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Francisco Brines – Métodos de conhecimento

No cansaço da noite, penetrando a mais sombria canção, recobrei por trás de meus olhos cegos o frágil testemunho de uma cena remota. Recendia o mar, e a aurora era a ladra dos céus; tornava fantasmagóricas as luzes da casa. Os comensais eram jovens, e fartos e sem sede, no naufrágio do banquete, buscavam a…
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João Cabral de Melo Neto – Uma faca só lâmina

Assim como uma balaenterrada no corpo,fazendo mais espessoum dos lados do morto; assim como uma balado chumbo pesado,no músculo de um homempesando-o mais de um lado qual bala que tivesseum vivo mecanismo,bala que possuísseum coração ativo igual ao de um relógiosubmerso em algum corpo,ao de um relógio vivoe também revoltoso, relógio que tivesseo gume de…
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António Ramos Rosa – O jardim

Consideremos o jardim, mundo de pequenas coisas, calhaus, pétalas, folhas, dedos, línguas, sementes. Sequências de convergências e divergências, ordem e dispersões, transparência de estruturas, pausas de areia e de água, fábulas minúsculas. Geometria que respira errante e ritmada, varandas verdes, direções de primavera, ramos em que se regressa ao espaço azul, curvas vagarosas, pulsações de…
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Hans Magnus Enzensberger – Anúncio de pedra

Perdem-se o cabelo, os nervos, vocês entendem, o tempo precioso, perde-se altura no posto perdido, brilho, sinto muito, não faz mal, por pontos, não me interrompam, perde-se sangue, pai e mãe, o coração perdido de Heidelberg, sem pestanejar perdem-se, de novo, os encantos da novidade, passe-se um esponja, os direitos civis, oh sim, a cabeça,…
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Wislawa Szymborska – Visto do alto

Um besouro morto num caminho campestre. Três pares de perninhas dobradas sobre o ventre. Ao invés da desordem da morte – ordem e limpeza. O horror da cena é moderado, o âmbito estritamente local, da tiririca à menta. A tristeza não se transmite. O céu está azul. Para nosso sossego, os animais não falecem, morrem…
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José Paulo Paes – Dúvida

Não há nada mais triste do que um cão em guarda ao cadáver do seu dono. Eu não tenho cão. Será que ainda estou vivo? data da última gravação: 8/10/98, 17h09 Na “Apresentação” de Socráticas – obra da qual foi extraído o poema acima – Alfredo Bosi esclarece: As Socráticas, publicadas postumamente, soam como um…
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Ferreira Gullar – Lições de um gato siamês

Só agora sei que existe a eternidade: é a duração finita da minha precariedade O tempo fora de mim é relativo mas não o tempo vivo: esse é eterno porque afetivo — dura eternamente enquanto vivo E como não vivo além do que vivo não é tempo relativo: dura em si mesmo eterno (e transitivo)
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Joan Margarit – Piscina

Não temia a água, mas a ti,era teu medo o que eu temia,e o lugar mais profundo,em que não se veem os azulejos do fundo.Arrastaste-me até lá, lembro aindaa força de teus braços obrigando-me,enquanto tentava abraçar-me a ti.Não aprendi a nadar até muito tempo depois,e esqueci tuas tentativas de ensinar-me.Agora que já nunca voltarás a…
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Manuel António Pina – Carta a Mário Cesariny no dia da sua morte

Hoje soube-se uma coisa extraordinária, que morreste. Talvez já to tenham dito, embora o caso verdadeiramente não te diga respeito, e seja assunto nosso, vivo. Algo, de fato, deve ter acontecido porque nada acontece, a não ser o costume, amor e estrume; quanto ao resto tudo prossegue de acordo com o Plano. Há apenas agora…
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Paulo Henriques Britto – O aqualouco

A verdadeira diferençasó se sente depois do frio.Antes é só um salto, um mergulho imprudente,como se eternidade fosse água gelada,como se o nada não fosse mais que um rio. Depois somem as palavras fáceis(“eternidade” etc.; v. acima),fica só o fundamental:o vômito, o medo, o adeus,a vontade de assassinar todos os recém-nascidosdo Egito, como se alguém…