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Linda Pastan – Chegamos ao silêncio

Chegamos ao silêncio lentamente. Tragados para o mundoem uma onda de somdele saímos mais tarde com as bocas fechadas,nossas línguas tornadas pesadas como pedras para nos ancorarna terra. Agora ouvimoso vento nas folhas farfalhantes,um burburinho de águasobre as pedras,a batalha musicaldos pássaros.Considere a orelhaem forma de clave de fá,mas vazia.Considere os espaços entre as estrelas,solilóquios…
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Vinicius de Moraes – O poeta Hart Crane suicida-se no mar

Quando mergulhaste na águaNão sentiste como é friaComo é fria assim na noiteComo é fria, como é fria?E ao teu medo que por certoTe acordou da nostalgia(Essa incrível nostalgiaDos que vivem no deserto…)Que te disse a Poesia? Que te disse a PoesiaQuando Vênus que luziaNo céu tão perto (tão longeDa tua melancolia…)Brilhou na tua agoniaDe…
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Faith Shearin – Cinzas, cinzas

O inverno é a morte pela qual todos temos esperado.Mesmo nas Festas, em que o ano novo é louvado,os galhos se quebram sob o peso da neve.Conhecemos esta estação como reconheceremos o fimde nossas vidas quando a vida estiver na metade.Os anos seguem o caminho dos dentes da infância: premidos tãoesperançosamente sob travesseiros limpos. Pele…
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Abel Silva – Navegações

Minha casa está calma,eu é que sou turbulento,o país navega, dizem,eu é que me arrebentoeu é que sempre inventotoda esta ventaniaeu é que não me contentocom o rumo da romaria não sei se a sorte é cegaou eu que vivo a teimar:sei que eu sou o barcoo marinheiroe o mar. REPUBLICAÇÃO: poema publicado no blog…
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Juan Vicente Piqueras – O barbeiro

Nos últimos meses, olhava-se no espelhoe via um intruso. Irritava-se com ele. Já estás aqui outra vez? Será possível?Sai daqui agora mesmo.Para a rua, vagabundo, dizia-lhe. Era-lhe doloroso, era-nos doloroso,toda vez que ele tinha que ir ao banheiro.Tínhamos que conduzi-lo pelo braço, convence-lodo porquê. Ele se tornou o dono desse lugar, dizia,quem lhe deu as…
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Philip Larkin – A Igreja Indo-se…

Quando estou certo de que nada está ocorrendo,Eu entro, e se ouve um baque quando eu solto a porta.Mais uma igreja: bancos, panos, pedra, além dosLivrinhos; as juncadas secas, que se cortamPara o domingo; bronze e objetos a cobrir oAltar; um órgão impecável e pequeno;Silêncio tenso, de bolor, que salta à vista,Há muito fermentado. Sem…
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Suzanne Buffam – Basta

Estou usando óculos escuros dentro de casaPara combinar com meu baixo astral. Eu deixei todo o açúcar de fora da torta.Minha raiva é uma espécie de raiva doméstica. Aprendi com minha mãeQue aprendeu com a mãe dela antes dela E assim por diante.Certamente os gregos tinham uma palavra para isso. E hoje com certeza os…
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T. S. Eliot – Os Homens Ocos

“A penny for the Old Guy” (Um pêni para o Velho Guy) INós somos os homens ocosOs homens empalhadosUns nos outros amparadosO elmo cheio de nada. Ai de nós!Nossas vozes dessecadas,Quando juntos sussurramos,São quietas e inexpressasComo o vento na relva secaOu pés de ratos sobre cacosEm nossa adega evaporada Forma sem forma, sombra sem corForça paralisada,…
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Gregory Fraser – Depois do fogo

Ouvi dizer que você está indo para a Itália, ele disse1. Você ouviu corretamente, ela respondeu.Você finalmente conseguiu, disse ele, estou feliz por você. Estou feliz por mim mesma, ela falou.Uma sonata de Scarlatti jorrou através das amplas portas francesase um brinde foi feito aos anfitriões, que disseram ter sidoinspirados pelos espíritos para dar aquele…
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Carlos Drummond de Andrade – A Luis Mauricio, Infante

Acorda, Luís Mauricio. Vou te mostrar o mundo,se é que não preferes vê-lo de teu reino profundo. Despertando, Luís Mauricio, não chores mais que um tiquinho.Se as crianças da América choram em coro, que seria, digamos, do teu vizinho? Que seria de ti, Luís Mauricio, pranteando mais que o necessário?Os olhos se inflamam depressa, e…