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Luis Alberto de Cuenca – O Sagrado

A maquiagem é suspeita, sempre.Tu, recém-saída da cama,sem nada além do teu gloriosocorpo desgastado pelas decepçõese pelos desenganos, mas eretocomo uma árvore ao vento da vidaque arrasta tudo pela frente:essa é minha religião, a únicavisão do sagrado que conheço. Trad.: Nelson Santander Mais do que uma leitura, uma experiência. Clique, compre e contribua para manter…
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Adelaide Ivánova – sobre uma foto no huffington post, em 01 de novembro de 2015

de que adianta esse pôster de madonna na parede da cozinha indicando de qual lado estou se na papua nova guiné continuam linchando mulheres a quem chamam de bruxa a papua pode até ser guiné mas nisso não tem nada de nova e se for para queimar uma mulher por bruxaria que queimem logo todas…
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Ian Hamilton – Os quarenta

“O eu que sobreviveu àqueles anos desprezíveis”,Sua “virtude austera” incrivelmente preservada. Pois bem,Terá se perguntado, isto éO “é isso”?; esta Vida resumidaQue nunca pensei encontrarE nunca procurei: que começa no meioDe tal modo que no fimO dano perdura mais do que a reparação? Aos quarenta e cincoAgora sou o patriarca da casa e ao entardecerVocê…
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Eugénio de Andrade – Sou fiel ao ardor…

Sou fiel ao ardor, amo esta espécie de verão que de longe me vem morrer às mãos, e juro que ao fazer da palavra morada do silêncio não há outra razão.
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Joan Margarit – Vida Social

Idealizavas esta solidãopara ouvir música ou ler,e caminhar no inverno junto ao mar.Mas a solidão é uma chuvaque suja as janelas deste trem dos anos.A solidão é a palavra crueldo acre ressentimento familiar.É a lei do acaso, um labirinto injusto.É não ter dinheiro, é ter medo.É o sexo, uma estranha pista falsaque conduz ao mais…
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Manuel António Pina – A avó

Tinha ao colo o gato velho cansadamente passando a sua branca mão pelo pelo dele preto e brando Sentada ao pé da janela olhando a rua ou sonhando-a todo o passado passando a passos lentos por ela Dormiam ambos enquanto a tarde se ia acabando o gato dormindo por fora a avó dormindo por dentro
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Gregory Corso – Tenho 25

Com um amor louco por Shelley Chatterton Rimbaud e o ganido carente de minha juventude passou de orelha a orelha: EU ODEIO OS VELHOS POETAS! Especialmente velhos poetas que se retratam que consultam outros velhos poetas que falam de suas juventudes em sussurros, dizendo: – Eu fiz mas isso é passado isso é passado…
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Armando Silva Carvalho – Struggle for life

Cheguei há muito à idade filosófica, Secaram-me os sonetos na tão nervosa pena dos sentidos. As aves lânguidas e longas do desejo – Que não eram lânguidas Nem longas – Voaram dos meus sonhos para nunca mais. Houve quem ouvisse os seus gritos românticos, Seguisse o seu devaneio em círculos voláteis, Em versos de dez…
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Oscar Wilde – Da vaidade

“Por que você chora?”, perguntaram as Oreiades. “Choro por Narciso”. “Ah, não nos espanta que você chore por Narciso”, continuaram elas. “Afinal de contas, todas nós sempre corremos atrás dele pelo bosque, você era o único que tinha a oportunidade de contemplar de perto sua beleza”. “Mas Narciso era belo?”, quis saber o lago. “Quem…
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André Oviedo – Caixa-Preta

em algum lugar depois do fim flutuando entre os destroços encontraremos a caixa-preta e poderemos finalmente restituir o passado palavra por palavra como chaves perdidas no tempo a reabrirem as portas que nos trouxeram até aqui