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Ivan Junqueira – O que sabemos

É quase nada o que sabemos de nós, do que somos, do frêmito que nos empurra, débeis duendes, à cena ambígua da existência. De onde viemos? Para onde vamos? Quem nos moldou à sua esplêndida imagem, se a mão não lhe vemos? Será mesmo que o fez, consciente do risco que estava correndo, da imperdoável…
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Goethe – Aos leitores amigos

Poetas não podem calar-se, Querem às turbas mostrar-se. Há-de haver louvores, censuras! Quem vai confessar-se em prosa? Mas abrimo-nos sub rosa No calmo bosque das Musas. Quanto errei, quanto vivi, Quanto aspirei e sofri, Só flores num ramo – aí estão; E a velhice e a juventude, E o erro e a virtude Ficam bem…
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Margaret Atwood – O momento

O momento em que, depois de muitos anos de trabalho duro e de uma longa jornada, encontras-te no centro do teu quarto, casa, meio acre, milha quadrada, ilha, país, sabendo por fim como lá chegaste, e dizes: tudo isso me pertence, é o mesmo momento em que as árvores desatam seus braços macios ao teu…
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Michael Krüger – À primeira vista

Na verdade, nada mudou: o castanheiro diante da casa, martirizado pela hera, as ameixeiras sobre o seu tapete azul, o doce perfume da infância e da decadência. Do vale, rugem os caminhões, e a sombra se apressa em redor da casa em sentido anti-horário, perscrutando a dor. Até o poço ainda está lá como um…
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Ferreira Gullar – Thereza

Sem apelo no vórtice do dia no abandono do chão na lâmina da luz feroz fora da vida desfaz-se agora a minha doída desavinda companheira
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Eugénio de Andrade – Canção Breve

Tudo me prende à terra onde me dei: o rio subitamente adolescente, a luz tropeçando nas esquinas, as areias onde ardi impaciente. Tudo me prende do mesmo triste amor que há em saber que a vida pouco dura, e nela ponho a esperança ou o calor de uns dedos com restos de ternura. Dizem que…
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Joan Margarit – De repente está claro

De repente está claro. O amor é a vitória que irá me destruir. Como me gangrena o coração a solidão, como me destroça nas janelas do crepúsculo a hiena desolada e exangue. Na era rubra só o amor nos livra da gélida gruta do tempo. Conheci a glória de estar desesperado e a miséria do…
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Manuel António Pina – As escadas

Toma, este é o meu corpo, o que sobe as escadas em direção à tua escuridão, deixando-me, ou a alguma coisa menos tangível, no seu lugar. Também elas envelheceram, as escadas, também, como eu, desabitadas. Anoiteceu, ao longe afastam-se passos, provavelmente os meus, e, à nossa volta, os nossos corpos desvanecem-se como terras estrangeiras.
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Francisco Brines – Deitado

Chove, e amo. Pulsam, em alongada sombra, duas sombras vivas, sondam o nada, e nele se alimentam. São farrapos de luz, e à sua luz se veem olhos, músculos, cabelos, enquanto a sombra se extingue em mais sombra, e o repouso nos lençóis das fúrias do corpo é a gratidão de quem há de morrer,…
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Jaime Gil de Biedma – Valsa de Aniversário

Não há nada tão doce como um quarto para dois (quando já não nos amamos tanto) fora da cidade, em um hotel tranquilo, e casais duvidosos e alguma criança com caxumba, não fosse esta ligeira sensação de irrealidade. Algo como o verão na casa de meus pais, há tempos, como viajar de trem à noite.…