William Butler Yeats – Um aviador irlandês prevê a morte

Encontrarei meu fim no meio
das nuvens de algum céu sobejo;
os que combato, eu não odeio,
também não amo os que protejo;
Kiltartan Cross é meu país,
seus pobres são a minha gente,
nada a fará mais infeliz
do que já era, ou mais contente.
Não é por lei ou por dever,
turba ou políticos, que luto,
mas pelo afã de me entreter,
a sós, nas nuvens em tumulto.
Tudo na mente foi pesado:
nada que espere ou que recorde
vale-me a pena comparado
com esta vida ou esta morte.

Trad.: Nelson Ascher

An Irish airman foresees his death

I know that I shall meet my fate
Somewhere among the clouds above;
Those that I fight I do not hate
Those that I guard I do not love;
My country is Kiltartan Cross,
My countrymen Kiltartan’s poor,
No likely end could bring them loss
Or leave them happier than before.
Nor law, nor duty bade me fight,
Nor public man, nor cheering crowds,
A lonely impulse of delight
Drove to this tumult in the clouds;
I balanced all, brought all to mind,
The years to come seemed waste of breath,
A waste of breath the years behind
In balance with this life, this death.

William Butler Yeats – “No Second Troy” em duas traduções (+ revisão do poema)

Nenhuma Troia a mais – Trad.: Augusto de Campos

Por que culpá-la se ela encheu meus dias
De mágoa, ou se incitou às tropelias
Os ignorantes e jogou com vidas,
Pondo as vielas contra as avenidas,
Quando eles tinham ousadia e flama?
Como fugir a essa pulsão funesta
Que a nobreza fez simples como a chama?
Beleza como um arco tenso, raça
Estranha a uma era como esta,
E cruel, de tão alta e singular?
Que poderia ela contra a graça?
Que Troia a mais teria que incendiar?

 

Sem Segunda Troia – Trad.: Nelson Ascher

Devo culpá-la, pois tanto pesar
trouxe-me aos dias, ou porque ensinava
violência à gente rude e quis lançar
contra os grandes a plebe cuja raiva,
porém, não tinha muito de ousadia?
Por que amaria a paz se, de nobreza,
seu pensamento simplesmente ardia,
se, feito um arco teso, sua beleza,
de um tipo hoje incomum, era severa,
altiva e só? – Mas que outro desafogo
podia ela encontrar, sendo quem era,
sem mais nenhuma Troia em que por fogo?

Introdução a “No Second Troy”

Resumo:

O relacionamento de William Butler Yeats com a bela e desafiadora irlandesa Maud Gonne é uma das grandes histórias de amor da literatura do século 20. Ele era um poeta fechado e com tendências conservadoras; ela era uma atriz de espírito livre que não queria nada menos que uma revolução para o seu país. Talvez ele devesse conhecê-la melhor, mas ei!, isso é amor.

Yeats publicou “No Second Troy”, em 1916, na coletânea “Responsibilities and Other Poems”, depois dele haver pedido Gonne em casamento – e ser rejeitado – inúmeras vezes. (Ei, você tem que admirar sua persistência). Após persegui-la por mais de uma década e de ter dedicado muitos de seus poemas a ela, parece justo afirmar que Yeats era obcecado por ela.

Neste poema, no entanto, Yeats adota uma atitude um tanto severa com ela, como ao compará-la com a terrivelmente bela – e notoriamente maliciosa – Helena de Troia. Helena é uma personagem mitológica da Ilíada de Homero. Como Maud Gonne, Helena foi considerada uma das mais belas mulheres de seu tempo. Ela também foi, em parte, responsável por iniciar a Guerra de Tróia, o que acabou fazendo com que a grande cidade de Troia fosse incendiada. Muitas lendas a retratam como uma sonhadora que trocou seu marido Menelau por Páris, o belo mas covarde príncipe de Troia. Marido furioso + Exércitos Numerosos = Guerra de Tróia.

Ao comparar Maud Gonne com Helena de Troia, Yeats a está acusando de ser parcialmente responsável pela violência de uma Irlanda revolucionária, assim como Helena foi parcialmente responsável pela Guerra de Tróia. De acordo com “No Second Troy,” Maud “incitou às tropelias os ignorantes.”

Gonne sempre foi mais inflamada do que Yeats, e aprovava os esforços revolucionários mais radicais e violentos para garantir a independência da Irlanda da Grã-Bretanha, nas primeiras décadas do século 20. Em 1916, seu marido, John MacBride, participou da violenta “Revolta de Páscoa” contra os britânicos. Na esteira do levante, MacBride e muitos outros foram executados. Yeats não acreditava em rebeliões violentas, e posteriormente escreveu um de seus mais famosos e dolorosos poemas, “Páscoa 1916,” em que declarou: “A terrível beleza nasceu”.

Ok, basta de história. Tudo isso é apenas para dizer que Gonne foi uma presença inflamável na vida de Yeats, e suas emoções conflitantes sobre ela refletem-se neste brilhante poema. É um desastre fascinante, tudo bem, mas no seu estilo característico, Yeats consegue comprimir toda a sua paixão em um curto e controlado espaço. A terrível beleza, de fato.

Por que eu deveria me importar?

Ninguém gosta de histórias de amor simples. Duas pessoas se encontram, se apaixonam, se casam… blablablá. Que tédio. Precisamos de um pouco mais de complicação. Mais drama. Além disso, muitas histórias de amor não têm um final feliz.

O amor de W. B. Yeats por Maud Gonne é uma dessas histórias de amor não correspondido. A história em si já é fascinante o suficiente (em um dado momento, Yeats teria proposto casamento à filha de Gonne e de novo foi rejeitado!), mas quando você a mistura com política revolucionária, estamos como que diante de um jogo eletrizante. Amor e política é sempre uma combinação irresistível, seja entre Helena e Páris, Antonio e Cleópatra, Romeu e Julieta, ou Rick e Ilsa, em Casablanca.

“No Second Troy” expressa aquele momento de um atormentado caso de amor quando o amante não correspondido, farto de todos os jogos e manobras feitas por baixo do pano, finalmente descarrega todas as suas emoções em um rompante brutal de honestidade. Você quer saber o que eu realmente penso de você? Prepare-se … Você não pode fazer nada, mas observa tudo com a respiração suspensa.

O que Yeats realmente pensava de Gonne – pelo menos por volta de 1916, quando escreveu este poema – é que ela era uma mulher corajosa e devastadoramente bela. Ela também era uma amante cruel e uma ativista descaradamente irresponsável. Ela usava sua beleza e seus elevados ideais para convencer as pessoas menos nobres e inteligentes a fazer coisas que Yeats considerava muito imprudentes – como, por exemplo, se opor à força dos poderes das colônias britânicas. O amor de Yeats por Gonne e seu amor por seu país colidem de forma dramática, confundindo-o. No final, o seu amor de irlandês e sua não-violência ganharam o dia, e ele esteve perto de condenar Gonne através da comparação contundente com Helena de Troia.
Embora a luta pela independência na Irlanda possa ter acabado, nós suspeitamos que histórias de amor como aquela que inspirou este poema continuarão a ocorrer no contexto dos conflitos políticos de todo o mundo. Venha para a aula de história, fique para as censuras amargas de um amor atormentado. (in: https://www.shmoop.com/no-second-troy-yeats/ )

No second Troy

Why should I blame her that she filled my days
With misery, or that she would of late
Have taught to ignorant men most violent ways,
Or hurled the little streets upon the great,
Had they but courage equal to desire?
What could have made her peaceful with a mind
That nobleness made simple as a fire,
With beauty like a tightened bow, a kind
That is not natural in an age like this,
Being high and solitary and most stern?
Why, what could she have done being what she is?
Was there another Troy for her to burn?

William Butler Yeats – Morte

Um bicho à morte ignora
ânsia e temor; contudo
um homem, quando é hora,
anseia e teme tudo;
morreu vezes sem conta
e ergueu-se redivivo.
Um grande homem confronta
gente homicida, altivo,
escarnecendo o corte
do alento. Convivera
com a morte a vida inteira:
o homem criou a morte.

Trad.: Nelson Ascher

William Butler Yeats – Bizâncio

As imagens febris do dia se desfazem;
Os guardas imperiais, bêbados, jazem;
Noite sem som, sombras noctívagas se alongam
Da catedral e do seu gongo;
À luz de estrela ou lua um domo desmerece
Tudo o que é humanidade,
Mera complexidade
As veias, fúria e lama, em toda humana espécie.

Diante de mim a imagem, homem ou fantasma,
Mais sombra que homem, mais imagem que fantasma:
Pois a bobina de Hades, múmia desatada,
Solta as curvas da estrada;
Boca sem hausto, boca ressequida,
Chama boca sem som;
Eu louvo o sobre-humano;
Eu o nomeio vida-em-morte ou morte-em-vida.

Milagre, artesanato de ouro ou ave,
Mais milagre que artesanato ou ave,
Plantado em ramo de ouro halo- estrelado,
Canta alto, como os galos de Hades,
Ou pela luz amargurado infama,
Em metal esplendor,
Ave comum ou flor,
Complexidades naturais de sangue e lama.

À meia-noite o chão do Imperador se inflama.
Chamas que ninguém viu nascer, flamas sem chama,
Que a água não calma, chamas que se chamam
Às sangue-natas almas clamam.
Da fúria e da complexidade elas se alteiam
E morrem dessa dança,
Nesse transe em que as lança
A agonia das chamas que nunca incendeiam.

No dorso de um golfinho em sangue e lama,
Alma após alma! Irrompem na onda em flama,
Forjas do Imperador – o seu tesouro!
Mármores dançam no chão de ouro
E às fúrias da complexidade vêm domar,
Essas imagens que eram,
E outras imagens geram,
Golfinho-roto, gongo-amargurado mar.

Trad.: Augusto de Campos

William Butler Yeats – O Prazer do Difícil

O prazer do difícil tem secado
A seiva em minhas veias. A alegria
Espontânea se foi. O fogo esfria
No coração. Algo mantém cerceado
Meu potro, como se o divino passo
Já não lembrasse o Olimpo, a asa, o espaço,
Sob o chicote, trêmulo, prostrado,
E carregasse pedras. Diabos levem
As peças de sucesso que se escrevem
Com cinqüenta montagens e cenários,
O mundo de patifes e de otários
E a guerra cotidiana com seu gado,
Afazer de teatro, afã de gente.
Juro que antes que a aurora se apresente
Eu descubro a cancela e abro o cadeado.

Trad.: Augusto de Campos

William Butler Yeats – Quando Estiveres Grisalha e com Sono…

Quando estiveres grisalha e com sono,
Dormitando ante o fogo, lê meu livro
Bem lentamente e lembra o sensitivo
Olhar que tinhas de suave abandono.

Muitos amaram tuas alegrias,
Tua beleza; mas só num culmina
O amor por tua alma peregrina
E a mágoa que teu rosto pressentia.

Reclina-te ante as chamas; e ao vê-las
Lamentes, triste Amor – que te deixou
Pelos montes mais altos que encontrou
E o rosto disfarçou entre as estrelas.

Trad. Jorge Wanderley

William Butler Yeats – A Segunda Vinda

Girando em círculos sempre maiores
Já não ouve o falcão ao falcoeiro;
Tudo desaba; o próprio centro hesita;
Livre, a anarquia reina sobre o mundo,
Livre a maré sanguinolenta: em tudo
Se afogam os rituais da inocência;
Os melhores vacilam e os piores
À intensidade passional se entregam.

Na certa algo de novo se anuncia,
Eis que a Segunda Vinda se anuncia,
A Segunda Vinda! E eu nem bem falara
E enorme imagem do Spiritus Mundi
Perturbou-me a vista: em algum deserto
Uma forma entre homem e leão,
De olhar vazio e cruel como o sol
Move as coxas lentas, enquanto em torno
Vacilam as sombras de irados pássaros.
Retorna a escuridão; mas eu já sei
Que vinte séculos de sono pétreo
Ao pesadelo os embala este berço;
E que bicho rude, chegada a hora,
Rasteja até Belém para nascer?

Trad.: Jorge Wanderley

William Butler Yeats – Quando Velha e Grisalha…

Quando velha e grisalha e exausta, ao fim do dia,
tu cabeceares junto ao fogo, vem folhear
lentamente este livro, e lembra o doce olhar
e as sombras densas que nos olhos teus havia.

Quantos, com falsidade ou devoção sincera,
amaram-te a beleza e graça de menina!
Um só, porém, amou tua alma peregrina,
e amou as dores desse rosto que se altera.

E junto às brasas, inclinando-se sobre elas,
murmura, um pouco triste, como o amor distante
passou por cima das montanhas adiante,
e escondeu sua face entre um milhão de estrelas.

Trad.: de Paulo Vizioli

William Butler Yeats – Viajando para Bizâncio

Aquela não é terra para velhos. Gente
jovem, de braços dados, pássaros nas ramas
gerações de mortais cantando alegremente,
salmão no salto, atum no mar, brilho de escamas,
peixe, ave ou carne glorificam ao sol quente
tudo o que nasce e morre, sêmen ou semente.
Ao som da música sensual, o mundo esquece
as obras do intelecto que nunca envelhece.

Um homem velho é apenas uma ninharia,
trapos numa bengala à espera do final,
a menos que a alma aplauda, cante e ainda ria
sobre os farrapos do seu hábito mortal;
nem há escola de canto, ali, que não estude
monumentos de sua própria magnitude.
Por isso eu vim, vencendo as ondas e a distância, em busca da cidade santa de Bizâncio.

Ó sábios, junto a Deus, sob o fogo sagrado,
como se num mosaico de ouro a resplender,
vinde do fogo santo, em giro espiralado,
e vos tornai mestres-cantores do meu ser .
Rompei meu coração, que a febre faz doente
e, acorrentado a um mísero animal morrente,
já não sabe o que é; arrancai-me da idade
para o lavor sem fim da longa eternidade.

Livre da natureza não hei de assumir
conformação de coisa alguma natural,
mas a que o ourives grego soube urdir
de ouro forjado e esmalte de ouro em tramas,
para acordar do ócio o sono imperial;
ou cantarei aos nobres de Bizâncio e às damas,
pousado em ramo de ouro, como um pássa-
ro, o que passou e passará e sempre passa.

Trad.: Augusto de Campos