Helen Dunmore – O caule da minha vida foi cortado

O caule da minha vida foi cortado,
Mas rápida e amorosamente
Fui erguida,
Ouvi o fluir da torneira
E fui posta na água,
No vaso azul, belo
Em bordas e curvas,
E eis-me aqui,
Desabrochando uma pétala
À medida que o chá esfria.
Espero enquanto o sol se move
E as abelhas findam sua dança,
Sei que estou morrendo,
Mas por que não seguir florescendo
Enquanto eu puder
Do meu caule cortado?

Trad.: Nelson Santander

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My life’s stem was cut

My life’s stem was cut,
But quickly, lovingly
I was lifted up,
I heard the rush of the tap
And I was set in water
In the blue vase, beautiful
In lip and curve,
And here I am
Opening one petal
As the tea cools.
I wait while the sun moves
And the bees finish their dancing,
I know I am dying
But why not keep flowering
As long as I can
From my cut stem?

Miller Williams – Poema de amor com torrada

Parte do que fazemos, fazemos
para que as coisas aconteçam,
o despertador para nos acordar, o café para coar,
o carro para dar partida.

O resto do que fazemos, fazemos
tentando impedir que algo aconteça,
a pele de envelhecer, a enxada de enferrujar,
a verdade de vir à tona.

Com o sim e o não como polos de uma bateria
impulsionando nossa travessia pelos dias,
seguimos em frente, como gostamos de dizer,
querendo ser queridos,
querendo que a floresta tropical não desapareça,
querendo que a água ferva,
querendo não ter câncer,
querendo chegar em casa antes de escurecer,
querendo não ficar sem gasolina,

como cada um de nós quer o outro
velando no final,
como ambos querem não deixar o outro sozinho,
como querendo amar para além desta carne e osso,
nos olhamos sobre o café da manhã e fingimos.
Trad.: Nelson Santander

REPUBLICAÇÃO: poema originalmente publicado na página em 28/09/2020




Love Poem With Toast

Some of what we do, we do
to make things happen,
the alarm to wake us up, the coffee to perc,
the car to start.

The rest of what we do, we do
trying to keep something from doing something
the skin from aging, the hoe from rusting,
the truth from getting out.

With yes and no like the poles of a battery
powering our passage through the days,
we move, as we call it, forward,
wanting to be wanted,
wanting not to lose the rain forest,
wanting the water to boil,
wanting not to have cancer,
wanting to be home by dark,
wanting not to run out of gas,

as each of us wants the other
watching at the end,
as both want not to leave the other alone,
as wanting to love beyond this meat and bone,
we gaze across breakfast and pretend.

Sam Illingworth – Quando desapareceram os manguezais

Nas profundezas das dunas,
raízes fossilizadas sussurram
áureas lembranças
de lagoas esmeraldas.
Quando mares safira
lambiam ternamente
pés emaranhados,
banhando caules submersos
na maré crescente
de seu abraço salobro.

Dragados ao lado
de tesouros enterrados,
reflexos escuros se agitam.
Feridas expostas que cantam
sua traição –
águas lodacentas e movediças
sufocando com
solos secos e estéreis.

Até que suas ondas
quebraram silenciosamente
nas areias mortas
e escaldantes.

Trad.: Nelson Santander

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When the Mangroves Disappeared

Deep beneath the dunes
fossilised roots whisper
golden memories
of emerald lagoons.
When sapphire seas
lapped tenderly
at knotted feet,
bathing sunken stems
with the tidal surge
of their brackish embrace.

Dredged up alongside
buried treasures,
dark reflections stir.
Open wounds that sing
of their betrayal –
silted, shifting waters
suffocating with
dry and barren soils.

Until their waves
broke in silence
upon the dead
and burning sands.

Jane Hirshfield – Um destino algodoado

Há muito tempo, alguém
me disse: evite o ou.

Isso aflige a mente
como um pedaço de carne estendido perturba um cão.

Agora eu também tenho sessenta.
Não havia outra vida.

Trad.: Nelson Santander

REPUBLICAÇÃO: poema originalmente publicado na página em 26/09/2020

A Cottony Fate

Long ago, someone
told me: avoid or.

It troubles the mind
as a held-out piece of meat disturbs a dog.

Now I too am sixty.
There was no other life.