David Teles Pereira – Tractatus de Legibus ac Deo Legislatore (Livro III, Capítulo II)

      Ao meu avô

Nunca mais me irás interromper
ao comentar uma passagem do de Legibus de Francisco Suárez,
mas, por agora, a nuvem castanha que te ocupa
o peito sufoca-me a voz.

As nossas leis não chegam para acalmar todos os vícios
e o pior de todos é chorar-te
por não te poder dizer, seguindo Castro, seguindo Suárez,
que nenhum poder pertence a um só homem,
mesmo a um com umas mãos como as tuas
capazes de me virar as costuras aos olhos.

O teu pacto, se é que me diz respeito, chegou invisível,
insípido a escoar entre portas, sem nunca refazer
o fio bruto que nos chegou a prender um ao outro, homem a homem.

Deve ser por causa do sangue, com certeza,
que acentua a intelectualidade da questão,
tal como na poesia, tens de concordar, muito embora
nunca tenhamos entre os dois
esboçado mais que um par de incompreensões a propósito disto.

É uma pena que não possas ver o teu próprio rosto de mármore.
Quase comoves
rindo, como todos nós, ao abandono.

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