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Vasco Gato – Repara nos velhos

Repara nos velhos. Dementes, doridos, restos de casas. Vivem agora a lepra de todos nós. Não lhes chegamos. Tresandam. Esquecem. Apoderam-se do nada. E nós, capitosos, brindamos com o vinho que também eles sorveram, desdenhando a morte que, amarga como a nossa indiferença, haveremos de provar.
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William Butler Yeats – As quatro idades do homem

As quatro idades do homem, um poema de William Butler Yeates: Com seu corpo principiou uma rinha O corpo venceu; ereto ele caminha. Ele lutou então com o coração; Sua inocência e sua paz já se vão.
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A. A. Milne – Narciso

Ela vestiu seu chapéu-de-sol,E pôs o seu mais verde vestido;Virou-se para o vento australE prestou-lhe o cortejo devido.Virou-se então para a luz do solE os cabelos louros agitou,E sussurrou para o seu vizinho:“O inverno acabou” Trad.: Nelson Santander Mais do que uma leitura, uma experiência. Clique, compre e contribua para manter a poesia viva em…
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Nelson Ascher – Saudade

Posto que nem é de bom-tom falar sobre a tristeza insossa cujo vaivém, quando se apossa de mim, me embala como o som sem fim das ondas do Leblon, dispondo-me a curtir a fossa a sós, pus na vitrola a bossa nova de João, Vinícius, Tom, menos pra ouvir o que ela tem, porque talvez…
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José Paulo Paes – Borboleta

Mal saíra do casulo para mostrar ao sol o esplendor de suas asas um pé distraído a pisou. (A visão de beleza dura um só instante inesquecível.)
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Joseph Stroud – Tributo a Rolf Jacobsen

A jaqueta amarela fica batendo contra a vidraça tentando sair. Desde o começo era apenas uma questão de abrir a janela, encontrar as palavras, e você por aí – em um outro, maior mundo. Para os mortos, o paraíso é a calçada na qual você caminha olhando as janelas, cantarolando, parando para um café. Trad.:…
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Maria do Rosário Pedreira – Onde quer que o encontres

Onde quer que o encontres – escrito, rasgado ou desenhado: na areia, no papel, na casca de uma árvore, na pele de um muro, no ar que atravessar de repente a tua voz, na terra apodrecida sobre o meu corpo – é teu, para sempre, o meu nome.
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Ferreira Gullar – Pela rua

Sem qualquer esperança detenho-me diante de uma vitrina de bolsas na Avenida Nossa Senhora de Copacabana, domingo, enquanto o crepúsculo se desata sobre o bairro. Sem qualquer esperança te espero. Na multidão que vai e vem entra e sai dos bares e cinemas surge teu rosto e some num vislumbre e o coração dispara. Te…
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Wisława Szymborska – Desatenção

Ontem me comportei mal no universo. Vivi o dia inteiro sem indagar nada, sem estranhar nada. Executei as tarefas diárias como se isso fosse tudo o que devia fazer. Inspirar, expirar, um passo, outro passo, obrigações, mas sem um pensamento que fosse além de sair de casa e voltar para casa. O mundo podia ter…
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Czeslaw Milosz – A queda

A morte de um homem é como a queda de uma poderosa nação Que teve valentes exércitos, capitães e profetas, E ricos portos e barcos em todos os mares, Mas agora não socorrerá nenhuma cidade sitiada, Não entrará em nenhuma aliança, Porque suas cidades estão vazias, sua população dispersa, Sua terra que certa vez proveu…