-
Sahar Romani – Tarde na Andaluzia

E por que a geometria não seria igual à divindade 1000 + 1 + 1 + 1 O que é a fé senão a confiança no uno & infinito Uma vez em Granada observei um muro de polígonos ou eram estrelas ou abelhas ou por um segundo um fulgor de gladíolos em um campo até…
-
Paulo Henriques Britto – De “Três Epifanias Triviais”

As coisas que te cercam, até ondealcança tua vista, tão passivasem sua opacidade, que te impedemde enxergar o (inexistente) horizonte,que justamente por não serem vivasse prestam para tudo, e nunca pedem nem mesmo uma migalha de atenção,essas coisas que você usa e esqueceassim que larga na primeira mesa —pois bem: elas vão ficar. Você, não.Tudo que…
-
Ellen Bass – A dor de deus

Grande paique deve ter começadocom tantas expectativas.Que magnitude de sofrimento,imensidão de culpa,desconcertante desespero.Uma mente do tamanho do sol,ardendo em nostalgia,um coração enorme como o de uma baleia-cinzentarompendo, fluindona água do mar contra o céu claro.Deus homem ou deus animal,deus que respira em cada folha plissada,saco vocal de sapo, penugem e raque —deus do plutônio e…
-
Carlos Drummond de Andrade – Fragilidade

Este verso, apenas um arabescoem torno do elemento essencial – inatingível.Fogem nuvens de verão, passam aves, navios, ondas,e teu rosto é quase um espelho onde brinca o incerto movimento,ai! já brincou, e tudo se fez imóvel, quantidades e quantidadesde sono se depositam sobre a terra esfacelada.Não mais o desejo de explicar, e múltiplas palavras em…
-
Sean Thomas Dougherty – Por que se importar?

Por que se importar?Porque agora há alguémlá fora com um machucado no formato exato de suas palavras. Trad.: Nelson Santander Mais do que uma leitura, uma experiência. Clique, compre e contribua para manter a poesia viva em nosso blog Why Bother? Because right now, there is someone out there with a wound in the…
-
Carlos Drummond de Andrade – Ontem

Até hoje perplexoante o que murchoue não eram pétalas. De como este banconão reteve forma,cor ou lembrança. Nem esta árvorebalança o galhoque balançava. Tudo foi brevee definitivo.Eis está gravado não no ar, em mim,que por minha vez,escrevo, dissipo. REPUBLICAÇÃO: poema publicado no blog originalmente em 12/11/2016
-
Steve Scafidi – Para o último búfalo americano

Porque as palavras fascinam sob a luz vertiginosa das coisase a alma é como um animal – caçada e lenta –este búfalo passeia por mim todas as noites como se eu fossealgum tipo de pradaria e se agacha contra a escuridão fria,bufando sob as estrelas enquanto a névoa de sua respiraçãoeleva-se no ar, e é…
-
Carlos Drummond de Andrade – Viagem na Família

A Rodrigo M.F. de Andrade No deserto de Itabiraa sombra de meu paitomou-me pela mão.Tanto tempo perdido.Porém nada dizia.Não era dia nem noite.Suspiro? Voo de pássaro?Porém nada dizia. Longamente caminhamos.Aqui havia uma casa.A montanha era maior.Tantos mortos amontoados,o tempo roendo os mortos.E nas casas em ruína,desprezo frio, umidade.Porém nada dizia. A rua que atravessavaa cavalo,…
-
Ada Limón – Viaduto

A estrada não era tão perigosa na época,quando eu caminhava até a mureta de aço,inclinava meu corpo flexível de menina, e contemplavaa água fria do riacho. Em uma úmida nascente,a água que corria clara e alta, peixinhospetiscando areia e lodo, um caranguejoensombrado pelos altos juncos das margens.Eu podia olhar durante horas, algo sempre novo em…
-
Carlos Drummond de Andrade – A Noite Dissolve os Homens

A noite desceu. Que noite!Já não enxergo meus irmãos.E nem tão pouco os rumoresque outrora me perturbavam.A noite desceu. Nas casas,nas ruas onde se combate,nos campos desfalecidos,a noite espalhou o medoe a total incompreensão.A noite caiu. Tremenda,sem esperança… Os suspirosacusam a presença negraque paralisa os guerreiros.E o amor não abre caminhona noite. A noite é…