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Thiago de Mello – O Morto

Qual a verdade que o mortoconheceu, além dos muros,e lhe fez cerrar os lábiosestrangulando a palavraporventura essencial?Enfim livre da cegueira,que paisagem contemploupara que o rosto lhe turvetão rude ruga de mágoa?Soube talvez que melhorfora mostrar-se de todo:desvelar inteira a face,seus amores e seus ódios,e não (de medo) exilar-seno recôncavo do sonho,onde fundava universosem que só…
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Gwendolyn MacEwen – Fogos de artifício

“Fogos de Artifício”, um poema de Gwendolyn MacEwen que celebra a memória de uma amiga escritora através da metáfora de um jardim transplantado e da imagem explosiva e transformadora dos fogos no céu noturno.
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Giórgos Seféris – Existe

Existe, pelos deuses cruéis predestinada,uma dor universal,e cada um de nós dela pega a sua parte,quanto aguente levar. Julgamos insensatosos que, carregando pressurosamente nos ombrosmais do que podiam carregar,aliviam assim a carga comum:os heróis, os mártires, os criminosos. Rogo-lhes que nos perdoem.Recordamos. Trad.: José Paulo Paes REPUBLICAÇÃO: poema originalmente publicado na página em 22/02/2016
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Samuel Yellen – Como em uma marca d’água

“Como em uma Marca D’água”, um poema de Samuel Yellen sobre a arqueologia do cotidiano, onde camadas do tempo revelam e ocultam fragmentos de vidas passadas, como hieróglifos sob a superfície do presente.
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Angela Leite de Souza – Do Lado de Cá Dessas Rosas

Nem percebi quando me cobriramcom esta colcha rosa de rosasamorosamente.Dormia meu novo sonosem tranquilizantes, sem relógios:estou serena e não há pressa em acordar.Ser apenas, estar.Não me roem mais tristezas nem desejos,lateja leve leve uma saudade.Meu corpo vai não sendo, sou feliz.Livre do dever de viver e de burlara mortecompreendo: um é o avesso da outra,sua sombra,…
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Mariana Spada – Bratislava

“Bratislava”, um poema de Mariana Spada em que uma jornada de trem se transforma em uma meditação íntima sobre o tempo e a transitoriedade, revelando a beleza efêmera do presente e os emaranhados do passado.
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Carlos Drummond de Andrade – Os Rostos Imóveis

Pai morto, namorada morta.Tia morta, irmão nascido morto.Primos mortos, amigo mortoAvô morto, mãe morta(mãos brancas, retrato sempre inclinado na parede, grão de poeira nos olhos).Conhecidos mortos, professora morta. Inimigo morto.Noiva morta, amigas mortas.Chefe de trem morto, passageiro morto.Irreconhecível corpo morto: sera homem ou bicho!Cão morto, passarinho morto.Roseira morta, laranjeiras mortas.Ar morto, enseada morta.Esperança, paciência, olhos, sono,…
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Alison C. Rollins – A Biblioteca de Babel

“A Biblioteca de Babel”, um poema de Alison C. Rollins sobre a interconexão entre o efêmero e o infinito, onde o ato de escrever se torna uma tentativa de capturar o imensurável, e o olhar cego de um poeta busca perceber o mundo através da voz do outro.
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Carlos Drummond de Andrade – Noturno Oprimido

A água cai na caixa com uma força, com uma dor! A casa não dorme, estupefata. Os móveis continuam prisioneiros de sua matéria pobre, mas a água parte-se a água protesta. Ela molha toda noite com sua queixa feroz, seu alarido. E sobre nossos corpos se avoluma o lago negro de não sei que infusão.…
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Jules Supervielle – A ponta da chama

“A Ponta da Chama,” um poema de Jules Supervielle em que a busca pela prova da própria existência se desenha no gesto de tocar a luz, enquanto a morte traz um silêncio que resguarda esse mistério.
