Nelson Santander – Impermanência

Se há algo mais fascinante do que locais abandonados, desconheço. Toda vez que, em viagem, me deparo com uma casa desabitada há muito tempo, uma estação de trem em desuso ou o esqueleto do que um dia foi uma fábrica, acabo perdendo (ganhando) algum tempo na contemplação do local, tentando adivinhar quem nele pisou, morou ou trabalhou, por quanto tempo aquele espaço perdurou, que dramas humanos ali se desenrolaram.

Tudo nesses recantos em decomposição é desconcertante e belo.

As imagens que ilustram essa postagem1 demonstram o que quero dizer. A devastação preside, mas não é difícil, com um pouco de imaginação, encontrar detalhes que surpreendem pela beleza, pelo inusitado, pelo poético.

Um velho piano que um dia encantou o mundo com acordes de Chopin, Beethoven, Mozart e que já não emite mais um único som há décadas; a igreja decrépita da qual nem Deus mais se lembra; uma estátua decapitada que jamais será uma Vênus de Milo; a piscina seca que hoje não serve de diversão nem mesmo para rãs; um bar no qual apenas velhos fantasmas trocam amenidades e bebem seus uísques cowboy, sem nunca ficarem bêbados; o cinema que outrora exibiu a queda do império romano, longa jornada noite adentro e nunca fomos tão felizes e que agora assiste impassível o próprio the end; trilhos retos e escadas espiraladas que não levam a lugar nenhum; construções sendo devoradas pela vegetação que escala as paredes como labaredas verdes; a cama de casal que testemunhou um amor indomável como o fogo tornar-se fumaça e gelo e cinzas enfim (o que não tem fim sempre acaba assim, diria Humerto Gessinger).

Mas para muito além de tudo isso, esses lugares nos fazem lembrar principalmente de que madeira, ferro, pano, papel, pedra, gente, tudo, absolutamente tudo se transforma, e encontra a decadência e se converte em pó e acaba. Só uma coisa permanece: a impermanência. Que tudo o que começa não se presta para existir, mas para terminar.

Tenham todos um ótimo final de semana! Ou algo parecido.

(postado originalmente na página pessoal do autor no Facebook)

  1. As imagens foram retiradas da internet. ↩︎

Delmore Schwartz – Calmamente caminhamos neste dia de abril

Calmamente caminhamos neste dia de abril,
Poesia urbana por todo lado,
No parque sentam-se indigentes e usurários,
As crianças gritando, o carro
Em fuga que passa correndo por nós,
Entre o trabalhador e o milionário
Os números expressam as distâncias,
Estamos em mil novecentos e trinta e sete agora,
Muitos camaradas foram levados para longe,
O que será de você e de mim
(Esta é a escola em que aprendemos…)
Além da foto e da lembrança?
(…que o tempo é o fogo em que nos queimamos.)

(Esta é a escola em que aprendemos…)
O que é o eu no meio deste incêndio?
O que sou eu agora que fui então?
Que devo sofrer e fazer novamente,
A teodiceia que escrevi em meus tempos de colégio
Restaurou toda a vida desde a infância,
As crianças gritando resplandecem enquanto correm
(Esta é a escola em que elas aprendem…)
Inteiramente arrebatadas em seu brincar passageiro!
(…que o tempo é o fogo em que nos queimamos.)

Ávida em sua urgência, essa chama vacilante!
Onde estão meu pai e Eleanor?
Não onde eles estão agora, mortos há sete anos,
Mas o que eles eram então?
               Não mais? Não mais?
De mil novecentos e quatorze até o presente,
Bert Spira e Rhoda consomem, consomem
Não onde estão eles agora (onde eles estão agora?)
Mas o que eles eram então, ambos belos;

Cada minuto explode no quarto em chamas,
O grande globo se contorce sob o fogo solar,
Consumindo o único e o trivial.
(Como todas as coisas pulsam! Como todas as coisas brilham!)
O que sou eu agora que fui então?
Que a memória restaure de novo e de novo
A mínima cor do menor dos dias:
O Tempo é a escola em que aprendemos,
O Tempo é o fogo em que nos queimamos.

Trad.: Nelson Santander

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Calmly we walk through this April’s day

Calmly we walk through this April’s day,
Metropolitan poetry here and there,
In the park sit pauper and rentier,
The screaming children, the motor-car
Fugitive about us, running away,
Between the worker and the millionaire
Number provides all distances,
It is Nineteen Thirty-Seven now,
Many great dears are taken away,
What will become of you and me
(This is the school in which we learn …)
Besides the photo and the memory?
(… that time is the fire in which we burn.)

(This is the school in which we learn …)
What is the self amid this blaze?
What am I now that I was then
Which I shall suffer and act again,
The theodicy I wrote in my high school days
Restored all life from infancy,
The children shouting are bright as they run
(This is the school in which they learn …)
Ravished entirely in their passing play!
(… that time is the fire in which they burn.)

Avid its rush, that reeling blaze!
Where is my father and Eleanor?
Not where are they now, dead seven years,
But what they were then?
               No more? No more?
From Nineteen-Fourteen to the present day,
Bert Spira and Rhoda consume, consume
Not where they are now (where are they now?)
But what they were then, both beautiful;

Each minute bursts in the burning room,
The great globe reels in the solar fire,
Spinning the trivial and unique away.
(How all things flash! How all things flare!)
What am I now that I was then?
May memory restore again and again
The smallest color of the smallest day:
Time is the school in which we learn,
Time is the fire in which we burn.

José Miguel Silva – Morangos Silvestres – Ingmar Bergman (1957)

Um ser humano é um combinado de egoísmo,
sofrimento e necessidade. Não comove ninguém.
Uma pedra não comove ninguém. A beleza
é um acidente banal e pressupõe a morte;
muitas vezes se rodeia de sandice, e se nos fala,
chega a ser assustador. A inteligência, refrescante
como um duche, sabe bem, no Estio; mas agora,
que é Inverno toda a vida, que lugar atribuir
à inteligência? O de criada de servir nos aposentos
da ganância. Não comove, é evidente, ninguém.
A bondade, sim, comove. Mas é tão débil
e tão rara que ninguém a ouve. Não é fácil,
assim, encontrar algo que possamos amar. Eu
tenho procurado, eu juro que não sei o que fazer:
tudo me parece, até a música, produto de uma falha.
Vou por essas ruas ao acaso e não acerto a conhecer
quem me convença que bem outra poderia ser
a vida. Tudo se mostra sob espelhos deformantes,
tudo arde numa estranha aceitação. Francamente,
que alguém me demonstrasse que não tenho razão.

Eugénio de Andrade – De “As mãos e os frutos”

XIX

Terra: se um dia lhe tocares
o corpo adormecido,
põe folhas verdes onde pões silêncio,
sê leve para quem o foi contigo.

Dá-lhe o meu cabelo para sonho,
e deixa as minhas mãos para tecer
a mágoa infinita das raízes
que no seu corpo um dia hão-de beber

Joan Margarit – El Primer Frío

Acompanhei-te até o museu, no parque,
em uma manhã de inverno. Detivemo-nos
diante daquela escultura: El primer frío1.
Era de mármore cinzento: um velho, nu,
olha ao longe, entre as folhas mortas
que o vento carrega.
A arte não é diferente da vida,
lembro que disseste. Mas eu
via apenas um mármore frio,
um tanto retórico, e pensava em garotas.
Entre aquele dia e hoje, como um mar,
minha vida se expandiu.
E se aproximam, singrando este mar cinzento,
cascos negros de embarcações, minhas recordações.
Retorno ao museu nesta manhã de inverno
e estou pensando em ti ao cruzar o parque:
olho ao longe, entre as folhas mortas
que o vento carrega.

Trad.: Nelson Santander

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Joan Margarit – El Primer Frío

Te acompañé al museo, en el parque,
una invernal mañana. Nos paramos
ante aquella escultura: El primer frío.
Era de mármol gris: un viejo que, desnudo,
mira a lo lejos entre la hojarasca
que va arrastrando el viento.
El arte no es distinto de la vida,
recuerdo que dijiste. Pero yo
veía solamente un mármol frío,
más bien retórico, y pensaba en chicas.
Entre aquel día y hoy, igual que un mar,
se ha extendido mi vida.
Y se acercan, surcando este mar gris,
cascos negros de buques, mis recuerdos.
Vuelvo al museo esta invernal mañana
y voy pensando en ti al cruzar el parque:
miro a lo lejos entre la hojarasca
que va arrastrando el viento.

  1. Escultura em mármore branco de Miguel Blay i Fábregas (1892) (vide a foto que ilustra o poema), representando um homem idoso nu com uma jovem menina, interpretada como alegoria da passagem do tempo e da fragilidade da vida. Obra-prima da escultura catalã, exposta no Museu Nacional d’Art de Catalunya (Barcelona) e no Museu Nacional de Belas Artes (Buenos Aires). ↩︎

Manuel António Pina – Extrema-unção

Uma breve, amável mágoa à
flor dos olhos, um distante desapontamento,
morrias como se pedisses desculpa
por nos fazeres perder tempo.

Tinhas pressa mas não o mostravas,
receavas que não estivéssemos preparados,
e, suspenso sobre nós, esperavas
que disséssemos tudo, que fizéssemos o apropriado.

Morrer não é motivo de orgulho,
mas estavas cansado demais para te justificares.
Ainda por cima no mês de Julho,
com as férias marcadas, ausentes os familiares.

Tínhamos levado as crianças de casa,
feito os telefonemas, escolhido os dizeres.
O quarto fora arrumado, a cama mudada
com roupa lavada. Só faltava morreres.

             8/1/01

Ferreira Gullar – Notícia da Morte de Alberto da Silva

(Poema Dramático para Muitas Vozes)

          I

     Eis aqui o morto
     chegado a bom porto

     Eis aqui o morto
     como um rei deposto

     Eis aqui o morto
     com seu terno curto

     Eis aqui o morto
     com seu corpo duro

     Eis aqui o morto
     enfim no seguro

          II

De barba feita, cabelo penteado
jamais esteve tão bem arrumado

De camisa nova, gravata borboleta
parece até que vai para uma festa

No rosto calmo, um leve sorriso
nem parece aquele mais-morto-que-vivo

Imóvel e rijo assim como o vês
dir-se-ia que nunca esteve tão feliz

         III

Morava no Méier desde menino
Seu grande sonho era tocar violino

Fez o curso primário numa escola pública
quanto ao secundário resta muita dúvida

Aos treze anos já estava empregado
num escritório da rua do Senado

Quando o pai morreu criou os irmãos
Sempre foi um homem de bom coração

Começou contínuo e acabou funcionário
Sempre eficiente e cumpridor do horário

Gostou de Nezinha, de cabelos longos,
que um dia sumiu com um tal de Raimundo

Gostou de Esmeralda, uma de olhos pretos
Ela nunca soube desse amor secreto

Endoidou de fato por Laura Marlene
que dormiu com todos menos com ele

Casou com Luísa, que morava longe,
não tinha olhos pretos nem cabelos longos

Apesar de tudo, foi bom pai de família
sua casa tinha uma boa mobília

Conversava pouco mas foi bom marido
Comprou televisão e um rádio transístor

Não foi carinhoso com a mulher e a filha
mas deixou para elas um seguro de vida

Morreu de repente ao chegar em casa
ainda com o terno puído que usava

Não saiu notícia em jornal algum
Foi apenas a morte de um homem comum

E porque ninguém noticiou o fato
Fazemos aqui este breve relato

         IV

Não foi nada de mais, claro, o que aconteceu:
apenas um homem, igual aos outros, que morreu

Que nos importa agora se quando menino
O seu grande sonho foi tocar violino?

Que nos importa agora quando o vamos enterrar
se ele não teve sequer tempo de namorar?

Que nos importa agora quando tudo está findo
se um dia ele achou que o mar estava lindo?

Que nos importa agora se algum dia ele quis
Conhecer Nova York, Londres ou Paris?

Que nos importa agora se na mente confusa
ele às vezes pensava que a vida era injusta?

Agora está completo, já nada lhe falta:
nem Paris nem Londres nem os olhos de Esmeralda

          V

Mas é preciso dizer que ele foi como um fio
d’água que não chegou a ser rio

Refletiu no seu curso o laranjal dourado
sem que nada desse ouro lhe fosse dado

Refletiu na sua pele o céu azul de outubro
e as esplendentes ruínas do crepúsculo

E agora, quando se vai perder no mar imenso,
tudo isso, nele, virou rigidez e silêncio:

toda palavra dita, toda palavra ouvida
todo riso adiado ou esperança escondida

toda fúria guardada, todo gesto detido
o orgulho humilhado, o carinho contido

o violino sonhado, as nuvens, a espuma
das nebulosas, a bomba nuclear
     agora nele são coisa alguma

         VI

Mas no fim do relato é preciso dizer
que esse morto não teve tempo de viver

Na verdade vendeu-se, não como Fausto, ao Cão:
vendeu sua vida aos seus irmãos

Na verdade vendeu-a, não como Fausto, a prazo:
vendeu-a à vista, ou melhor, deu-a adiantado

Na verdade vendeu-a, não como Fausto, caro:
vendeu-a barato e, mais, não lhe pagaram

        VII

     Enfim este é o morto
     agora homem completo:
     só carne e esqueleto

     Enfim este é o morto
     totalmente presente:
     unha, cabelo, dente

     Enfim este é o morto:
     um anônimo brasileiro
     do Rio de Janeiro
     de quem nesta oportunidade
     damos notícia à cidade

Robert Penn Warren – Conta-me uma história

A

Há muito tempo, no Kentucky, eu, apenas um rapaz, estava
Em uma estrada de terra, ao anoitecer, e ouvi
A algaravia dos gansos que rumavam para o norte.

Não pude vê-los, pois não havia lua,
E escassos eram os astros. Eu os ouvi.

Não sabia o que se passava em meu coração.

Era a estação antes dos sabugueiros florescerem,
Por isso eles rumavam para o norte.

O som rumava para o norte.

B

Conta-me uma história.

Neste século e momento de insanidade,
Conta-me uma história.

Faz dela uma história sobre as grandes distâncias, e a luz das estrelas.
O nome da história será Tempo,
Mas não deves pronunciar tal nome.

Conta-me uma história de intenso contentamento.

Trad.: Nelson Santander

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Tell Me a Story

A

Long ago, in Kentucky, I, a boy, stood
By a dirt road, in first dark, and heard
The great geese hoot northward.

I could not see them, there being no moon
And the stars sparse. I heard them.

I did not know what was happening in my heart.

It was the season before the elderberry blooms,
Therefore they were going north.

The sound was passing northward.

B

Tell me a story.

In this century, and moment of mania,
Tell me a story.

Make it a story of great distances, and starlight.

The name of the story will be Time,
But you must not pronounce its name.

Tell me a story of deep delight.

William Ernest Henley – Invictus

No meio da noite que me abraça,
Negra como um Poço em sua inteireza,
Agradeço a cada Deus pela graça
De minha invencível natureza.

Nas terríveis garras das circunstâncias
Não recuei nem alteei meu pranto.
Debaixo dos golpes das contingências
Minha fronte sangra – altiva, no entanto.

Além deste lugar de desenganos,
Somente o Horror das sombras desponta,
E entretanto a ameaça dos anos
Deve me encontrar sem medo, e encontra.

Não importa se o portão é mofino,
Se a Lei é repleta de punição
Eu sou o condutor do meu destino
Eu sou de minha alma o capitão

Trad.: Nelson Santander

Invictus

Out of the night that covers me,
Black as the Pit from pole to pole,
I thank whatever gods may be
For my unconquerable soul.

In the fell clutch of circumstance
I have not winced nor cried aloud.
Under the bludgeonings of chance
My head is bloody, but unbowed.

Beyond this place of wrath and tears
Looms but the Horror of the shade,
And yet the menace of the years
Finds and shall find me unafraid.

It matters not how strait the gate,
How charged with punishments the scroll
I am the master of my fate:
I am the captain of my soul.

Ángel González – O amanhã é um mar profundo que precisamos atravessar a nado

Queria ser alga, alga enredada
na parte suave de tuas coxas.
Sopro de brisa nas tuas bochechas.
Leve areia sob tua pegada.

Queria ser água, água salgada
quando corres nua no litoral.
Sol cortando em sombra tua banal
Silhueta virgem recém-molhada.

Tudo quisera ser, indefinido,
ao teu redor: vista, luz, ambiente
gaivota, céu, navio, vela, vento…

A concha que aproximas ao ouvido,
para poder unir, timidamente,
com o rumor do mar, meu sentimento.

Trad.: Nelson Santander

Mañana es un mar hondo que hay que cruzar a nado

Alga quisiera ser, alga enredada,
en lo más suave de tu pantorrilla.
Soplo de brisa contra tu mejilla.
Arena leve bajo tu pisada.

Agua quisiera ser, agua salada
cuando corres desnuda hacia la orilla.
Sol recortando en sombra tu sencilla
silueta virgen de recién bañada.

Todo quisiera ser, indefinido,
en torno a ti: paisaje, luz, ambiente,
gaviota, cielo, nave, vela, viento…

Caracola que acercas a tu oído,
para poder reunir, tímidamente,
con el rumor del mar, mi sentimiento.