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Henri Michaux – Nós dois ainda

1948 Música do fogo, tu não soubeste tocar. Lançaste sobre a minha casa um pano negro. O que é este opaco em toda a parte? É o opaco que tapou o meu céu. O que é este silêncio em toda a parte? É o silêncio que calou o meu canto. * De esperança tinha-me bastado…
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Amalia Bautista – Nada Sabemos

Nunca saberemos se os enganadossão os sentidos ou os sentimentos,se viaja o comboio ou a nossa ânsia,se as cidades mudam de lugarou se todas as casas são a mesma.Nunca saberemos se quem nos esperaé quem deve esperar-nos, nem sequerquem temos de esperar no meio de umaplataforma fria. Nada sabemos.Avançamos às cegas, perguntandose isto que se…
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Maria Lúcia Alvim – Nosferatu

Não era bem isso que eu queria, no entanto, ele veio. Olho de vidro, dente de espada, sopro de guerreiro afeito à noite. – Por que tarda tanto o teu amanhecer sob a capa? – Porque veio? perguntei. E ele debruçava, derramava sobre mim um jeito de morrer.
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Luís Felipe Castro Mendes – Estóicos

Deixa-te ficar comigo à beira do rio. Entardeceu. Não procures o vulgar brilho da beleza nem a sedução da mocidade. Se te falarem dos deuses, finge entender. E se chamarem poeta ao dono do circo, concorda gravemente.
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Víctor Botas – “Collige, virgo, rosas”

Não falta quem suponha que em sessenta bilhões de anos voltaremos a ser como agora (aparentemente o Espaço se dilata para logo, elástico, encolher-se e novamente outra vez dilatar-se), repetindo tu, as profundidades desses olhos, eu, este esperar a morte de tua mão agônica nas minhas, aqui mesmo, neste lugar. Mas, caso seja tudo uma…
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Luis Alberto de Cuenca – “Collige, virgo, rosas”

Moça, colhe as rosas, não esperes a manhã. Corta-as velozmente, desaforadamente, sem parar para pensar se elas são más ou boas. Que não sobre nenhuma. Poliniza os rosais que encontrares em teu caminho e deixa os espinhos para tuas colegas do colégio. Desfruta da luz e do ouro enquanto podes e consagra tua beleza a…
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Felipe Benitez Reyes – “Collige Rosas”

Consumir este dia como se fosse o último. Queima-lo como o último cigarro que restou ao insone. Retarda-lo nos lábios como a sílaba última de uma fórmula mágica. Que dependa dele – como a moeda que o suicida reticente lança ao ar – o exato sentido da vida essa confusão de quimeras que morrem nas…
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Francisco Brines – “Collige, virgo, rosas”

Estás já com quem queres. Ri e goza. Ama. E anima-te na noite que agora começa, e entre tantos amigos (e comigo) abre os grandes olhos para a vida com a avidez preciosa de tua idade. A noite, longa, há de acabar ao amanhecer, e virão esquadrões de espiões com a luz, apagar-se-ão as estrelas,…
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Garcilaso de la Vega – Soneto XXIII

Enquanto que de rosa e de açucena se mostra toda a cor neste teu rosto, enquanto o teu olhar ardente, honesto, acende o coração e o serena; e enquanto o teu cabelo, que das franjas do ouro se escolheu, com voo presto, sobre o formoso colo branco, ereto, o vento move, espalha e desarranja: colhe…
