct.
There’s too many things to hold in the palm of the brain.
Your father uses the word thing to describe many different nouns and we guess the word he means. When we get it right, he nods as if it’s obvious.
When we get it wrong, his face closes like a fist.
Out walking in the neighborhood, there’s a wide metal lamp post that has scratched into it, Brandy Earlywine loves Jack Pickett and then there come the hearts. The barrage of hearts scratched over and over as if,
just in case we have forgotten the word love, we will know its symbol. As if, Miss Earlywine wanted us to know that, even after she and Mr. Pickett
have passed on, their real hearts stopped—the ones that don’t look anything like those little symbols—they frantically, furiously, late one night under
the streetlight while their parents thought they were asleep, inscribed onto the body of the something like a permanent tree, a heart—
so that even after their bodies ceased to be bodies,
their mouths no longer capable of words, that universal shape will tell you how she felt, one blue evening, long ago, when there were still 7,000
languages that named and honored the plants and animals each in their own way, when your father said thing and we knew what it meant,
As cadeiras se movem sozinhas, assim como os livros. Os netos vêm visitá-la, são jovens e sem nomes, peças ausentes nos quebra-cabeças de seus rostos. Ela é como um peixe
no oceano profundo, seu corpo é feito de luz. Ela flutua pelos cômodos, pelos meus olhos, uma velha desprovida de memórias, da parábola de sua vida.
E mesmo que seja quase uma criança, ainda há sangue entre nós: eu passei através dela para estar aqui. Então eu a protejo das facas,
escadas, da rua que chama como os rios, uma convocação para ir embora, para prosseguir. E a visto, demonstrando como os botões funcionam,
quando por vezes ela ergue os olhos e diz meu nome, o som chegando como o trinado de um pássaro tão raro que dizem já não existir mais.
Trad.: Nelson Santander
Alzheimer’s
Chairs move by themselves, and books. Grandchildren visit, stand new and nameless, their faces’ puzzles missing pieces. She’s like a fish
in deep ocean, its body made of light. She floats through rooms, through my eyes, an old woman bereft of chronicle, the parable of her life.
And though she’s almost a child there’s still blood between us: I passed through her to arrive. So I protect her from knives,
stairs, from the street that calls as rivers do, a summons to walk away, to follow. And dress her, demonstrate how buttons work,
when she sometimes looks up and says my name, the sound arriving like the trill of a bird so rare it’s rumored no longer to exist.
Há 30 anos, de forma despretensiosa, o diretor italiano Giuseppe Tornatore presenteava o mundo com aquele que, ao longo dos anos, se tornaria um dos filmes mais queridos da história do cinema: “Cinema Paradiso”.
O vídeo que ilustra este texto é o da famosa cena do mosaico de beijos, a mesma que encerra o filme. Sempre me questionei por que este trecho em particular me comovia tanto, em um filme repleto de passagens inesquecíveis: a cena em que Totó recebe um beijo inesperado de Elena, após ficar dias parado na frente da casa em que ela morava para provar que a amava; o momento da demolição do cinema; o excerto em que Alfredo – o simpático projecionista da cidade – projeta o filme na parede da praça; a cena do funeral de Alfredo.
Todos esses fragmentos – verdadeiros minicontos – são dotados de elevada voltagem emotiva. Contudo, não se comparam à cena final, na qual Totó, agora adulto, cabelos brancos e cineasta de sucesso, assiste à projeção de um filme que recebera das mãos de sua mãe, a pedido do recém-falecido Alfredo. O filme, na verdade, é uma colagem de várias cenas de beijos e algumas com erotismo e nudez, que o pároco da sua cidade natal costumava censurar nas películas antes da exibição no cinema em que Totó, quando criança, trabalhava como assistente de Alfredo.
Mas o que faz essa passagem me comover tanto? Seria o contexto e o momento em que o trecho é inserido (logo após a cena que mostra a demolição do cinema)? Ou o delicado tema musical composto por Ennio Morricone, que acompanha o desenrolar da cena?
Não. Ou melhor, não apenas isso. Esses elementos são cruciais para criar em “Cinema Paradiso” um ambiente emotivo que atinge seu ápice na fatídica cena dos beijos. No entanto, embora embevecido pelas cenas anteriores do filme e hipnotizado pela melodia inspirada de Morricone, o que mais me comove na cena é antes o vislumbre que ela nos proporciona de nossa própria efemeridade. Esteticamente, amor romântico e beleza física são opostos à doença, antônimos da decrepitude, a antítese da morte. Nada representa mais estar vivo do que as cenas que aparecem na tela: mulheres sensuais e beijos eróticos, arrebatadores, delicados, violentos, apaixonados, singelos – todos os tipos de beijos que o amor romântico criou para se expressar. E trocados por casais formados por atores que, quando filmaram essas cenas nos anos 20, 30, 40 e 50, estavam no auge de sua juventude e beleza física.
No entanto, a sensação de transitoriedade que transborda na célebre passagem se acentua ainda mais ao lembrarmos que os atores que aparecem nessas cenas estão todos mortos – Silvana Mangano, Vittorio Gassman, Cary Grant, Rosalind Russell, Jane Russell, Doris Duranti, Georgia Hale, Charlie Chaplin, Olivia de Havilland, Errol Flynn, Rudolph Valentino, Vilma Banky, James Stewart, Donna Reed, Vittorio de Sica, Yvonne Sanson, Anna Magnani, Marcello Mastroianni, Maria Schell, Jean Gabin, June Astor, Gary Cooper, Clark Gable, Joan Crawford, Greta Garbo, John Barrymore, Spencer Tracy, Ingrid Bergman. Todos mortos – alguns há mais de 90 anos. Atores e atrizes que conheceram a fama e a fortuna, que foram os mais desejados de sua época, e cuja beleza e juventude, hoje, não passam de poeira.
As lágrimas que um arrebatado Totó derrama ao assistir o filme são minhas também. Totó chora a saudade de tudo o que viveu e do que perdeu. A mim me emociona testemunhar, impotente, na película que comove o cineasta, a inexorável marcha do tempo.
PS.: um internauta me avisa que Olivia de Havilland não está morta; tem 102 anos e mora atualmente em Paris. Quando escrevi esse texto, eu podia jurar que havia lido em algum lugar a notícia de que ela falecera há alguns anos. Fica aí uma lição: depois dos 50, jamais confie em sua memória, já que o tempo – a matéria principal do meu texto – também faz estragos nesse campo. De toda forma, a ideia geral que eu quis transmitir permanece intacta – a decrepitude e a senilidade são as características principais da velhice profunda, e só com muita boa vontade dá para dizer que está vivendo quem chegou tão longe na corrida da existência.
PS2.: REPUBLICAÇÃO: o texto foi publicado na página, originalmente, em 23/12/2018. Portanto, onde está escrito “Há 30 anos”, no texto acima, leia-se: “Há 35 anos.”
PS3.: Olivia de Havilland, que ainda era viva quando escrevi o texto original, faleceu em 26 de julho de 2020, aos 104 anos de idade. O gigante Ennio Morricone havia morrido poucos dias antes – em 06 de julho daquele mesmo ano, com 91. E como o tempo é o grande nivelador de tudo, nesse meio tempo morreu também, em 21 de abril de 2022, aos 80, Jacques Perrin, o grande ator que interpreta o Totó adulto. Eu e você que me lê neste momento ainda podemos nos dar o luxo de ver esse e outros filmes e fazer outras coisas, boas e ruins. Mas o tempo está passando aqui também. “Diga-me, o que você planeja fazer / com sua única selvagem e preciosa vida?” (Mary Oliver). Tic tac tic tac…
O que você fez quando a geleira
cobriu sua boca com gelo
quando suas escamas se desprenderam
e foram deixadas no chão para se deteriorar
quando você parou de trilhar as águas
e começou a respirar o ar?
O que você fez quando percebeu
que era diferente dos outros
quando foi privado de sua pelagem
de sua calda preênsil
quando a morte se revelou
como o Ser Supremo
inexorável?
E o que você fez quando o sol
parou de girar ao seu redor
quando os animais começaram a desaparecer
e as árvores afrouxaram suas raízes imperceptivelmente no início
para que você não notasse
quando a água decretou olho por olho
e bombeou seu veneno de volta para você
e quando seus filhos o abandonaram
e se uniram ao inimigo
quando o ar ficou cada vez mais frio
e você se moveu mais rápido que o som
mesmo que sua carta de amor nunca tenha chegado
O que você fez quando a história
se prostrou aos seus pés
e pediu para começar tudo de novo?
Isso é o que você fará
Trad.: Nelson Santander
That's what you will do
What did you do when the glacier
paved your mouth with ice
when your scales fell off
and were left on the ground to rust
when you stopped treading water
and started breathing air
What did you do when you realized
you were different from the others
when you were cheated of your fur
your prehensile tail
when death revealed itself
as the Supreme Being
unappeasable
And what did you do when the sun
stopped revolving around you
when animals started to disappear
and the trees loosened their roots imperceptibly at first
so you would not notice
when water declared an eye for an eye
and pumped your poison back into you
and when your children left you
and joined the enemy
when the air became colder and colder
and you moved faster than sound
though your love letter never got there
what did you do when history
fell down at your feet
and asked to start all over
That's what you will do