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Nuno Júdice – Nostalgia de setembro

Quando vinham as nuvens de setembro, jáos pássaros tinham emigrado para além dos mares,o campo ficava em longos silênciosque só a passagem dos rebanhos, a caminhodo matadouro, cortava num tropel que ecoavaainda, depois da paisagem, com os gritosdo pastor e o ladrar dos cães. Eu gostava dessas nuvensquando começavam as primeiras chuvas, e podiaouvir o…
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Leon Stokesbury – Mensagem não enviada a um irmão em sua dor

Por favor, não morra agora. Escute.Ontem, nuvens de tempestade avançaramdo oeste como músculos espessos.Relâmpagos floresceram. Um espetáculode cores. Você devia ter visto.Uma mulher assistiu comigo, e depois fomos dormir.Quando acordei primeiro, vino rosto dela que o descanso é possível.O céu – de repente pareceimportante lhe dizer – o céuestava rosa como uma concha. Ouça-me. Há…
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Maria do Rosário Pedreira – À avó

Ficou vazio o teu lugar à mesa. Alguém veio dizer-nosque não regressarias, que ninguém regressa de tão longe.E, desde então, as nossas feridas têm a espessurado teu silêncio, as visitas são desejadas apenasa outras mesas. Sob a tua cadeira, o tapetecontinua engelhado, como à tua ida.Provavelmente ficará assim para sempre. No outro Natal, quando a…
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Ted Kooser – Pais

Meus falecidos pais tentam se manter fora do meu caminho.Quando entro em um cômodo, eles já o deixaram,foram procurar o que precisa ser feitoem outra parte da casa, meu pai com o aspirador,minha mãe com pano de pó e o lustra-móveis. Às vezes,ouço seus velhos chinelos tamborilandopelo corredor, ou vejo por um breve instanteo que…
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Czesław Miłosz – Uma descrição honesta de mim mesmo com um copo de whisky num aeroporto, digamos, em Minneapolis

Meus ouvidos captam cada vez menos as conversas, meus olhos vêm se tornando fracos, embora sigam insaciáveis. Vejo suas pernas em minissaias, em calças compridas, em tecidos ondulantes, Observo uma a uma, separadamente, suas bundas e coxas, acalentado por sonhos pornô. Velho depravado, é chegada a hora da cova, não dos jogos e folguedos da…
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Homero Aridjis – Pela Porta Verde

Pela porta verde Para Eva Sofia Sou um indocumentado da eternidade.Sem papéis, ultrapassei as fronteiras do tempo.Detido pelos agentes de imigração do nascimentoe da morte, lancei-meao tabuleiro de xadrez dos dias.Fiscais astutos, em busca de lembranças valiosas,vasculharam minha bagagem de sombras.Nada a declarar. Nada a lamentar.Passei pela porta verde. Trad.: Nelson Santander Mais do que…
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Nicolás Guillén – Um poema de amor

Não sei. Ignoro-o.Desconheço todo o tempo que andeisem encontrá-la novamente.Quem sabe um século? Talvez.Talvez um pouco menos: noventa e nove anos.Ou um mês. Poderia ser. De qualquer formaum tempo enorme, enorme, enorme.Ao fim como uma rosa súbita,repentina campânula tremendo,a notícia.Saber de prontoque ia voltar a vê-lá, que a teriaperto, tangível, real, como nos sonhos.Que troar…
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Vijay Seshadri – Chaleiras Reluzentes de Cobre

Amigos mortos voltando à vida, famílias falecidasfalando línguas vivas e mortas, suas mentes retentivas,os cinco sentidos intactos, suas pegadas como as de borboletas,a compaixão brilhando em rostos indulgentes —esta é uma das minhas coisas favoritas.Gosto tanto disso que passo o tempo todo dormindo.Lua de dia e sol à noite me encontram dispersonos sonhos profundos onde…
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Ian Hamilton – Vizinhos

Das janelasDo decadente hotel do outro lado da ruaMisteriosos hóspedes noturnos emergemEm suas varandasPara aspirar o ar fresco da noite. Nós os deixamos nos observarEm nossas vidas pacatas.Eles nos permitem imaginaro que o destino lhes reservou. Trad.: Nelson Santander REPUBLICAÇÃO: poema publicado na página originalmente em 05/06/2019 Mais do que uma leitura, uma experiência. Clique,…
