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Joan Margarit – Ela

É tempo de não esperar por ninguém. Passa o amor, fugaz e silencioso, como, na distância, um trem noturno. Não resta ninguém. É hora de voltar ao desolado reino do absurdo, ao sentimento de culpa, ao medo vulgar de perder o que estava, já, perdido. Ao inútil e sórdido tempo moral. É hora já de…
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Paulo Henriques Britto – Lacrimæ rerum

É o lamento das coisas, a desdita da matéria. Não tem nada a ver conosco, com nossa breve miséria, nosso orgulho de organismo. É uma questão de moléculas, que antecede a biologia por coisa de muitos séculos. Diante dessa dor arcana nosso entendimento pasma. Nem tudo está a vosso alcance, ó seres de protoplasma.
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Philip Roth – Patrimônio (excerto 2)

Ele morreu três semanas depois. Durante uma provação de doze horas, que começou pouco antes da meia-noite de 24 doutubro de 1989 e terminou logo após o meio-dia, ele lutou por cada sorvo de ar com uma erupção impressionante, uma derradeira exibição da tenacidade férrea que havia demonstrado ao longo da vida. Algo digno de…
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Fernando Assis Pacheco – R., 1992

Quando os anos passarem sobre esse teu desgosto vais ver que te curaste não de vez mas um pouco pois o que a gente busca nas dobras do amor é a cura para a morte que não tem consolo e por falar em f’ridas até as que mais doem acabam por fechar só ela vence…
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Vasco Gato – Fera Oculta

com a Inês para o Rodrigo I Durante essa tua natação de fera ocultahá um papiro que se desdobra na minha bocae nunca o futuro teve o saborde palavras tão sobejamente pronunciadasfamília rapaz umbigopalavras com que se poderia redigirtão pouca coisase não fosse a reinvenção da tua chegadainscrita no mundo como pedra preciosaque não é pedraantes…
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José Manuel Caballero Bonald – Transfiguração do perdido

A música convoca as imagens degradadas do tempo. De onde estão me chamando, de qual penumbra, quando retornam para mim? Nada me pertence senão aquilo que perdi. Máscara do passado, a memória conflui para um fundo difuso de alegrias em que tudo soçobra e se reduz a nada, onde está minha verdade tornando-se mais crédula.…
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Rafael Montesinos – Vida

Nasceu. Viveu feliz. Sorveu a vida de um só e belo trago adolescente. Buscou a solidão, e se viu frente a uma atroz, inesperada ferida. Em desvario, deu para crer em tudo. “Oh sensatez de não se crer em nada!”, disse, e depois a alma, entusiasmada quis sentir a vida de um outro modo. Farto…
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Philip Roth – Patrimônio (excerto)

“Quando se visita uma sepultura, todo mundo tem pensamentos mais ou menos iguais, que, abstraída a questão da eloquência, não diferem muito daqueles que Hamlet expressou ao contemplar o crânio de Yorick. Há muito pouco para se pensar ou dizer que não seja uma variante de “Ele me carregou nos ombros mil vezes”. Num cemitério,…
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Manuel António Pina – Sexta-feira Santa

A conversa era sobre Deus, embora o teólogo estivesse inclinado a pensar que fosse sobre outra coisa, pois era hora de jantar. Pegou num cigarro e perguntou às senhoras se podia fumar. Tinha devorado o pargo com honesto apetite e elogiava as virtudes do cozinheiro. Só Deus, algures, chorava sobre os despojos da sua pequena…
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Ian Hamilton – Admissão

Os lábios rachados do porteiro noturno uniformizadoMurmuram horrivelmente contra o vidro embaçadoDe nossa ambulância escura.Nossa afliçãoInspira um único olhar marcial de desdémE logo ele nos indica o caminho, para a “Pátria”. Trad.: Nelson Santander Admission The chapped lips of the uniformed night-porterMumble horribly against the misted glassOf our black ambulance.Our plightInspires a single, soldierly, contemptuous…