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Rupi Kaur – Depressão é uma sombra que mora em mim

ontem quando saí da cama o sol caiu no chão e rolou pela grama as flores decapitaram a si mesmas a única coisa viva que sobrou fui eu e eu já não sei se isso é vida Trad.: Ana Guadalupe
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Francisco Brines – O Triunfo do Amor

Eu te amei em Queroneia. Vivos estávamos. Entre a tristeza arruinada um sopro mortal: estávamos vivos. Séculos se passaram, e outros olhos contemplam as ruínas, ainda intactas. Quem passou por aqui? Apenas o vazio foi o tecido do tempo nesta planície. Eu te amei em Queroneia. Impalpável era o calor das cinzas humanas, e na…
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Vitorino Nemésio – A Concha

A minha casa é concha. Como os bichos Segreguei-a de mim com paciência: Fachada de marés, a sonho e lixos, O horto e os muros só areia e ausência. Minha casa sou eu e os meus caprichos. O orgulho carregado de inocência Se às vezes dá uma varanda, vence-a O sal que os santos esboroou…
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Joan Margarit – Aventura Doméstica

Sozinho em casa e vasculhando os armários. Encontro um antigo mapa rodoviário, contratos vencidos, esferográficas que já não escreverão nenhuma carta, calculadoras com pilhas descarregadas e relógios que o tempo derrotou. No fundo das gavetas, como um rato triste, aninha-se o passado. Vazios, os vestidos pendem como velhas personagens que nos interpretaram. Súbito, encontro também…
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Miguel Torga – Princípio

Não tenho deuses. Vivo Desamparado. Sonhei deuses outrora, Mas acordei. Agora Os acúleos são versos, E tacteiam apenas A ilusão de um suporte. Mas a inércia da morte, O descanso da vide na ramada A contar primaveras uma a uma, Também não me diz nada. A paz possível é não ter nenhuma.
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Pedro Mexia – Vamos Morrer

Vamos morrer, mas somos sensatos, e à noite, debaixo da cama, deixamos, simétricos e exactos, o medo e os sapatos.
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Inês Dias – (Primeira Memória)

No ano da morte da última beguina, que nunca precisara do desassossego de ver, chegou finalmente à Terra a primeira luz do mundo. 380 mil anos até comprovarmos, como a História nunca se cansara, aliás, de repetir, que tudo é trevas, instável equilíbrio entre matéria e energia escuras. Em suma, a humanidade devolvida num saco…
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Giuseppe Ungaretti – Vaidade

De repente se eleva sobre os escombros a límpida maravilha da imensidão. E o homem curvado sobre a água surpreendida pelo sol se descobre uma sombra Embalada pouco a pouco desfeita Trad : Geraldo Holanda Cavalcanti Vanità D’improvviso è alto sulle macerie il limpido stupore dell’immensità E l’uomo curvato sull’acqua sorpresa dal sole si rinviene…
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Ricardo Molina – Convite à Felicidade

Es dulce ser amado pero amar, oh dioses, qué ventura… Goethe Ama-me agora que tenho os cabelos pretos e uma coroa de junco e o perfume da água e da esteva nos braços nus. Ama-me agora que tenho nos olhos a suave chama da tarde e a graça do sorriso e a leve frescura dos…
