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Paulo Henriques Britto – Plaudite, amici

Seria muito bom saber sair de cena sem fazer cenas, sem roubar a cena, sem atropelar sequer um figurante. Pena que nessas horas se improvisa, e que ninguém respeita nada quando foge do roteiro. Mesmo os maiores canastrões têm seu momento de glória, de prima-donismo o mais rasteiro e o mais justificável. Pois na vida…
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Nuno Júdice – É isto o amor

Em quem pensar, agora, senão em ti? Tu, que me esvaziaste de coisas incertas, e trouxeste a manhã da minha noite. É verdade que te podia dizer: “Como é mais fácil deixar que as coisas não mudem, sermos o que sempre fomos, mudarmos apenas dentro de nós próprios?” Mas ensinaste-me a sermos dois; e a…
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Luís García Montero – Resumo dos fatos

Falei com a morte por telefonee recebi e-mails de amor que foram apagadossem deixar uma única lágrima em papel amarelo.Ninguém esqueça os tempos, mas ninguém se engane:no final, apenas o amor e a morte importam. Trad.: Nelson Santander Resumen de los hechos He hablado con la muerte por teléfonoy he recibido e-mails de amor que…
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Fernando Assis Pacheco – Respiração Assistida

Eu vi a morte de noite – névoa branca – entre os frascos do soro rondar a minha cama era um trasgo e como tal metera-se pelas frinchas; noutra versão coando-se através dos nós da madeira ou noutra ainda imitando à perfeição o gorgolejar da água nos ralos: eu tremia covardemente enquanto ela raspava a…
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Carlos Poças Falcão – A luz coada num pano negro

Lamenta-te, pois já não é alegre o vento sobre os campos. Não há descoberta nem transfiguração quando o calendário vem com as primícias. Lamenta-te, lamenta-te. Já não tens a nudez certa nem a fragrância antiga.
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Paul Verlaine – Chanson D’Automne (em seis traduções)

Canção do Outono (Trad.: Alphonsus de Guimaraens) Os soluços graves Dos violinos suaves Do outono Ferem a minh’alma Num langor de calma E sono. Sufocado, em ânsia, Ai! quando à distância Soa a hora, Meu peito magoado Relembra o passado E chora. Daqui, dali, pelo Vento em atropelo Seguido, Vou de porta em porta, Como…
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Vicente Gaos – Esquecei

Esquece, homem… Esquece que és cinzase em cinzas te tornarás. Esquece esta quarta-feirae o in pulvis reverteris. Pois embora sejas cinza e pó,há vida, amor, beleza ao redor. É verdade: beleza, amor, vida,fugazes flores de um dia. Mas flores, sim. Enquanto durara magia verdadeira de seu perfume, esquece o pó e a morte.É melhor não lembrar…
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Helena Zelic – Bem-vinda

em uma casa desconhecidaé preciso observar os movimentos das coisas: o gás se vem da rua ou botijãoas árduas relações entre tomadas e eletrodomésticosbotões de liga e desligaa política da limpezase toda sujeira é política.as cores das chaves, as trancas trocadasencaixar, tirar e encaixar de novona busca do que é espontâneo.entrar na casa como se…
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Eugénio de Andrade – Fim de tarde em S Lázaro

Estou sozinho. Nas estantes, restos da minha vida. É quase noite sobre os telhados. No livro abandonado nas mãos corre um rio: à deriva duas ou três coisas que foram minhas: um punhado de amoras, a porosa delícia do barro, essas nuvens, essas aves num céu branco de trigo, um sorriso que também era um…
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Luis Alberto de Cuenca – Mal de ausência

Desde que partiste, não sabes como devagar passa o tempo em Madrid. Vi um filme que terminou apenas há um século. Não sabes que lento corre o mundo sem ti, noiva distante. Os amigos pedem-me que volte a ser o mesmo que o coração apodrece de tanta melancolia, que a tua ausência não vale tanta…