Armando Silva Carvalho – Struggle for life

Cheguei há muito à idade filosófica,
Secaram-me os sonetos na tão nervosa pena dos sentidos.
As aves lânguidas e longas do desejo
– Que não eram lânguidas
Nem longas –
Voaram dos meus sonhos para nunca mais.

Houve quem ouvisse os seus gritos românticos,
Seguisse o seu devaneio em círculos voláteis,
Em versos de dez sílabas, em rimas comedidas,
Em rigor panfletário.
Du Heine de deuxième qualité, seguindo o bom-tom
Da época.

Mas isso era num céu do sentimento,
Ousado, sensual, arrebatado.
E eu tinha um coração flamante, um peito erguido
Aos hinos, uma boca eloquente às odes
Às quais por impulso eu chamaria
Modernas.

Tomara para mim todos os astros.
Entrevira a inclinação da bússola do espírito,
Num vasto, inacabado arco erguido
Sobre a luta no mundo pela sobrevivência,
Vida que devora vida, leis naturais e cruéis,
Visões epicuristas, geladas pela razão.

Concedeu-me a Natureza o dom da prosa
E os versos obedecem-lhe.
Se escrevesse a Storck uma vez mais
Talvez lhe acrescentasse estas sextilhas,
Um pouco aborrecidas, mas fieis à minha natureza
Que recusa ficar-se pela Natureza.

Inocentes passos de criança invadiram-me a alma
E nem eu sei dizer se o choro é meu
Ou vem duma catástrofe.
As lágrimas que penso são do possível santo
Ante a aurora dum mundo
De Beleza, de Amor, Justiça e Universo.

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