Joseph Stroud – Lázaro em Varanasi

De uma pira no flamejante ghat1,
um cadáver se ergue lentamente entre as chamas.
Como se lembrasse de algo importante.
Como se quisesse olhar ao redor uma última vez.
Como se finalmente tivesse algo a dizer.
Como se houvesse uma saída para isso.

Trad.: Nelson Santander

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Lazarus In Varanasi

From a pyre on the burning ghat
a corpse slowly sits up in the flames.
As if remembering something important.
As if to look around one more time.
As if he has something at last to say.
As if there might be a way out of this.

  1. Os ghats são conjuntos de degraus que levam à beira de rios sagrados na Índia, tradicionalmente usados para banhos rituais, cerimônias religiosas e cremações. Varanasi, mencionada no título do poema, é uma cidade situada às margens do rio Ganges (considerado sagrado pelos indianos), reconhecida por suas cerimônias de cremação e sua profunda ligação com a espiritualidade e os ritos mortuários. ↩︎

Joseph Stroud – Lendo Kaváfis sozinho na cama

Eu, também, me lembro do passado, meu quarto iluminado por velas,
e da noite em que ela entrou e tocou meu rosto
com seu rosto, com boca e língua e lábios,
do pomar à noite, do odor das frutas,
seus seios – lembra, corpo? – aquele quarto,
lembra? – nossos gritos, as velas bruxuleantes?

Trad.: Nelson Santander

Reading Cavafy Alone In Bed

I, too, remember the past, my room lit by candles,
and the night she entered and touched my face
with her face, with mouth and tongue and lips,
in the orchard night, in the odor of fruit,
her breasts — remember, body? — that room,
remember? — our cries, the flickering candles?

Konstantinos Kaváfis – Lembra, corpo…

Lembra, corpo, não só o quanto foste amado,
não só os leitos onde repousaste,
mas também os desejos que brilharam
por ti em outros olhos, claramente,
e que tornaram a voz trêmula – e que algum
obstáculo casual fez malograr.
Agora que isso tudo perdeu-se no passado,
é quase como se a tais desejos
te entregaras – e como brilhavam,
lembra, nos olhos que te olhavam,
e como por ti na voz tremiam, lembra, corpo.

Trad.: José Paulo Paes

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Pedro Mexia – “O fogo, o ferro, o futuro”

Eras um sustento,
eras um segredo,
uma feroz tentativa.

Eras a roupa do corpo
feito estandarte
a caminho de casa
e as tuas mãos metade das minhas.

Eras um fascínio,
eras um fracasso,
eras a chama que nunca te queimou,
o sul, o sufoco,
a madrugada.

Eras um tumulto
de éguas e galgos,
a minha impaciência,
o meu verde vivo.

Eras o que nunca podias,
assombração sem fantasia
descalça e abrigada,
loureiro da Aquitânia.
Eu era o viúvo, o tenebroso,
consolado na água
que de súbito secou.

Eras o que foste,
metáfora do que eu
tanto te quis.
O fogo, o ferro, o futuro.

Wislawa Szymborska – Mapa

Plano como a mesa
na qual está colocado.
Debaixo dele nada se move
nem busca vazão.
Sobre ele – meu hálito humano
não cria vórtices de ar
e deixa toda a sua superfície
em silêncio.

Suas planícies, vales, são sempre verdes,
os planaltos, montanhas, amarelos e marrons
e os mares, oceanos, de um azul delicado
nas margens fendidas.

Tudo aqui é pequeno, próximo, acessível.
Posso tocar os vulcões com a ponta da unha,
acariciar os polos sem luvas grossas.
Com um olhar posso
abarcar cada deserto
junto com o rio logo ali ao lado.

Selvas são assinaladas com arvorezinhas
entre as quais seria difícil se perder.

No Ocidente e Oriente
acima e abaixo do equador –
assentou-se um manso silêncio.
Pontinhos pretos significam
que ali vivem pessoas.
Valas comuns e súbitas ruínas
não cabem nesse quadro.
As fronteiras dos países mal são visíveis
como se hesitassem entre ser e não ser.

Gosto dos mapas porque mentem.
Porque não dão acesso à dura verdade.
Porque, generosos e bem-humorados,
estendem-me na mesa um mundo
que não é deste mundo.

Trad.: Regina Przybycien

Jorge Sousa Braga – Litania

Estava sentado numa sala anexa ao bloco operatório
e uma enfermeira passou com o teu útero num saco de plástico transparente
Com o teu útero com a minha primeira casa e a de meus irmãos
ainda escorrendo sangue
Uma pequena construção toda em pedra
com divisões de tijolo e cal hidráulica
e janelas abrindo para o vale
Com o teu útero
Com a memória do pão depois de levedado e da tua saia comprida cheia de farinha
Com a memória de uma gema de ovo
Com o teu útero
Com a memória de uns sapatos demasiado apertados
Com a memória do giz e do ferro a carvão e dos alinhavos
Na minha alma antes de ser posta à prova
Com o teu útero
Com a memória de uma véspera de Natal das rabanadas e da aletria
E das águas que de súbito inundaram o soalho da cozinha
Com a memória agitada dessas águas
Com o teu útero
Com a memória de uma explosão de mimosas
Com a memória do cheiro a flor de laranjeira e a neroli
Com o teu útero
Que o anátomo-patologista dentro em pouco se encarregaria de retalhar
Com a lâmina do bisturi

Nuno Júdice – Nostalgia de setembro

Quando vinham as nuvens de setembro, já
os pássaros tinham emigrado para além dos mares,
o campo ficava em longos silêncios
que só a passagem dos rebanhos, a caminho
do matadouro, cortava num tropel que ecoava
ainda, depois da paisagem, com os gritos
do pastor e o ladrar dos cães. Eu gostava dessas nuvens
quando começavam as primeiras chuvas, e podia
ouvir o bater dos pingos na janela, empurrados
pelo vento, e o ruído da água a correr nas goteiras,
e a inundar as valetas, arrastando o lixo
e as memórias do verão. Porém, ainda te vejo,
com o vestido encharcado e os cabelos a escorrerem
água para os ombros, como se não te importasses
com a chuva. Nunca soube quem eras, nem
porque passeavas no campo como se estivesse
um dia de sol. Talvez fosses uma sobrevivente do
verão; e ainda hoje me arrependo de não te
ter seguido, para lá da curva do caminho em que
te perdi de vista, para que esse verão continuasse
comigo, para sempre, através da tua imagem.

A. M. Pires Cabral – O Vento

É fácil dizer que o vento
tem gatos na voz
enfurecidos.

Que afaga e despenteia,
traz a chuva.

Que levanta as telhas,
exercita na noite
os nossos mais pesados
pesadelos.

É fácil ser poeta
à custa do vento.

Fingir que não sabemos
que o vento não é senão
o vazio que muda de lugar.

Carlos Bousoño – À distância

Passa a juventude, e passa a vida,
passa o amor, a morte também passa,
o vento, a amargura que trespassa
a pátria espessa, hirta e adormecida.

Adormecida, em sonho eterno, olvida.
Mortos e vivos na mesma argamassa
dormem igual sina e alegria escassa.
Pátria, profundeza, pedra perdida.

Pedra perdida, imersa, vivos, mortos.
Toda Espanha dorme já sua história.
As campinas tristes e os céus hirtos.

Sobre a folha escrita está tua glória:
pretender edificar nos desertos;
ambicionar à luz mais ilusória.

Trad.: Nelson Santander

Desde lejos

Pasa la juventud, pasa la vida,
pasa el amor, la muerte también pasa,
el viento, la amargura que transpasa
la patria densa, inmóvil y dormida.

Dormida, en sueño para siempre, olvida.
Muertos y vivos en la misma masa
duermen común destino y dicha escasa.
Patria, profundidad, piedra perdida.

Piedra perdida, hundida, vivos, muertos.
España entera duerme ya su historia.
Los campos tristes y los cielos yertos.

Sobre el papel escrita está su gloria:
querer edificar en los desiertos;
aspirar a la luz más ilusoria.

David Teles Pereira – Tractatus de Legibus ac Deo Legislatore (Livro III, Capítulo II)

      Ao meu avô

Nunca mais me irás interromper
ao comentar uma passagem do de Legibus de Francisco Suárez,
mas, por agora, a nuvem castanha que te ocupa
o peito sufoca-me a voz.

As nossas leis não chegam para acalmar todos os vícios
e o pior de todos é chorar-te
por não te poder dizer, seguindo Castro, seguindo Suárez,
que nenhum poder pertence a um só homem,
mesmo a um com umas mãos como as tuas
capazes de me virar as costuras aos olhos.

O teu pacto, se é que me diz respeito, chegou invisível,
insípido a escoar entre portas, sem nunca refazer
o fio bruto que nos chegou a prender um ao outro, homem a homem.

Deve ser por causa do sangue, com certeza,
que acentua a intelectualidade da questão,
tal como na poesia, tens de concordar, muito embora
nunca tenhamos entre os dois
esboçado mais que um par de incompreensões a propósito disto.

É uma pena que não possas ver o teu próprio rosto de mármore.
Quase comoves
rindo, como todos nós, ao abandono.