Walt Whitman – Pleno de vida agora

Pleno de vida agora, consistente, visível,
Eu, quarenta anos vividos, no ano oitenta e três anos dos Estados,
Ao homem que viva daqui a um século, ou dentro de quantos séculos for,
A ti, que ainda não nasceste, dirijo este canto.
Quando leias isto, eu, que agora sou visível, terei me tornado invisível,
Enquanto tu serás consistente e visível, e darás realidade a meus poemas, voltando-te para mim,
Imaginando como seria bom se eu pudesse estar contigo e ser teu camarada:
Faz de conta que eu estou contigo. (E não o duvides muito, porque eu estou aí nesse momento.)

Trad.: Ferreira Gullar

Full of life now

Full of life now, compact, visible,
I, forty years old the eighty-third year of the States,
To one a century hence or any number of centuries hence,
To you yet unborn these, seeking you.
When you read these I that was visible am become invisible,
Now it is you, compact, visible, realizing my poems, seeking me,
Fancying how happy you were if I could be with you and become your comrade;
Be it as if I were with you. (Be not too certain but I am now with you.)

Miguel-Manso – No número de outubro da revista Wire

frente ao fotógrafo e ao leitor
o homem envelhecido parece que já não olha
Mitra o deus sol dos psicadélicos

noutra foto
no interior da revista o poeta está sentado
a uma pequena mesa de frente para a janela
onde as cortinas brancas filtram
a luz e o ruído da rua

sentado na cadeira de rodas
ele espera dentro da claridade
delicada da manhã

e depois durante a noite

assiste ao que resta do mundo
junto à máquina (a soft machine) de escrever
pousada no tampo (eu ia escrever
no tempo) da mesa

não sei se caem pétalas dentro
do olhar de Robert Wyatt não sei o que escreve
agora na tábua das constelações

essa realidade desabitada dos versos
e dos jardins

Andreia C. Faria – San Cibrán de Las

Ainda aos sábados os homens passeiam
pelo que resta das muralhas
e as mulheres procuram vestígios –
os pulsos nus, a canteira e a nascente de água,
a paciência necessária a quem se alimentava desse pão

É também este o meu plano para a velhice:
ervas de que não sei o nome, a ruína interior
de uma casa, animais que serão meus iguais

Em noite de São João vêem-se as estrelas cadentes
se a luz das estradas não contaminam o céu
No chão deste recinto estão as brasas
apagadas dos cigarros, excrementos e latas de cerveja
são as nossas constelações

Gonçalo M. Tavares – uma síntese disto tudo

é porque existe o desejo, o olfato, e o medo,
e os vivos apaixonam-se por outros vivos,
e lembram-se, por vezes, do enorme número de mortos,
e dentro destes há alguns que os fazem desligar a luz e o trabalho,
e o quotidiano aí já não basta,
porque o coração tem em certos dias um orçamento incomportável

E não basta então a mulher que amamos,
nem os filhos
– os que nos vão sobrevive no tempo –
e é preciso sair, e não basta sair para a rua e correr,
é preciso sair dos ossos,
fugir do obrigatório, à casa,
encontrar dentro dos bolsos o bocado de uma carta, de um mapa,
fragmento que possa reconstruir o caminho para a casa da infância
onde Deus era chocolate e o resolvíamos
assim, de uma vez, porque o comíamos

Porque mais tarde crescemos e ganhamos
dinheiro, família, e alguns outros assuntos,
mas perdemos qualquer coisa de que é impossível falar,
de que não sabemos falar.

E é preciso isso tudo,
e por quase tudo o que faltou dizer,
é por isso que é bom, por vezes,
suspender a noite e o coração,
e obrigar o cérebro à paragem surpreendente.

E é por isso que é bom, por vezes,
ocuparmos o corpo no ato de sentar,
e pedir, então, à arte, à literatura, ao teatro,
que nos salve,
por enquanto,
antes de morrermos.

Aqui: http://encontradordebelezas.blogspot.com/2011/03/uma-sintese-disto-tudo-salvacao-e.html

Adelaide Ivánova – o elefante

quando johanna morreu tinha um ano
e oito meses foi encontrada na piscina
apertava um elefante na mão que sua mãe
até hoje aperta muito embora o alzheimer
lhe impeça de lembrar por que ela a mãe
pulou na piscina ao ver johanna
à deriva no ventinho do norte da renânia
boiando na piscina que o pai de johanna
esqueceu de cobrir enquanto jogava
tênis com outros amigos talvez tão ou mais
ricos do que eles a mãe de johanna que hoje
já não se lembra de muita coisa como falei
por causa do alzheimer lembrou no entanto
de guardar o elefante só esqueceu
de tirar o vestido molhado dizem que passou
dias assim “parecia uma estátua grega” disseram
o que ninguém viu era que apertava também o
elefantinho em 1958 quando eu morri 50 anos
depois tinha vinte e cinco anos e seis meses e apertava
o primeiro verso de um poema de sylvia plath e resistia
bravamente de olhos fechados enquanto caía morto
o mundo inteiro embora soubesse que o resto do
poema é uma declaração de amor completamente idiota
como são todas as declarações de amor heterossexual
e como tantas coisas que plath escreveu recitava
o poema enquanto me afogava me perdoe plath me perdoe
campilho o mundo é um horror o elefante é de pelúcia
e ossinhos não são de mel
são apenas cálcio
nada mais.

Goliarda Sapienza – Sem título

Cumpriu-se. Concluiu-se. Terminou-se.
Consumiu-se o incêndio. Findou-se.
Fechou-se o círculo petrificado.
Findou-se o tempo. Consumiu-se
o delito. Queimou-se
a lembrança. Cessou a angústia.
Um manto de lava interditou
todo crânio toda órbita esvaziada.
Toda boca no grito interditou.

Fechou-se o círculo. Nada atreve-se a singrar
o silêncio de lava. As formigas
rodeiam o fogo gasto enlouquecidas.

Trad.: Valentina Cantori

Goliarda Sapienza

È compiuto. È concluso. È terminato.
È consumato l’incendio. S’è fermato.
S’è chiuso il cerchio pietrificato.
Il tempo s’è fermato. È consumato
il delitto. S’è bruciato
il ricordo. L’ansia è cessata.
Una coltre di lava ha sigillato
ogni cranio ogni orbita svuotata.
Ogni bocca nel grido ha sigillato.

S’è chiuso il cerchio. Niente osa varcare
il silenzio di lava. Le formiche
girano intorno al rogo spento impazzite.

Goliarda Sapienza (1924-1996), por Valentina Cantori

Ian Hamilton – Última Valsa

De onde estamos quase que podemos identificar
Os rostos destas pessoas que não conhecemos:
Um semi-círculo sombreado
Ao redor do enorme aparelho de TV doado
Que domina nossa ala.

A ‘Última Valsa’ espalha-se sobre eles
Iluminando
Amistosos, exaustos sorrisos. E nós,
Como se nos importássemos, também sorrimos.

Para cada alma perdida, nesta hora tardia
Um sedado espasmo de felicidade.

Trad.: Nelson Santander

Last Waltz

From where we sit, we can just about identify
The faces of these people we don’t know:
A shadowed semi-circle
Ranged around the huge, donated television set
That dominates the ward.

The ‘Last Waltz’ floods over them
Illuminating
Fond, exhausted smiles. And we,
As if we cared, are smiling too.

To each lost soul, at this late hour
A medicated pang of happiness.

Jaime Gil de Biedma – Depois da morte de Jaime Gil de Biedma

No jardim, lendo,
a sombra da casa tolda as páginas
e o frio repentino do final de agosto
faz-me pensar em ti.

O jardim e a casa vizinha
onde piam os pássaros nas trepadeiras,
uma tarde de agosto, quando começa a anoitecer
e tem-se ainda o livro nas mãos,
eram, lembro-me, teu símbolo da morte.
Oxalá no inferno
de teus últimos dias te desse esta visão
um pouco de doçura, embora não acredite nisso.

Finalmente em paz comigo mesmo,
posso já recordar-te
não nas horas horríveis, mas sim aqui,
no verão do ano passado
quando, de um só golpe,
– tantos meses apagadas –
regressam as imagens felizes
trazidas por tua imagem da morte…
Agosto no jardim, em plena luz do dia.

Taças de vinho branco
deixadas na grama, perto da piscina,
calor sob as árvores. E vozes
que gritam nomes.
          Ángel,
Juan, María Rosa, Marcelino, Joaquina
– Joaquina dos peitinhos de maçã.
Tu retornavas rindo do telefone
anunciando mais pessoas que viriam:
recordo-te correndo,
a abafada explosão de teu corpo na água.

E as noites também de liberdade completa
na casa espaçosa, inteira para nós
como um convento abandonado,
e a nostalgia de portas secretas,
aquele correr pelos quartos,
olhar nos armários
e divertir-se na alternância
entre estar nu e vestido, tirando o pó
de batinas, botas de cano alto e calções,
arbitrárias cenas,
velhos sonhos eróticos de nossa adolescência,
rapaz solitário.
          Lembras-te de Carmina,
da gorda Carmina subindo as escadas
com o rabo para cima
e levando na mão um candelabro?

Foi um verão feliz.
          … O último verão
de nossa juventude
, disseste a Juan
em Barcelona ao regressar,
nostálgicos,
e tinhas razão. Depois veio o inverno,
o inferno de meses
e meses de agonia
e a última noite de pílulas e álcool
e vômito na alfombra.
          Eu me salvei escrevendo
depois da morte de Jaime Gil de Biedma.

Dos dois, eras tu quem melhor escrevia.
Agora sei até que ponto eram teus
o desejo de perfeição e a ironia,
a surdina romântica que palpita em meus poemas
preferidos, por exemplo, em Pandêmia… *
Às vezes me pergunto
como minha poesia ficará sem ti?

Embora talvez tenha sido eu quem te ensinou.
Quem te ensinou a vingar-te de meus sonhos,
por covardia, corrompendo-os.

Trad.: Nelson Santander

* O poeta se refere ao poema “Pandêmia e Celeste”, também traduzido por mim e que pode ser lido aqui:

https://wordpress.com/post/nsantand.wordpress.com/6119

Después de la muerte de Jaime Gil de Biedma

En el jardín, leyendo,
la sombra de la casa me oscurece las páginas
y el frío repentino de final de agosto
hace que piense en ti.

El jardín y la casa cercana
donde pían los pájaros en las enredaderas,
una tarde de agosto, cuando va a oscurecer
y se tiene aún el libro en la mano,
eran, me acuerdo, símbolo tuyo de la muerte.
Ojalá en el infierno
de tus últimos días te diera esta visión
un poco de dulzura, aunque no lo creo.

En paz al fin conmigo,
puedo ya recordarte
no en las horas horribles, sino aquí
en el verano del año pasado,
cuando agolpadamente
-tantos meses borradas-
regresan las imágenes felices
traídas por tu imagen de la muerte…
Agosto en el jardín, a pleno día.

Vasos de vino blanco
dejados en la hierba, cerca de la piscina,
calor bajo los árboles. Y voces
que gritan nombres.
          Ángel,
Juan, María Rosa, Marcelino, Joaquina
-Joaquina de pechitos de manzana.
Tú volvías riendo del teléfono
anunciando más gente que venía:
te recuerdo correr,
la apagada explosión de tu cuerpo en el agua.

Y las noches también de libertad completa
en la casa espaciosa, toda para nosotros
lo mismo que un convento abandonado,
y la nostalgia de puertas secretas,
aquel correr por las habitaciones,
buscar en los armarios
y divertirse en la alternancia
de desnudo y disfraz, desempolvando
batines, botas altas y calzones,
arbitrarias escenas,
viejos sueños eróticos de nuestra adolescencia,
muchacho solitario.
          Te acuerdas de Carmina,
de la gorda Carmina subiendo la escalera
con el culo en pompa
y llevando en la mano un candelabro?

Fue un verano feliz.
          …El último verano
de nuestra juventud
, dijiste a Juan
en Barcelona al regresar
nostálgicos,
y tenías razón. Luego vino el invierno,
el infierno de meses
y meses de agonía
y la noche final de pastillas y alcohol
y vómito en la alfombra.
          Yo me salvé escribiendo
después de la muerte de Jaime Gil de Biedma.

De los dos, eras tú quien mejor escribía.
Ahora sé hasta qué punto tuyos eran
el deseo de ensueño y la ironía,
la sordina romántica que late en los poemas
míos que yo prefiero, por ejemplo en Pandémica…
A veces me pregunto
cómo será sin ti mi poesía.

Aunque acaso fui yo quien te enseñó.
Quien te enseñó a vengarte de mis sueños,
por cobardía, corrompiéndolos.

Vicente Gaos – Homem Total

     Homenagem a Lope de Vega

          I

Olhos verdes de Marta de Nevares
Olhos – negros talvez? – de Dorotea.
Olhos azuis, límpida luz febea
de Camila Lucinda. Que avatares

de amor sem contenção! Gozos, pesares,
gozos… Isto é amor. Quem não me crê,
mire-se no olhar que se pode ver
nos olhos de uma mulher. (Cantares:

Estes olhos que vemos não são olhos
porque também os vemos, eles são
olhos porque nos vêem.
) Mas a cegueira

de Marta, e o esquecimento, os restolhos
de tanto fogo extinto… Tua canção
se eleva enfim até a luz primeira.

          II

Não sabe o que é o amor quem não te ama.
Não sabe o que é o amor quem não te espia.
Arrancaste à tu’alma e poesia
O som mais doce, a mais ferina chama.

O que restou do amor por tanta dama?
Apenas cinzas da imensa pira.
Anuvia-se o olhar, o corpo expira,
e a alma quer se unir à alta rama

de Deus, que com seus silvos amorosos
te encanta na aguda paz do verão.
Madrid, mil, seiscentos e trinta e cinco.

Já se foram os anos venturosos
e os amargos. Tudo passou em vão.
E a Deus te entregas com mortal afinco.

Trad.: Nelson Santander

Hombre total

Homenaje a Lope de Vega

I

Ojos verdes de Marta de Nevares.
Ojos -¿negros tal vez?- de Dorotea.
Ojos azules, clara luz febea
de Camila Lucinda. ¡Qué avatares

de amor sin contención! Gozos, pesares,
gozos… Esto es amor. Quien no lo crea,
mírese en unos ojos, que se vea
en unos ojos de mujer. (Cantares:

Esos ojos que vemos no son ojos
porque nosotros los veamos, son
ojos porque nos ven.) Mas la ceguera

de Marta, y el olvido, los despojos
de tanta lumbre extinta… Tu canción
se eleva al fin hacia la luz primera.

II

No sabe qué es amor quien no te ama.
No sabe qué es amor quien no te mira.
Tú arrancaste a su alma y a su lira
el son más dulce, la más fiera llama.

¿Qué fue de tanto amor por tanta dama?
Sólo cenizas de la inmensa pira.
Se nubla la mirada, el cuerpo expira,
y el alma quiere asirse a la alta rama

de Dios, que con sus silbos amorosos
te hechiza en la honda calma del verano.
Madrid, a mil seiscientos treinta y cinco.

Pasaron ya los años venturosos
y los amargos. Todo pasó en vano.
Y a Dios te entregas con mortal ahínco.

Helena Zelic – Gaveta de Casa

Nossas fotos de infância
boletins de nota azul
três diários à chave
hoje abertos

duzentos milhões de pequenos
museus da desimportância