Caitlyn Siehl – Uma carta ao amor

O primeiro poema que escrevi que não era sobre você
estava todo em maiúsculas
como se tentasse compensar
a sua ausência.

Era sobre um mundo distante do nosso
onde todas as plantas eram aterrorizantes,
mas tinham poderes de cura se tivéssemos a coragem
de tocá-las.

O primeiro poema que escrevi que não era sobre você
inchou sua garganta como um sapo
e implorou para ser beijado.

É o meu poema favorito porque o odeio demais.

Leio-o pelo menos uma vez ao dia e penso:
“Então é disso que sou capaz sem você. Vai entender.”

Há um vazio em tudo
e ali o encontro, sorrindo,
como se você não tivesse mais para onde ir.

O primeiro poema que escrevi que não era sobre você
poderá um dia ser tido como uma obra-prima.
Pessoas virão de toda parte do mundo
para correr os dedos sobre a impressão
e maravilhar-se com o quão vazio ele está de você.

Não reconhecerão o seu aroma,
agarrado silenciosamente às mãos delas.
Porque se entramos em uma sala
e notamos o que está faltando,
ainda está lá, não é?

O primeiro poema que escrevi que não era sobre você
ainda era sobre você.
Maldição.
Sempre.

Trad.: Nelson Santander

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A Letter to Love

The first poem I wrote that wasn’t about you
was in all capital letters
like it was trying to compensate
for your absence.

It was about a world far away from this one
where all of the plants were terrifying
but had healing powers if you had the guts
to touch them.

The first poem I wrote that wasn’t about you
puffed up its throat like a bullfrog
and begged to be kissed.

Its my favorite poem because I hate it so much.

I read it at least once a day and think:
“So this is what I’m capable of without you. Go figure.”

There is a hole in everything
and I find you there smiling
like you don’t have anywhere else to be.

The first poem I wrote that wasn’t about you
might one day be regarded as a masterpiece.
People will come from all over the world
to run their fingers over the print
and marvel at how empty it is of you.

They will not recognize your scent
clinging silently to their hands.
Because if you walk into a room
and notice what is missing from it
it is still there isn’t it?

The first poem I wrote that wasn’t about you
was still about you.
Damn it.
Always.

Raymond Carver – A carteira do meu pai

Muito antes de pensar em sua própria morte
meu pai dizia que gostaria de descansar perto
dos seus pais. Sentia muita falta deles
desde que tinham partido.
Falou isso o bastante para que minha mãe se lembrasse,
e eu me lembrasse. Mas quando o ar
deixou seus pulmões e todo sinal de vida
se extinguiu, ele se encontrava numa cidade
a 512 milhas de onde mais queria estar.

Mas meu pai, ele era incansável
até na morte. Até na morte
ele tinha uma última viagem a fazer.
A vida inteira gostara de perambular
e agora ele tinha mais um lugar para ir.

O agente funerário disse que cuidaria de tudo,
que não nos preocupássemos. Uma luz mirrada
entrava pela janela e caía no chão poeirento
onde aguardávamos naquela tarde,
até que o homem surgiu do quarto dos fundos
tirando as luvas de borracha.
Trazia consigo o cheiro de formol.
Ele era um homem forte, disse o agente.
E começou a nos contar por que
gostava de viver naquela pequena cidade.
O homem que acabara de abrir as veias do meu pai.
Quanto vai custar?, perguntei.

Ele sacou o caderno e a caneta e começou
a escrever. Primeiro, as taxas de preparação.
Depois calculou o transporte
dos restos mortais, a 22 centavos por milha.
Mas esta era uma viagem de ida e volta para o agente,
não esqueçam. E mais, digamos, seis refeições
e duas noites num motel. Fez algumas
outras contas. Acrescentou uma sobretaxa
de 210 dólares pelo seu tempo e trabalho,
e era isso.

Pensou que iríamos barganhar.
Havia uma mancha vermelha em
cada uma de suas bochechas quando ergueu
o rosto de seu caderno. A mesma luz mirrada
caía no mesmo ponto mirrado
do chão poeirento. Minha mãe assentiu
como se compreendesse. Mas ela
não tinha compreendido uma palavra.
Nada daquilo fazia o menor sentido para ela,
começando pelo momento em que saíra de casa
com meu pai. Sabia apenas que
o que quer que estivesse acontecendo
iria custar dinheiro.
Ela enfiou a mão em sua bolsa e retirou
a carteira do meu pai. Nós três,
naquela tarde, dentro daquele quartinho.
Nossas respirações indo e vindo.

Fitamos a carteira por um minuto.
Ninguém dizia nada.
A vida tinha abandonado aquela carteira.
Era velha, suja e rasgada.
Mas era a carteira do meu pai. Então minha mãe a abriu
e olhou lá dentro. E sacou dali
um punhado de dinheiro que pagaria
por aquela última, e a mais espantosa viagem.

Trad.: Cide Piquet

REPUBLICAÇÃO: poema publicado na página originalmente em 08/03/2019

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Raymond Carver – My Dad’s Wallet

Long before he thought of his own death,
my dad said he wanted to lie close
to his parents. He missed them so
after they went away.
He said this enough that my mother remembered,
and I remembered. But when the breath
left his lungs and all signs of life
had faded, he found himself in a town
512 miles away from where he wanted most to be.
My dad, though. He was restless
even in death. Even in death
he had this one last trip to take.
All his life he liked to wander,
and now he had one more place to get to.
The undertaker said he’d arrange it,
not to worry. Some poor light
from the window fell on the dusty floor
where we waited that afternoon
until the man came out of the back room
and peeled off his rubber gloves.
He carried the smell of formaldehyde with him.
He was a big man, the undertaker said.

Then began to tell us why
he liked living in this small town.
This man who’d just opened up my dad’s veins.
How much is it going to cost? I said.
He took out his pad and pen and began
to write. First, the preparation charges.
Then he figured the transportation
of the remains at 22 cents a mile.
But this was a round-trip for the undertaker,
don’t forget. Plus, say, six meals
and two nights in a motel. He figured
some more. Add a surcharge of
$210 for his time and trouble,
and there you have it.
He thought we might argue.
There was a spot of color on
each of his cheeks as he looked up
from his figures. The same poor light
fell in the same poor place on
the dusty floor. My mother nodded
as if she understood. But she
hadn’t understood a word of it.
None of it made any sense to her,
beginning with the time she left home
with my dad. She only knew
that whatever was happening
was going to take money.
She reached into her purse and bought up
my dad’s wallet. The three of us
in that little room that afternoon.
Our breath coming and going.
We stared at the wallet for a minute.
Nobody said anything.
All the life had gone out of the wallet.
It was old and rent and soiled.
But it was my dad’s wallet. And she opened
it and looked inside. Drew out
a handful of money that would go
toward this last, most astounding, trip.

Raymond Antrobus – Duas armas no céu para Daniel Harris

Quando Daniel Harris saiu do carro1,
o policial estava à espera. Arma erguida.

Uso o pretérito, embora seja irrelevante
na língua de Daniel, que é a dos sinais.

Sinais não têm futuro nem pretérito; é língua do presente.
Nunca se está mais presente do que quando uma arma

é apontada para você. Que língua expressa isso
se não a dos sinais? Mas o policial viu mãos

acenando no ar, disparou e Daniel largou
as mãos, o peito sangrando no concreto

a metros de sua casa. Estou no Breukelen Coffee House,
em Nova Iorque, lendo essa notícia no celular,

quando uma policial negra entra, duas armas
na cintura, meu amigo ao meu lado lendo

a seção de comentários: Black Lives Matter2.
Agora, o que poderíamos sinalizar ou dizer em voz alta

quando a última palavra que aprendi em ASL3 foi vivo?
Vivo — ambos os polegares apontando para a parte inferior do abdômen,

os indicadores apontando para cima, como duas armas no céu.

Trad.: Nelson Santander

N. do T.: 1. Raymond Antrobus, britânico nascido em Londres, em 1986, é um poeta com de deficiência auditiva. A trágica história real por trás deste poema pode ser lida nesse link (em inglês);

2. O movimento Black Lives Matter (BLM), traduzido como “Vidas Negras Importam”, é um movimento de ativismo civil que ganhou destaque nos Estados Unidos e em todo o mundo a partir de 2013. Surgiu como resposta à violência policial e ao tratamento discriminatório enfrentado por comunidades afro-americanas e negras, denunciando a brutalidade policial e promovendo a igualdade racial e justiça social.

3. A American Sign Language (ASL), ou “Língua de Sinais Americana”, é uma língua visual-gestual utilizada pela comunidade surda nos Estados Unidos e em partes do Canadá. É uma linguagem completa e independente, com sua própria gramática e estrutura, e não é uma simples representação do inglês em sinais. A ASL é essencial para a comunicação das pessoas surdas e tem uma rica cultura e comunidade ligada a ela.

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Two Guns in the Sky for Daniel Harris

When Daniel Harris stepped out of his car
the policeman was waiting. Gun raised.

I use the past tense though this is irrelevant
in Daniel’s language, which is sign.

Sign has no future or past; it is a present language.
You are never more present than when a gun

is pointed at you. What language says this
if not sign? But the police officer saw hands

waving in the air, fired and Daniel dropped
his hands, his chest bleeding out onto concrete

metres from his home. I am in Breukelen Coffee House
in New York, reading this news on my phone,

when a black policewoman walks in, two guns
on her hips, my friend next to me reading

the comments section: Black Lives Matter.
Now what could we sign or say out loud

when the last word I learned in ASL was alive?
Alive — both thumbs pointing at your lower abdominal,

index fingers pointing up like two guns in the sky.

Francisco Brines – A Piedade do Tempo

Em que escuro recanto do tempo que morreu
vivem ainda,
a arder, aquelas coxas?

Dão luz ainda
a estes olhos tão velhos e enganados,
que voltam agora a ser o milagre que foram:
desejo de uma carne, e a alegria
do que não se nega.

A vida é o naufrágio de uma obstinada imagem
que já nunca saberemos se existiu,
pois só pertence a um lugar extinto.

Trad.: José Bento

REPUBLICAÇÃO: poema publicado na página originalmente em 07/03/2019

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Francisco Brines – La piedad del tiempo

¿En qué oscuro rincón del tiempo que ya ha muerto
viven aún,
ardiendo, aquellos muslos?

Le dan luz todavía
a estos ojos tan viejos y engañados,
que ahora vuelven a ser el milagro que fueron:
deseo de una carne, y la alegría
de lo que no se niega.

La vida es el naufragio de una obstinada imagen
Que ya nunca sabremos si existió,
Pues sólo pertenece a un lugar extinguido.

Arthur W. Frank – Um senso de encantamento

A única diferença real
entre as pessoas
não é saúde ou doença,
mas como cada uma mantém
um senso de valor
na vida.

Quando sinto que não tenho tempo
para sair e contemplar
a luz do sol
no rio,
minha recuperação foi longe demais.

Um pouco de medo está tudo bem.

Está tudo bem
saber
que em um mês
eu poderia estar deitado
em uma cama de hospital me perguntando
como passei o dia de hoje.

Manter essa pergunta −
como foi o seu dia? −
me faz lembrar de sentir
e ver e ouvir.

É muito fácil
ficar distraído.
Quando a rotina se torna
frustrante,

tenho que lembrar daquelas vezes
em que a rotina
me foi
proibida.

Quando estava doente,
tudo o que queria
era voltar
ao fluxo
rotineiro de atividade.

Agora que estou de volta
à rotina,
tenho que manter
um senso de
encantamento

por estar aqui.

Trad.: Nelson Santander

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A Sense of Wonder

The only real difference
between people
is not health or illness
but the way each holds
onto a sense of value
in life.

When I feel I have no time
to walk out and watch
the sunlight
on the river,
my recovery has gone too far.

A little fear is all right.

It is all right
to know
that in a month
I could be lying
in a hospital bed asking myself
how I spent today.

Holding onto that question −
how did you spend today? −
reminds me to feel
and see and hear.

It is too easy
to become distracted.
When the ordinary becomes
frustrating,

I have to remember those times
when the ordinary
was forbidden
to me.

When I was ill,
all I wanted
was to get back
into the ordinary
flux of activity.

Now that I am back
in the ordinary,
I have to retain
a sense of
wonder

at being here.

Paulo Henriques Britto – Uma nova teoria de tudo

Todas as coisas que existem no mundo
fazem sentido. Senão não teria
sentido elas serem. Ou estarem. Tudo
mais depende desse princípio. Os dias

vêm antes das noites, não depois. Nunca
faz parte de sempre, assim como zero
é apenas um número entre outros números.
Toda forma é perfeita: não só a esfera,

que é só mais redonda que as outras – nada
de mais. E todas as proposições
são verdadeiras – se tornam verdade

no instante exato em que são formuladas.
Ficam sem efeito as contradições
todas. (Pronto. Creia. Não faça alarde.)

REPUBLICAÇÃO: poema publicado na página originalmente em 06/03/2019

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Charles Simic – Minha contenda com o Infinito

Eu preferia o fugaz,
Como a lembrança de um gole de vinho
De nobre safra
Na língua, de olhos fechados…

Quando me tocaste no ombro,
Ó luz, inexprimível em teu esplendor,
Em nada me ajudaste.
Apenas prolongaste minha insônia.

Estava absorto no espetáculo,
Secretamente lamentando o fugidio:
Todos os seus beijos e encantos
Provisórios, de vida breve.

Aqui, com o novo dia surgindo,
E um único espantalho no horizonte
Dirigindo o tráfego
De corvos e suas sombras.

Trad.: Nelson Santander

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My Quarrel with the Infinite

I preferred the fleeting,
Like a memory of a sip of wine
Of noble vintage
On the tongue with eyes closed . . .

When you tapped me on the shoulder,
O light, unsayable in your splendor.
A lot of good you did me.
You just made my insomnia last longer.

I sat rapt at the spectacle,
Secretly ruing the fugitive:
All its provisory, short-lived
Kissed and enchantments.

Here with the new day breaking,
And a single scarecrow on the horizon
Directing the traffic
Of crows and their shadows.

Joan Margarit – Esboço para um Epílogo

Diante de ti sentes um rumor de passos
que vem do futuro, essa torre
demolida antes de ser construída.
Só existe a dúvida moral: ama,
não penses na camada de pó
a que tanto aludes, ostensivamente,
quando dizes: “minha vida”.
E, do prestígio das negações,
desconfia: a vida representa
não só a vitória dos anos
sobre nós. Também nos ensina
quão gloriosa foi
nossa vitória inicial sobre o tempo.

Trad.: Nelson Santander

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Esbozo para un epílogo

Ante ti sientes un rumor de pasos
que viene del futuro, esa torre
derribada antes de que la construyeran.
Sólo existe la duda moral: ama,
no pienses en la lámina de polvo
que tanto nombras, ostentosamente,
cuando dices: “mi vida”.
Y, del prestigio de las negaciones,
desconfía: la vida representa
no sólo la victoria de los años
sobre nosotros. También nos enseña
lo gloriosa que fue
nuestra inicial victoria sobre el tiempo.

Mark Strand – O guardião

O sol se pondo. Os gramados em chamas
O dia perdido, a luz que se apagou.
Por que amo o que desvanece?

Tu que partiste, que estavas partindo,
que quartos escuros habitas?
Guardião da minha morte,

preserva minha ausência. Eu estou vivo.

Trad.: Nelson Santander

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The guardian

The sun setting. The lawns on fire.
The lost day, the lost light.
Why do I love what fades?

You who left, who were leaving,
what dark rooms do you inhabit?
Guardian of my death,

preserve my absence. I am alive.

Israel Zangwill – [Um dia, estando entre nós dois o Atlântico]

Um dia, estando entre nós dois o Atlântico,
senti a tua mão na minha;
Agora, tendo a tua mão na minha,
sinto entre nós dois o Atlântico.

Trad.: Cecília Meireles

REPUBLICAÇÃO: poema publicado na página originalmente em 27/02/2019

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