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Juan Vicente Piqueras – Os Deuses Internos

Os deuses sabem mais e melhor do que nósdo que precisamos. Pedimos-lhes um filho,e nos enviam um lobo, e não os compreendemos. A vida diariamente os esquece.A morte à noite os inventa. E as doenças, como diz o sábio,são deuses que agonizam dentro de nosso corpo,seu último templo em ruínas,seu refúgio sem fé. Imploram compaixão.…
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Tess Gallagher – Paro de escrever o poema

Paro de escrever o poema*para dobrar as roupas. Não importa quem viveou quem morre, continuo sendo mulher.Sempre terei muito o que fazer.Cinjo as mangas da camisa deleunindo-as. Nada pode deternosso afeto. Voltarei a seruma mulher. Mas por enquantohá uma camisa, uma enorme camisa,em minhas mãos, e, em algum lugar, uma garotinhaao lado de sua mãeobservando…
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Joseph Stroud – Lendo Kaváfis sozinho na cama

Eu também me lembro do passado, meu quarto à luz de velas,e da noite em que ela entrou e tocou meu rosto com o delacom boca, língua e lábios,da noite no pomar, do aroma das frutas,seus seios – lembra, corpo?* – aquele quarto,lembra? – nossos gritos, as velas bruxuleantes? Trad.: Nelson Santander * N. do…
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Sharon Olds — Amor verdadeiro

No meio da noite, quando nos levantamosdepois de fazer amor, nos olhamosem completa sintonia, sabemos plenamenteo que o outro tem feito. Ligados um ao outrocomo alpinistas descendo uma montanha,atados pelo vínculo da sala de partos,vagamos pelo corredor até o banheiro, malconseguindo andar, cambaleio pelo ar granuladoe sem sombra, e de olhos fechadossei onde você está,…
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Konstantinos Kaváfis – Lembra, corpo…

Lembra, corpo, não só o quanto foste amado,não só os leitos onde repousaste,mas também os desejos que brilharampor ti em outros olhos, claramente,e que tornaram a voz trêmula – e que algumobstáculo casual fez malograr.Agora que isso tudo perdeu-se no passado,é quase como se a tais desejoste entregaras – e como brilhavam,lembra, nos olhos que…
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Dorianne Laux — A travessia

Os alces de Orick aguardam para atravessar a pista pacientemente,e meu marido de seis meses, que pensa ser o próprio São Francisco, desce do carro para ajudar.Espírito de São Francisco, camiseta esvoaçante, pisa o asfalto delicadamente e eles começam sua jornada,cabeças erguidas, narinas dilatadas, cada passo um testemunho do momentum interrompido, graciosamentehesitantes, enquanto dois caminhões,…
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Wislawa Szymborska – Mapa

Plano como a mesana qual está colocado.Debaixo dele nada se movenem busca vazão.Sobre ele – meu hálito humanonão cria vórtices de are deixa toda a sua superfícieem silêncio. Suas planícies, vales, são sempre verdes,os planaltos, montanhas, amarelos e marronse os mares, oceanos, de um azul delicadonas margens fendidas. Tudo aqui é pequeno, próximo, acessível.Posso tocar…
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Linda Gregg – Perdida

Poderíamos ter sido confundidos como casadosno trem de Manhattan para Chicagona última vez que estivemos juntos. Lembro-me deolhar pela janela e elogiar a belezado banal: os entre sítios, o mundode costas para nós, as pequenas e negligenciadasestações de nossa história. Adormeci sobre seupeito e ventre sem pedir licença,pois eram nossas derradeiras horas. Haviaum aroma no…
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Jorge Sousa Braga – Litania

Estava sentado numa sala anexa ao bloco operatórioe uma enfermeira passou com o teu útero num saco de plástico transparenteCom o teu útero com a minha primeira casa e a de meus irmãosainda escorrendo sangueUma pequena construção toda em pedracom divisões de tijolo e cal hidráulicae janelas abrindo para o valeCom o teu úteroCom a…
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Nathan McClain — Nighthawks, de Edward Hopper

Nighthawks*, de Edward Hopper Notou como ela se senta perto do homemde terno azul? Viu como as mãos delesquase se tocam? Como ela me lembraminha mãe? — uma mulher de vermelho tomando café. Viu?Hopper obviamente era solitário.Por que mais pintaria ela, minha mãe,sentada ali assim? E isso me faria o quê?O balconista de avental branco?Estou…