Wislawa Szymborska – Visto do alto

Um besouro morto num caminho campestre.
Três pares de perninhas dobradas sobre o ventre.
Ao invés da desordem da morte – ordem e limpeza.
O horror da cena é moderado,
o âmbito estritamente local, da tiririca à menta.
A tristeza não se transmite.
O céu está azul.

Para nosso sossego, os animais não falecem,
morrem de uma morte por assim dizer mais rasa,
perdendo – queremos crer – menos sentimento e mundo,
partindo – assim nos parece – de uma cena menos trágica.
Suas alminhas dóceis não nos assombram à noite,
mantêm distância,
Conhecem as boas maneiras.

E assim esse besouro morto no caminho,
não pranteado, brilha ao sol.
Basta pensar nele a duração de um olhar:
parece que nada importante lhe aconteceu.
O importante supostamente tem a ver conosco.
Com a nossa vida somente, só com nossa morte,
uma morte que goza de forçada precedência.

Trad.: Regina Przybycien

REPUBLICAÇÃO: poema publicado na página originalmente em 19/10/2019

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Widziane z góry

Na polnej drodze leży martwy żuk.
Trzy pary nóżek złożył na brzuchu starannie.
Zamiast bezładu śmierci schludność i porządek.
Groza tego widoku jest umiarkowana, zakres
ściśle lokalny, od perzu do mięty.
Smutek się nie udziela.
Niebo jest błękitne.

Dla naszego spokoju śmiercią jakby płytszą
nie umierają ale zdychają zwierzęta
tracąc, chcemy w to wierzyć, mniej czucia i świata,
schodząc, jak nam się zdaje, z mniej tragicznej sceny.
Ich potulne duszyczki nie straszą nas nocą,
szanują dystans,
wiedzą co to mores.

I oto ten na drodze martwy żuk
w nieopłakanym stanie ku słońcu polśniewa.
Wystarczy o nim tyle pomyśleć co spojrzeć:
wygląda, że nie stało mu się nic ważnego.
Ważne związane jest podobno z nami.
Na życie tylko nasze, naszą tylko śmierć,
śmierć, która wymuszonym cieszy się pierwszeństwem.

Patrick Kavanagh – Raglan Road

Na Raglan Road1, em um dia de outono, uma vez a conheci e sabia
Que suas mechas escuras lançariam uma urdidura que me apanharia;
Eu enxerguei o perigo, mas continuei pela viela encantada,
E disse: que a aflição seja uma folha no chão ao despontar da alvorada.

Na Grafton Street, em novembro, caminhamos com leveza pelo beiral
Da grota profunda de onde se vê o valor da promessa da paixão,
A Rainha de Copas que ainda faz suas tortas e eu que não faço nada2
Oh, eu amei tanto, e assim, e portanto, a felicidade foi descartada.

Eu lhe dei os dons da mente, eu lhe dei o secreto sinal só conhecido
Pelos artistas que conviveram com os deuses da pedra e do ruído,
Do verbo e da matiz. Assim o fiz, dei-lhe poemas para recitar.
Com seu próprio nome e seus cabelos escuros como nuvens pelo ar,

Em uma rua calma onde velhas almas se encontram, eu a vejo ir
Para longe de mim tão rapidamente que a razão deve admitir
Que eu não cortejei, eu sei, um ser feito de barro, como deveria –
Quando o anjo flerta com o barro, ele desperta sem asas n’outro dia.

Trad.: Nelson Santander

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N. do T.:

1. “On Raglan Road” foi inspirado no tema clássico do amor não correspondido, baseado na experiência do poeta Patrick Kavanagh com uma jovem estudante de medicina chamada Hilda Moriarty. Kavanagh encontrou Moriarty enquanto caminhava pela Raglan Road, em Dublin (Irlanda), onde residia. Apesar da diferença de idade entre os dois (ele tinha 40 anos e ela 22), Kavanagh se apaixonou profundamente, enquanto Moriarty não compartilhava seus sentimentos. O poema foi inicialmente publicado no jornal “The Irish Press”, em 3 de outubro de 1946, sob o título “Dark Haired Miriam Ran Away”. Mais tarde, Kavanagh musicou o poema com uma melodia de uma antiga canção folclórica irlandesa chamada “The Dawning of the Day”. A música foi interpretada por Luke Kelly, do renomado grupo irlandês The Dubliners, e popularizou-se internacionalmente como “On Raglan Road”. Tanto o poema quanto a canção deixaram uma marca profunda na consciência cultural irlandesa e global. Em 2019, a obra foi oficialmente canonizada como a ‘Canção Folclórica Favorita da Irlanda’ em uma pesquisa realizada pela RTÉ. Para mais detalhes sobre o poeta e sua obra mais famosa, consulte o artigo publicado online pelo jornal irlandês The Journal, em 26/12/2019.

2. “A Rainha de Copas que ainda faz suas tortas” (“The Queen of Hearts still making tarts”) pode ser interpretado como uma referência à fábula infantil “Alice no País das Maravilhas”, onde a Rainha de Copas é conhecida por fazer tortas, o que pode simbolizar a rotina mundana ou trivial da vida cotidiana. “I not making hay” pode ser uma referência à expressão “make hay while the sun shines” (fazer feno enquanto o sol brilha), que, em livre tradução, significa aproveitar as oportunidades enquanto elas estão disponíveis. Por isso, traduzi esta linha por “e eu que não faço nada”. Nesse contexto, “não fazer feno” pode sugerir que o eu lírico não está aproveitando essas oportunidades ou não está agindo de acordo com as expectativas.

On Raglan Road

On Raglan Road on an autumn day I met her first and knew
That her dark hair would weave a snare that I might one day rue;
I saw the danger, yet I walked along the enchanted way,
And I said, let grief be a fallen leaf at the dawning of the day.

On Grafton Street in November we tripped lightly along the ledge
Of the deep ravine where can be seen the worth of passion’s pledge,
The Queen of Hearts still making tarts and I not making hay —
O I loved too much and by such and such is happiness thrown away.

I gave her gifts of the mind I gave her the secret sign that’s known
To the artists who have known the true gods of sound and stone
And word and tint. I did not stint for I gave her poems to say.
With her own name there and her own dark hair like clouds over fields of May

On a quiet street where old ghosts meet I see her walking now
Away from me so hurriedly my reason must allow
That I had wooed not as I should a creature made of clay –
When the angel woos the clay he’d lose his wings at the dawn of day.

José Paulo Paes – Dúvida

Não há nada mais triste
do que um cão em guarda
ao cadáver do seu dono.

Eu não tenho cão.
Será que ainda estou vivo?

           data da última gravação: 8/10/98, 17h09

Na "Apresentação" de Socráticas – obra da qual foi extraído este poema – Alfredo Bosi esclarece:

As Socráticas, publicadas postumamente, soam como um recado joco-sério aos que ficaram, e que são convidados (como queria o primeiro dos filósofos) a aprender a morrer com a mesma dignidade dos que souberam viver. "Dúvida" é um poema encontrado por Dora [esposa de José Paulo Paes] no computador do poeta. Sabe-se que foi composto na véspera de sua morte. Pronto e perfeito como tudo o que saía de suas mãos. Avulso embora, o poema convém no espírito e na letra ao corpo destas Socráticas. Daí, a justeza da sua inclusão no livro derradeiro de José Paulo Paes.

Kim Addonizio – Comendo juntas

Sei que minha amiga está partindo,
embora ela ainda esteja sentada
à minha frente no restaurante
e se incline sobre a mesa para mergulhar
seu pão no azeite do meu prato; sei
como o cabelo dela costumava ser espesso,
e o que custa para ela deixar de lado
seu boné masculino no meio da refeição,
olhar diretamente para o jovem garçom
e sorrir quando ele pergunta
se estamos gostando. Ela come
como se estivesse faminta — frango, dolmas,
as camadas amanteigadas da massa folhada —
e o que a está consumindo
se alimenta também. Eu a observo levantar
uma reluzente azeitona preta e retirar
a carne do caroço, observo
seus dedos longos e finos, e seu rosto,
inchados pela medicação. Ela baixa
os olhos para a comida, fingindo
não saber o que eu sei. Ela está partindo.
E continuamos comendo.

Trad.: Nelson Santander

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Eating Together

I know my friend is going,
though she still sits there
across from me in the restaurant,
and leans over the table to dip
her bread in the oil on my plate; I know
how thick her hair used to be,
and what it takes for her to discard
her man’s cap partway through our meal,
to look straight at the young waiter
and smile when he asks
how we are liking it. She eats
as though starving—chicken, dolmata,
the buttery flakes of filo—
and what’s killing her
eats, too. I watch her lift
a glistening black olive and peel
the meat from the pit, watch
her fine long fingers, and her face,
puffy from medication. She lowers
her eyes to the food, pretending
not to know what I know. She’s going.
And we go on eating.

Ferreira Gullar – Lições de um gato siamês

Só agora sei
que existe a eternidade:
é a duração
  finita
  da minha precariedade

O tempo fora
de mim
    é relativo
mas não o tempo vivo:
esse é eterno
porque afetivo
— dura eternamente
  enquanto vivo

E como não vivo
além do que vivo
não é
tempo relativo:
dura em si mesmo
eterno (e transitivo)

REPUBLICAÇÃO: poema publicado na página originalmente em 17/10/2019

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Ellen Bass – A bancada da cozinha

Hoje ouvi uma jovem declamar um poema
em que o marido ergue seu traseiro nu
sobre a bancada da cozinha
e, na próxima linha, abre suas pernas.

O casamento tem problemas. Talvez já estejam divorciados.
Mas de repente lamento o fato de que
nunca ninguém tenha erguido meu traseiro nu sobre uma bancada de cozinha.

Nem quando meu traseiro trotava altivo e orgulhoso.
E nem quando ele começou a fitar o chão
como se estivesse contemplando o futuro.

E agora, estou fadada a morrer
sem nunca ter sido tomada naqueles ladrilhos frios e duros.
Não me diga que não é tarde demais. É.

Trad.: Nelson Santander

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The Kitchen Counter

Today I heard a young woman read a poem
in which her husband lifts her bare bottom
onto the kitchen counter
and, in the next line, spreads her legs.

The marriage has problems. They may already be divorced.
But suddenly I am ruing the fact
that no one has lifted my bottom onto a kitchen counter.

Not when my bottom trotted high and proud.
And not when it began to eye the floor
as if contemplating the future.

And now, I’m going to die
without ever being taken on those cold hard tiles.
Don’t tell me it’s not too late. It is.

Joan Margarit – Piscina

Não temia a água, mas a ti,
era teu medo o que eu temia,
e o lugar mais profundo,
em que não se veem os azulejos do fundo.
Arrastaste-me até lá, lembro ainda
a força de teus braços obrigando-me,
enquanto tentava abraçar-me a ti.
Não aprendi a nadar até muito tempo depois,
e esqueci tuas tentativas de ensinar-me.
Agora que já nunca voltarás a nadar
vejo, aos meus pés, a água azul, imóvel.
Compreendo que eras tu quem se abraçava
a mim para atravessar aqueles dias.

Trad.: Nelson Santander

REPUBLICAÇÃO: poema publicado na página originalmente em 16/10/2019

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Piscina

No le temía al agua, sino a ti,
era tu miedo lo que yo temía,
y el lugar más profundo,
en el que no se ven las baldosas del fondo.
Me arrastraste hacia allí, recuerdo aún
la fuerza de tus brazos obligándome,
mientras trataba de abrazarme a ti.
No aprendí a nadar hasta mucho después,
y olvidé tus intentos de enseñarme.
Ahora que ya nunca volverás a nadar
veo, a mis pies, el agua azul, inmóvil.
Comprendo que eras tú quien se abrazaba
a mí para cruzar aquellos días.

Wislawa Szymborska – Fotografia de 11 de setembro

Saltaram dos andares em chamas —
um, dois, alguns mais
acima, abaixo.

A fotografia os susteve em vida
e agora os mantém
sobre a terra em direção à terra.

Cada um ainda é um todo
com um rosto próprio
e o sangue bem escondido.

Há bastante tempo
para os cabelos se soltarem
e dos bolsos caírem
chaves, dinheiro trocado.

Ainda estão ao alcance do ar,
nos limites dos lugares
que acabaram de se abrir.

Só posso fazer duas coisas por eles —
descrever esse voo
e não acrescentar a última sentença.

Trad.: Regina Przybycien

REPUBLICAÇÃO: poema publicado na página originalmente em 04/10/2019

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Fotografia z 11 września

Skoczyli z płonących pięter w dół
– jeden, dwóch, jeszcze kilku
wyżej, niżej.
Fotografia powstrzymała ich przy życiu,
a teraz przechowuje
nad ziemią ku ziemi.
Każdy to jeszcze całość
z osobistą twarzą
i krwią dobrze ukrytą.
Jest dosyć czasu,
żeby rozwiały się włosy,
a z kieszeni wypadły
klucze, drobne pieniądze.
Są ciągle jeszcze w zasięgu powietrza,
w obrębie miejsc,
które się właśnie otwarły.
Tylko dwie rzeczy mogę dla nich zrobić
– opisać ten lot
i nie dodawać ostatniego zdania.

Paulo Henriques Britto – O aqualouco

A verdadeira diferença
só se sente depois do frio.
Antes é só um salto, um mergulho imprudente,
como se eternidade fosse água gelada,
como se o nada não fosse mais que um rio.

Depois somem as palavras fáceis
(“eternidade” etc.; v. acima),
fica só o fundamental:
o vômito, o medo, o adeus,
a vontade de assassinar todos os recém-nascidos
do Egito, como se alguém tivesse culpa de uma coisa
que afinal foi você mesmo quem escolheu.

Depois você é obrigado a aceitar.
Não adianta pressa. Não há mais compromissos,
promessas, fiado, fé. Não.
É só um entregar-se às circunstâncias,
submeter-se às exigências da matéria,
dos elementos, “causalidade”, “aceitação”
etc., como antes. E sempre.

REPUBLICAÇÃO: poema publicado na página originalmente em 14/10/2019

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Franny Choi – Pós-morte

Para responder à sua pergunta, sim,

me vejo querendo cada vez menos
transar com o rapaz morto que foi meu
antes de não ser mais nada.
Ele é nove anos mais novo do que eu agora – um garoto
que ainda fuma baseados em seu dormitório;
o que quero dizer é que ele não faz mais nada disso
porque está morto. Porque seu corpo
não é mais um corpo agora, mas terra úmida.
O que significa que, em vez disso, eu deveria desejar
os ventres das moscas. As asas das mariposas
desdobrando-se úmidas de seus casulos.
Deveria desejar o peixe que comeu
o peixe que comeu o plâncton
que levou o pó de seu outrora corpo
para a garganta. O garoto cujo corpo
foi o primeiro a entrar no meu, agora
respira por muitas bocas.
Ele tem guelras, é folhas úmidas e coral,
todas as coisas que vivem, mas não sabem disso,
não sabem que um dia foram um garoto
que arrancou meu jeans molhado,
beijou o interior das minhas coxas
na casa de seus pais, que veio até mim
uma noite, embriagado de amor, dizendo,
 escuta não importa escuta
  sumir  nunca vou

Trad.: Nelson Santander

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Afterlife



To answer your question, yes,
I find myself wanting less and less
to fuck the dead boy who was mine
before he was nothing.
He is nine years younger than me now – a boy
who still smokes blunts in his dorm room,
by which I mean he does none of that
because he is dead. Because his body
is no body now, but wet earth.
Meaning I should instead desire
the bellies of flies. Moth wings
unfolding wet from their shells.
Should hunger for the fish that ate
the fish that ate the plankton
that took his once-body dust
into its gullet. The boy whose body
was the first to enter mine is breathing
from too many mouths now.
He is gilled, wet leaves, coral,
all things that live but don’t know it,
don’t know they were once a boy
who peeled off my wet jeans,
kissed the insides of my knees
in his parents’ house, who came to me
love-addled one night, saying,
 listen no matter listen
   away   i’ll never