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Eugénio de Andrade – O sal da língua

Escuta, escuta: tenho ainda uma coisa a dizer. Não é importante, eu sei, não vai salvar o mundo, não mudará a vida de ninguém – mas quem é hoje capaz de salvar o mundo ou apenas mudar o sentido da vida de alguém? Escuta-me, não te demoro. É coisa pouca, como a chuvinha que vem…
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Joan Margarit – No álbum

És tu antes de partir,quando ainda vivias em casa.O olhar brilhante que nos recompensava.Teu nome foi ficando para trás,na foto de onde ainda nos sorriscomo se tudo fosse para sempree nada tivesse acontecido em outro lugar,nem no sorriso que hoje desconhecemos,longe do que teu rosto exibe neste álbum.Este sorriso, agora, é só para nós:convive com…
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Manuel António Pina – As Coisas

Há em todas as coisas uma mais-que-coisa fitando-nos como se dissesse: “Sou eu”, algo que já lá não está ou se perdeu antes da coisa, e essa perda é que é a coisa. Em certas tardes altas, absolutas, quando o mundo por fim nos recebe como se também nós fôssemos mundo, a nossa própria ausência…
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Páladas – da Antologia Palatina, 10.45

Caso te lembres, humano, de como o teu pai ao gerá-lo te semeou, cessarás com toda tua arrogância. Só que Platão sonhador te implantou ilusões de grandeza, ao te chamar de imortal, planta provinda do céu. Vindo do barro, por que pensas grande? Por essa maneira, age somente quem quer dar-se aparência solene. Eis a…
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Maria Mercedes Carranza – Kavafiana

O desejo aparece de repente,em qualquer sítio, a propósito de nada.Na cozinha, caminhando pela rua.Basta um olhar, um aceno, um roçar.Mas dois corpostêm também o seu amanhecer e o seu acaso,a sua rotina de amor e de sonhos,de gestos sabidos até ao cansaço.Dispersam-se os risos, deformam-se.Há cinzas nas bocase o íntimo desdém.Dois corpos têm a…
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Amalia Bautista – A pesagem do coração

Que ninguém por tua culpa tenha passado fome,tenha sentido medo ou frio.Que ninguém tenha deixado de viver por tua culpa,nem temido a morte, nem desejado morrer.Que nenhuma pessoa tenha dito o teu nome com pavorou olhado o teu rosto com desprezo.Que os outros te chorem quando partires.Assim o teu coração não terá guardado o chumboque…
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Jules Laforgue – Penúltima palavra

O Espaço? – A vida Ida Sem traço. O amor? – Seu preço: Desprezo E dor. O sonho? – Infindo, É lindo (Suponho). Que vou Fazer Do ser Que sou? Isto, Aquilo, Aqui, Ali. Trad.: Augusto de Campos Avant-dernier mot L’Espace? – Mon Coeur Y meurt Sans traces… La Femme? – J’en sors, La…
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Tristan Corbière – Epitáfio

Epitáfio Salvo os amorosos principiantes ou findos que querem principiar pelo fim há tantas coisas que findam pelo princípio que o princípio principia a findar por estar no fim o fim disso é que os amorosos e outros findarão por principiar a reprincipiar por esse princípio que terá findo por não ser mais que o…
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Ivan Junqueira – O tempo que me resta

Qual o tempo que me resta? Poderei medi-lo em pétalas de alguma flor que fenece, a última da sua espécie? Poderei fazê-lo em décimos de um segundo que parece durar mais do que uma década ou quem sabe todo um século? O que é o tempo? Uma névoa que na ampulheta escorrega, ou algo que…
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Jack Kerouac – Richmond Hill Tree Poem

Amontoadas, amarelas folhas de novembro De uma distinta árvore nua e envergonhadamente castrada fazem um minúsculo e manso PLICK ao se roçar umas nas outras preparando-se para morrer – Quando vejo uma folha cair Eu sempre digo adeus. Richmond Hill Tree Poem A cluster of yellow November leaves in an otherwise bare and sheepish castrated…