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Denise Levertov – Naquele dia

Do outro lado de um lago na Suíça, cinquenta anos atrás, a luz duelava com uma longa lança, esgrimindo com sabres de um lado para o outro entre picos nublados e colinas. Observávamos de um pequeno pavilhão, minha mãe e eu, fascinadas. E então, eis que um feixe, uma coluna, um corpo definido, não de…
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Richard Eberhart – A marmota

Em junho, entre os campos dourados, Avistei uma marmota morta. Morta ela estava; meu juízo se abalou, E a mente projetou a nossa fragilidade nua. Lá embaixo, humilde no vigoroso verão, Sua forma iniciou sua mudança sem sentido, E fez oscilar meus sentidos para o sombrio Vendo a natureza feroz que nela havia. Inspecionando de…
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Jane Hirshfield – Dentro desta árvore

Dentro desta árvore outra árvore habita o mesmo tronco; dentro desta pedra outra pedra descansa, com muitos tons de cinza iguais, com superfície e peso idênticos. E dentro do meu corpo, outro corpo, cuja história, à espera, canta; não há outro corpo, ela canta, não há outro mundo. Trad.: Nelson Santander Within this tree Within…
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Gonçalo M. Tavares – Sobre o mundo

O telescópio não alcança sequer a tua alma; Imprecisão exata de um instrumento instintivo. Mas repara: não há instrumentos instintivos ou máquinas espontâneas. Dois terços do amor estão na mulher, qualquer que seja o casal. As evidências abrem falência em todas as áreas; com o machado homens robustos inventam ciências viris. Indispensáveis, de facto: ciências…
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Alberto Szpunberg – De “Sol de noche”

XIV Embora já saibas que nada volta, volta para casa, aceita a pequena mentira como um lapso antes que o inverno te surpreenda sob uma árvore de ramos despojados: aqui termina o bosque, o que cresceu em teus sonhos antes mesmo de tuas mãos roçarem os troncos: a pradaria que se estende perante teus olhos…
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Ana Martins Marques – [Pense em quantos anos foram necessários para chegarmos a este ano]
![Ana Martins Marques – [Pense em quantos anos foram necessários para chegarmos a este ano]](https://singularidadepoetica.art/wp-content/uploads/2020/04/black-and-wite-beach-low-tide.jpg)
Pense em quantos anos foram necessários para chegarmos a este ano quantas cidades para chegarmos a esta cidade e quantas mães, todas mortas, até tua mãe quantas línguas até que a língua fosse esta e quantos verões até precisamente este verão este em que nos encontramos neste sítio exato à beira de um mar rigorosamente…
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Marie Howe – Meus amigos mortos

Comecei, quando estou cansada e não consigo decidir a resposta que devo dar a uma pergunta desconcertante, a pedir a opinião dos meus amigos mortos e frequentemente a resposta é imediata e clara. Devo aceitar o emprego? Mudar-me para a cidade? Devo tentar conceber um filho em minha meia idade? Em uníssono, eles balançam suas…
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Emily Dickinson – Poema 1.222

O Enigma decifrado Despreza-se com pressa — A Surpresa de Ontem Já não nos interessa — Trad.: Augusto de Campos Poem 1.222 The Riddle we can guess We speedily despise — Not anything is stale so long As Yesterday’s surprise —
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Robert Bly – Pessoas como nós

Pessoas como nós para James Wright Há mais como nós. Em toda parte Há pessoas confusas, que não conseguem lembrar O nome do próprio cão quando acordam, e pessoas Que amam a Deus mas não se lembram onde Ele estava quando foram dormir. Não Tem problema. O mundo se purifica desta forma. Um número errado…
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Juan Vicente Piqueras – Taças de sede

Se duvidas de tua sede, se não te atreves a questiona-la ou a dar-lhe um nome, se só sabes que buscas uma água que a sacie e não achas senão poços, e neles ecos que te chamam, bebe. Se ao beber a sede desaparece é que era só sede. Segue buscando. Mas se cresce em…