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Vinicius de Moraes – Cemitério Marinho

Tal como anjos em decúbitoA conversar com o céu baixinhoExistem cerca de cem túmulosNum lindo cemiteriozinhoQue eu, a passeio, descobriUm dia em Sidi Bou Said. Mal defendidos por uns murosErguidos ao sabor da morteEu nunca vi mortos tão purosMortos assim com tanta sorteAs lajes de cal como túnicasBrancas, e árabes; não púnicas. Sim, porque cemiteriozinhoNunca…
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Alberto Ríos – Cinco anos depois

Eu era, e agora sou.Há tanto a expressar nessas poucas palavras. Às vezes, essa mudança é doçura,Um beijo, um afago. Às vezes, Nada nos alerta. Não podemos prever.É imposto a nós. Uma arma, Um terremoto, uma inundação — qualquer um dos terríveisHorrores deste mundo. Nesses momentos, não pedimos,Não temos a chance de respirar fundo, É…
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Paul Valéry – Cemitério Marinho

Ó min’alma não aspires A uma existência imortal, Mas goza plenamente Tudo o que estiver ao teu alcance. Píndaro Píticas III Este teto tranquilo, onde caminham pombas,Palpita entre pinheiros e tumbas;Compõe-lhe de luz o meio dia justoO mar, o mar, sempre recomeçado!Que recompensa após meditaçãoN’um longo olhar sobre a calma dos deuses! Puro lavor de finos lampejos consumaTanto diamante de…
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Walt Whitman – Uma meia-noite clara

Esta é tua hora, ó Alma, teu voo livre rumo ao inexprimível,Longe dos livros, da arte, o dia desfeito, a lição concluída,Tu emergindo plenamente, silente, contemplativa, refletindo sobre os temas que mais amas:A noite, o sono, a morte e as estrelas. Trad.: Nelson Santander Mais do que uma leitura, uma experiência. Clique, compre e contribua…
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Berta Piñán – Duas Garças

Chegaram no sábado. Vimo-lascedo porque nesse dia chegoutambém o frio e passamosa manhã falando do tempo.São duas, e me pergunto quedestino imprevisto as trouxea esta árvore precisa, a este exatolugar onde o tempo delascruza, como um enigma confuso,nosso tempo.À tarde, conversamos sobre elas:“Esta espera delas, imóvel, paciente – dizes -,não sei que imagem estranha e…
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Ama Codjoe – Por que deixei o Jardim

Depois que perdi meu seio, tornei-me uma mulhersuturada por um tipo de sabedoria. Ao longo do dia eu me movia como se caminhar não fosse diferentede cair. Eu possuía os buracose o céu crivado. Eu não tinha absolutamente nada. Mesmo à distância,eu conseguia ouvir o disco pulando.O tempo escorriadas mãos. Dos rostos. Na primeira vez…
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Helder Moura Pereira – “Eu não tinha nada de felino…”

Eu não tinha nada de felino, tu sabiasque eu não tinha nada de felino.Nenhum de nós se admirou quandomedi mal a distância e falhei o salto.Enquanto ia no ar parecia que eraum salto bom, porém houve qualquercoisa que correu mal e caí com estrondono chão. Ninguém riu. Não era casopara rir. Grande ilusão ir pelo…
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Sean Borodale – Carta a um latifundiário

Aprendi certa noite o que é ter estrelassemeadas pela utilidade do corpo. O sol, ele se fora –cidades, redes, estradas chegavam a lugar nenhum. Montei minha capela de lona, deitei-me sob seu céue senti o quão profundamente eu era efêmero –ouvindo o capim branco dos brejos, os cavalos, o ar –. Naquela noite, ouvi com…
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Denise Emmer – Da Morte

Os mortos não sobem aos céusnem elevam-se abstratostornam-se apenas retratoslado a lado nas paredes. Retrato do avô imóvelaustero e silenciosodo tio tuberculosoque esquivo me espia. A avó já está friamas me olha com ternuratece uma colcha escurapara as bodas da família, Mortos não sobem trilhasde inconsistentes arranjosnão viram anjos nem brisasnem cristos nem assombrados. Sequer…
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Billy Collins – Rebanho

Rebanho Calcula-se que cada cópia da Bíblia de Gutenberg (…) exigia as peles de 300 ovelhas.– de um artigo sobre impressão Posso vê-las espremidas no cercado atrás do prédio de pedraonde a prensa está abrigada, todas elas se contorcendoem busca de um pequeno espaçoe parecendo tão semelhantes que seria quase impossívelcontá-las,e não se pode dizer…