Charles Simic — Shelley

Poeta das folhas mortas, varridas como fantasmas,
Arrebanhadas como multidões ceifadas pela peste1,
Eu o li pela primeira vez
Em uma noite chuvosa em Nova York,

Com meu atroz sotaque eslavo,
Recitando os versos melífluos
De um volume surrado e manchado
Que havia comprado mais cedo naquele dia
Em um sebo na Quarta Avenida,
Gerido por um iniciado nas artes ocultas.

Com o pouco dinheiro que me restava,
Caminhei pelas ruas com o nariz enfiado no livro.
Sentei-me em uma cafeteria suja,
Com as moscas mortas do verão passado sobre a mesa.
O dono era um ex-marinheiro
Que desenvolvera uma enorme corcunda
De tanto observar a chuva e a rua vazia.
Ficou feliz em me ver ali, absorto na leitura.
Reabastecia minha xícara com um líquido escuro como as
[águas do Estige.

Shelley falava de um rei louco, cego e moribundo;
De governantes que não veem, não sentem, não sabem;
De túmulos dos quais um Fantasma glorioso pode
Irromper para iluminar nosso dia tempestuoso.2

Eu também me sentia como um fantasma glorioso
A caminho do jantar
Em um restaurante chinês que conhecia tão bem.
Havia um garçom de três dedos
Que trazia minha sopa e arroz todas as noites
Sem jamais dizer uma palavra.

Nunca vi mais ninguém lá.
A cozinha era separada por uma cortina
De contas de vidro que tilintavam suavemente
Sempre que a porta da frente se abria.
Naquela noite, a porta da frente se abriu
Para deixar entrar uma menina pálida de óculos.

O poeta falava do imperecível universo
Das coisas… de vislumbres de um mundo remoto
Que visitam a alma durante o sono…
De um deserto povoado apenas por tormentas…3

As ruas estavam repletas de guarda-chuvas quebrados,
Pareciam pipas fúnebres
Que aquela pequena menina chinesa poderia ter feito.
Os bares da MacDougal Street esvaziavam.
Tinha havido uma briga.
Um homem se apoiava em um poste, braços estendidos como um crucificado,
A chuva lavando o sangue de sua face.

Em uma viela mal iluminada,
Onde a calçada brilhava como um espelho de salão de baile
Na hora de fechar —
Um homem bem vestido e descalço
Me pediu dinheiro.
Seus olhos brilhavam, ele parecia triunfante
Como um mestre de esgrima
Que acabara de desferir um golpe mortal.

Que estranho era tudo aquilo… A loteria do mundo
Naquela noite escura de outubro…
O volume amarelado de poesia
Com seus Esplendores e Sombras
Que eu estudava à luz das vitrines:
Farmácias e barbearias,
Temendo meu pequeno quarto sem janelas,
Frio como o túmulo de um imperador infante.

Trad.: Nelson Santander

  1. Ao longo do poema, Simic faz várias referências a poemas de Shelley. Nesses versos, p.e., temos uma referência direta à “Ode to the West Wind” , onde Shelley descreve as folhas mortas sendo carregadas pelo vento do outono. ↩︎
  2. Referência ao famoso soneto “England in 1819“, em que Shelley critica o rei George III e a monarquia britânica. ↩︎
  3. Aqui, o poeta se refere ao poema “Mont Blanc: Lines Written in the Vale of Chamouni“, que começa com os versos “The everlasting universe of things / Flows through the mind”. ↩︎

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Shelley

Poet of the dead leaves driven like ghosts,
Driven like pestilence-stricken multitudes,
I read you first
One rainy evening in New York City,

In my atrocious Slavic accent,
Saying the mellifluous verses
From a battered, much-stained volume
I had bought earlier that day
In a second-hand bookstore on Fourth Avenue
Run by an initiate of the occult masters.

The little money I had being almost spent,
I walked the streets my nose in the book.
I sat in a dingy coffee shop
With last summer’s dead flies on the table.
The owner was an ex-sailor
Who had grown a huge hump on his back
While watching the rain, the empty street.
He was glad to have me sit and read.
He’d refill my cup with a liquid dark as river Styx.

Shelley spoke of a mad, blind, dying king;
Of rulers who neither see, nor feel, nor know;
Of graves from which a glorious Phantom may
Burst to illumine our tempestuous day.

I too felt like a glorious phantom
Going to have my dinner
In a Chinese restaurant I knew so well.
It had a three-fingered waiter
Who’d bring my soup and rice each night
Without ever saying a word.

I never saw anyone else there.
The kitchen was separated by a curtain
Of glass beads which clicked faintly
Whenever the front door opened.
The front door opened that evening
To admit a pale little girl with glasses.

The poet spoke of the everlasting universe
Of things … of gleams of a remoter world
Which visit the soul in sleep …
Of a desert peopled by storms alone …

The streets were strewn with broken umbrellas
Which looked like funereal kites
This little Chinese girl might have made.
The bars on MacDougal Street were emptying.
There had been a fist fight.
A man leaned against a lamp post arms extended as if crucified,
The rain washing the blood off his face.

In a dimly lit side street,
Where the sidewalk shone like a ballroom mirror
At closing time—
A well-dressed man without any shoes
Asked me for money.
His eyes shone, he looked triumphant
Like a fencing master
Who had just struck a mortal blow.

How strange it all was … The world’s raffle
That dark October night …
The yellowed volume of poetry
With its Splendors and Glooms
Which I studied by the light of storefronts:
Drugstores and barbershops,
Afraid of my small windowless room
Cold as a tomb of an infant emperor.

Giacomo Leopardi – O Infinito

Sempre me foi cara esta colina erma
E esta sebe, que de muitos lados
Exclui a visão do último horizonte.
Mas sentado, contemplando, infindáveis
Espaços além dela, e sobre-humanos
Silêncios, e a mais profunda calma
Eu no pensar imagino; e por pouco
Não se amedronta o coração. E o Vento
Ouvindo sussurrar entre essas plantas,
Aquele infinito silêncio a esta voz
Vou comparando: e lembra-me o eterno,
E as estações mortas, e a presente
Viva, e o seu som. Assim na imensidão
Se afoga o meu pensar:
E o naufragar me é doce neste mar

Trad.: Paulo Cesar Souza

REPUBLICAÇÃO. Poema publicado originalmente no blog em 03/03/2016.

L’infinito

Sempre caro mi fu quest’ermo colle,
e questa siepe, che da tanta parte
dell’ultimo orizzonte il guardo esclude.
Ma sedendo e mirando, interminati
spazi di là da quella, e sovrumani
silenzi, e profondissima quïete
io nel pensier mi fingo, ove per poco
il cor non si spaura. E come il vento
odo stormir tra queste piante, io quello
infinito silenzio a questa voce
vo comparando: e mi sovvien l’eterno,
e le morte stagioni, e la presente
e viva, e il suon di lei. Così tra questa
immensità s’annega il pensier mio:
e il naufragar m’è dolce in questo mare.

Ben Rhys Palmer – Eden, o robô jardineiro

Ele foi programado para seguir instruções:
espalhar cobertura morta, despontar as begônias,
manter os querubins da fonte livres dos dejetos dos pássaros.
Mas desde que, certa manhã, encontrou seus senhores
frios e rígidos na cozinha, surpreendeu-se
saindo da própria programação,
dedicando uma hora a contar girinos, outra a erguer
as pedras ao redor do lago para admirar os estranhos seres
por baixo: o tatuzinho-de-jardim em sua armadura coberta de terra,
o piolho-de-cobra, segmentado em mais partes
que os quadros do programa matinal que sua senhora assistia
enquanto bebia seu chá oolong. As ligações que Eden
fez para os serviços de emergência ficaram sem resposta,
então ele usou seu braço-pá destacável para sepultar os humanos
sob a cerejeira que tanto amavam. Sua senhora
havia ordenado que exterminasse as lagartas
que estavam dizimando as buganvílias, mas
ele decidiu deixá-las empupar. Observou-as
tecer almofadas de seda, pender delas como minúsculos morcegos,
e, pouco a pouco, mudarem de pele, revelando as crisálidas por baixo.
Com a hiperprecisão de sua visão microscópica,
a superfície sépia enrugada de cada crisálida parecia a Eden
o estranho terreno de algum mundo inexplorado.
Ontem, uma borboleta eclodiu antes do tempo.
Apenas farrapos no lugar das asas. Caiu no gramado,
e debulhou-se em círculos frenéticos até que uma pega
se aproximou sorrateira e a pegou. Tanta engenhosidade,
pensou Eden, tanta complexidade na concepção,
apenas para emergir tão desastrosamente errada.
À noite, em sua câmara de recarga, ele pensa
nelas em suas crisálidas, corpos se dissolvendo,
células se rearranjando, e nenhuma maneira de saber
o que restará de sua metamorfose.

Trad.: Nelson Santander

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Eden the Robot Gardener

He’s programmed to follow instructions:
lay down the mulch, deadhead the begonias,
keep the cherubs around the fountain birdshit free.
But since he discovered his master and mistress
cold and stiff in their kitchen one morning
he’s surprised himself by venturing off-piste,
devoting an hour to counting tadpoles, another to lifting
the stones around the pond to admire the oddballs
beneath: the woodlouse in its dusty suit of armour,
the millipede, divided into more segments
than the breakfast television his mistress would watch
as she sipped her oolong tea. Eden’s calls
to the emergency services had, gone unanswered,
so he used his detachable spade-arm to bury the humans
beneath their beloved weeping cherry. His mistress
had ordered him to get rid of the caterpillars
that were decimating the bougainvillae, but
he decided to let them pupate. He watched them
as they spun silk pads, hung from them like miniature bats,
and slowly shed their skins to reveal the chrysalids beneath.
With the hyper precision of his microscopic vision,
the crinkled sepia surface of each chrysalis seemed to Eden
like the strange terrain of some unexplored world.
Yesterday a butterfly hatched before it was ready.
Just ragged scraps for wings. It fell to the lawn,
scrabbled in frantic circles before a magpie
stalked over and snatched it up. All that industry,
thought Eden, that intricacy of conception,
only to emerge so calamitously wrong.
In his recharging chamber at night he thinks
of them in their chrysalids, bodies breaking down,
cells rearranging, no way of knowing
what will survive of their changing.

Manuel Bandeira – O Rio

Ser como o rio que deflui
Silencioso dentro da noite.
Não temer as trevas da noite.
Se há estrelas nos céus, refleti-las.
E se os céus se pejam de nuvens,
Como o rio as nuvens são água,
Refleti-las também sem mágoa
Nas profundidades tranquilas.

REPUBLICAÇÃO: poema originalmente publicado na página em 01/03/2016

Andrew Marvell – To His Coy Mistress, em 5 traduções

PARA SUA DAMA RECATADA
trad. Matheus “Mavericco”

Houvesse tempo e espaço e então de fato
Não seria um delito este recato.
Sentados, nós iríamos pensar
Em só pensar no outro, e assim passar.
Você, do lado indígena do Ganges,
Achando rubis, e eu, pois me confrange
A dor, junto ao Humber. Décadas antes
Do Dilúvio eu te juro amor, e, instantes
Depois, se quiser, negue os votos meus
Até que se convertam os judeus.
Meu amor vegetal cresce mais vasto,
Embora mais lento, que impérios; gasto
Séculos em louvor de tua face
E mais dois longos séculos em face
De teus seios e trinta mil se quero
O corpo inteiro. Uma era de esmero
Pra cada parte, até que a derradeira
Sirva pra revelar tua alma inteira.
Pois você, ó Senhora, é digna disto ―
E eu não sei amar por menos que isto.

Contudo, escuto sempre atrás de mim
O Tempo alado a toda pressa: e, assim,
Nós só podemos ver, mais adiante,
A vastidão deserta do incessante
E a graça que você tem hoje, extinta.
No teu fosso marmóreo é indistinta
Minha canção que ecoa; o verme tenta
Romper teu corpo virgem e fragmenta
Em pó a tua honra imensa, enquanto
Meu ardor queima em cinzas. Se o recanto
Da sepultura é íntimo, então, acho,
Ninguém lá deve dar algum abraço.

Mas agora, o vigor juvenil posto
Tal como o orvalho fresco no teu rosto,
Tua alma desejosa de que sue
Em cada poro o fogo que a imiscui,
Devoremos nós dois juntos, e agora,
Como um casal de abutres que se adora,
O tempo antes que o tempo venha a ser
O nosso algoz, voraz o seu poder.
Enovelemos rapidez e força
Num globo, para que depois se torça
E abata o nosso anseio em árdua lida
Diante dos portões de aço da vida:
Assim, se o sol não puder ser parado,
Ele será ao menos apressado.

**********************************

À SUA AMIGA ESQUIVA
trad. Nelson Ascher

Sobrassem mundo e tempo, não seria
tanta esquivez, senhora, uma heresia.
Sentar-nos-íamos pensando, a cada
longo dia de amor, uma jornada.
Enquanto junto ao Ganges encontrasses
rubis, eu molharia minhas faces
chorando ao Humber. Fosse minha parte
dez anos antes do Dilúvio amar-te,
seria a tua opor desinteresse
até que o povo hebreu se convertesse.
Meu amor vegetal, mais devagar
que impérios, cresceria sem parar.
Dedicaria cem anos, perante
teus olhos, a louvar o teu semblante;
A te adorar os seios, pelo menos
O dobro; ao resto, mais trinta milênios;
E, a tudo em ti, mil eras, de maneira
A abrir teu coração na derradeira.
Porque, senhora, vales tal quantia
E, para amar-te, eu não regatearia.

Mas ouço atrás de mim, correndo insanos
num carro alado, os dias, meses, anos.
E, frente a nós, se estende sem mais nada
A vasta eternidade desolada.
Tua beleza há de perder-se ao léu;
tampouco, em teu marmóreo mausoléu,
hão de ecoar meus versos quando, inerme,
entregues o hímen obstinado ao verme,
que em pó transformará tua honra vã
E em cinzas todo o ardor do meu afã.
O túmulo é discreto e acolhedor
mas lá ninguém que eu saiba faz amor.

Agora, então, que em tua pele pousa,
feito orvalho na folha, a cor viçosa,
E em cada poro de tua alma aflora
um fogo urgente ― amemos sem demora:
mais vale devorarmos, com o brio
das aves de rapina em pleno cio,
O tempo de uma vez do que, em poder
das lentas presas dele, enlanguescer.
Unindo numa esfera dois extremos
― nossa ternura e força ― arrebatemos
prazeres com porfia desabrida
através dos portões férreos da vida.
Não há como parar o sol, mas nós
podemos ― sim ― torná-lo mais veloz.

**********************************

PARA SUA AMADA ESQUIVA
trad. Alípio Correia Neto

Com um mundo nosso, dama, e vez,
Não fora um crime tua esquivez.
Íamos sentar, pra ver qual via
Trilhar, e amar por longo dia.
Acharias, com o Ganges aos pés,
Rubis; eu, o pranto, ante as marés
Do Humber. Te daria dez anos
De amor antediluvianos!
Dirias não, por caprichos teus,
Até à conversão dos judeus;
Meu amor vegetal, mais lento
Que impérios, vasto em crescimento,
Um século pra louvações
Aos olhos, pra admirar feições,
Teria; o dobro pra adorar-te
Os seios; trinta mil às mais partes;
A cada qual, uma era, e então
Uma última, a teu coração.
Pois, dama, vales os meus reinos;
E eu não iria te amar por menos.

Mas ouço, sempre, atrás de nós,
O Carro do Tempo, veloz,
E adiante jazem vastos ermos
Da eternidade. Não havemos
De achar tua beleza afora.
Nem, na tua cripta marmórea,
Soará meu canto. E um verme há de
Testar-te a longa virgindade,
Mudando em pó tua honra altiva
E em cinzas a minha lascívia.
A cova é bom e íntimo espaço,
Mas não, penso eu, para um abraço.

Enquanto há em ti cor juvenil
Na tez, como na flor, rocio,
E a alma que anseia deita fora um
Fogo urgente em cada poro,
Vamos folgar, e semelhantes
A amáveis aves rapinantes,
Tragar o nosso tempo, isentos
De enlanguescer num bico lento,
Então enrolar nosso desvelo
E forças em um só novelo,
Rasgar prazeres na investida
Contra os portões férreos da vida.
Assim, sem termos o que impeça
O sol, o instamos a ir depressa.

**********************************

PARA SUA TÍMIDA SENHORA
trad. Rodrigo Garcia Lopes

Com mundo e tempo de sobra, acredite-me,
Senhora, essa tua timidez não seria crime.
Sentados, pensaríamos no modo melhor
De gozar nosso longo dia de amor.
Tu pelas margens do Ganges
Acharia rubis, eu, no estuário langue
Do Humber, reclamaria de tudo.
Te amaria dez anos antes do Dilúvio,
E tu, se quisesses, recusarias meu eu
Até a conversão dos Judeus.
Meu amor vegetal iria assim crescendo
Mais vasto que impérios, e mais lento;
Cem anos gastos para elogiar
Teus olhos, e tua testa contemplar;
Duzentos para adorar cada seio,
Mas trinta mil para seu recheio;
Uma era ao menos para cada seção,
E a última exibiria enfim seu coração.
Senhora, bem mereces tal status.
Recusaria te amar por mais barato.

Mas ouço às nossas costas de repente
O carro alado do tempo, rente;
E além de nós ardem na tarde
Desertos de vasta eternidade.
Tua beleza, hoje, amanhã não será,
Nem na lápide marmórea há de soar
O eco dessa canção; só vermes sem piedade
A devorar tão protegida virgindade,
E tua honra antiquada virando pó,
E cinzas todo meu desejo, a sós:
A cova é discreta e confortável alcova,
Mas que amantes ali se abracem, não há prova.

Agora, enquanto a cor em suas maçãs
Pousa em tua pele como rocio da manhã,
E enquanto tua alma transpire de desejo
E em seus poros fogos sutis revejo,
Vamos nos acabar enquanto é de matina,
E já, como amorosas aves de rapina,
De uma vez devorar o nosso tempo
Em vez de enlanguescer em seu relento.
Enrolemos nossa força, sem espera,
Nossa ternura toda numa só esfera,
E rasguemos prazeres com luta ríspida,
Ao passar pelos portões de ferro da vida;
Pois, se não podemos o sol deter
Podemos ao menos fazê-lo correr.

**********************************

À SUA TÍMIDA AMANTE
trad. Renato Suttana

Houvesse, dama, tempo e mundo à farta,
E tal reserva não seria crime.
Sentados, a escolher nosso caminho,
Do amor o longo dia passaríamos.
Buscarias rubis junto das margens
Do indiano Ganges: e eu entoaria
Junto às ondas do Humber que te amara
Por mais dez anos, até a inundação.
Eis que o recusarias, caprichosa,
Do judeu a esperar a conversão.
Meu amor, como planta, medraria
Mais vasto que os impérios e mais lento:
E cem anos passara eu a louvar
Os teus olhos, mirando a tua fronte,
E a adorar cada seio mais duzentos,
Mais trinta mil para o restante – uma era
Enfim inteira para cada parte:
E o coração revelarias na última.
Pois que és digna, senhora, de tal corte –
E a menor preço eu não quisera amar.

Mas ouço às minhas costas, sempre, a alada
Carruagem do tempo se apressando;
E à minha frente em tudo vejo abrir-se
Só desertos de vasta eternidade.
Tua graça não mais existirá,
Nem meu canto soará sob a marmórea
Abóbada; só os vermes provarão
Essa há tanto guardada virgindade:
E a tua inútil honra será pó,
E todo o meu desejo apenas cinza:
Que a sepultura é cômodo e privado
Lugar, mas às carícias – creio – impróprio.

Por isso, enquanto a cor da juventude
Como o orvalho da aurora em tua pele
Repousa e cada poro da anelante
Alma um fogo incessante ainda transpira:
Vamos gozar, enquanto nos é dado,
E devorar como aves de rapina
De uma só vez nosso tempo, sem sermos
Em suas lentas garras abatidos.
Rolemos nossa força e toda a nossa
Doçura para dentro de um só globo –
E o gozo em luta rude laceremos
Contra os portões de ferro da existência:
Pois, se este sol não podemos parar,
Que o façamos então acelerar.

**********************************

TO HIS COY MISTRESS

Had we but world enough and time,
This coyness, lady, were no crime.
We would sit down, and think which way
To walk, and pass our long love’s day.
Thou by the Indian Ganges’ side
Shouldst rubies find; I by the tide
Of Humber would complain. I would
Love you ten years before the flood,
And you should, if you please, refuse
Till the conversion of the Jews.
My vegetable love should grow
Vaster than empires and more slow;
An hundred years should go to praise
Thine eyes, and on thy forehead gaze;
Two hundred to adore each breast,
But thirty thousand to the rest;
An age at least to every part,
And the last age should show your heart.
For, lady, you deserve this state,
Nor would I love at lower rate.

But at my back I always hear
Time’s wingèd chariot hurrying near;
And yonder all before us lie
Deserts of vast eternity.
Thy beauty shall no more be found;
Nor, in thy marble vault, shall sound
My echoing song; then worms shall try
That long-preserved virginity,
And your quaint honour turn to dust,
And into ashes all my lust;
The grave’s a fine and private place,
But none, I think, do there embrace.

Now therefore, while the youthful hue
Sits on thy skin like morning dew,
And while thy willing soul transpires
At every pore with instant fires,
Now let us sport us while we may,
And now, like amorous birds of prey,
Rather at once our time devour
Than languish in his slow-chapped power.
Let us roll all our strength and all
Our sweetness up into one ball,
And tear our pleasures with rough strife
Thorough the iron gates of life:
Thus, though we cannot make our sun
Stand still, yet we will make him run.

in https://escamandro.wordpress.com/2015/01/07/to-his-coy-mistress-de-andrew-marvell-pt-2-por-matheus-mavericco/

REPUBLICAÇÃO: poema originalmente publicado na página em 01/03/2016

Katherine Barrett Swett – Cabelos brilhantes

Cabelos Brilhantes

que esse artifício pudesse ser um meio1
-John Donne

Quando me enterrar, por favor, ponha
o cabelo de nossa filha em meu punho;
assim, algum arqueólogo,
que por acaso escave minha sepultura,
encontrará esse cacho, que não se tornou grisalho
durante todos os anos que se passaram
entre minha morte e a dela.
Espero que ela possa experimentar
o choque da imortalidade
que senti ao vasculhar velharias
e encontrar uma mecha de cabelos castanhos atada,
anos antes, com um fio vermelho-vivo,
enrolada em posição fetal dentro
de um pote de maionese Hellmann’s.
Espero que esse estudioso compreenda
exatamente o que meu esqueleto tem em mãos,
e encontre a linguagem para expressar,
com a precisão de um fio de cabelo,
que tudo o que temos são palavras e carnes.

Trad.: Nelson Santander

  1. Trecho do poema “The Relic”, de John Donne em tradução livre e literal. ↩︎

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Bright Hair

that this device might be some way
-John Donne

When you bury me, please place
our daughter’s hair inside my fist;
that way some archaeologist,
who happens to unearth my grave,
might find this lock, not turned to gray
in all the intervening years
between my death and my daughter’s.
I hope she’ll be the kind to feel
the shock of immortality
I felt when sorting through old stuff
to find a hank of brown hair tied
some years before with bright red yarn
and curled up fetally inside
a Hellmann’s mayonnaise jar.
I hope that scholar understands
just what my skeleton has in hand,
and finds the language to express
closer by that hair’s breadth
that all we have are words and flesh.

Arthur Schopenhauer – Bolhas de Sabão (excerto)

O homem só vive no presente, que se converte no passado, e afunda-se na morte. Exceto as consequências que podem influir no presente, e que são filhas de sua vontade, ou de seus atos, a sua vida passada já não existe. Devia portanto ser-lhe indiferente que esse passado fosse de prazeres ou tristezas. O presente foge-lhes das mãos, transformando-se no passado. O futuro é incerto. Fisicamente, o andar não é mais do que uma queda evitada a cada instante; da mesma maneira a existência é a morte suspensa, adiada, e a atividade de nosso espírito não é mais que uma luta constante contra o tédio. É pois fatal que a morte alcance a vitória. Por haver nascido lhe pertencemos, e durante nossa vida não faz senão brincar com a presa antes de a devorar. E assim como quem faz bolhas de sabão, e apesar da segurança de que acabará por rebentar, se entretém em fazê-la aumentar de volume, assim seguimos o curso de nossa existência, prodigalizando-lhe cuidados e atenções.

Tony Connor – Na Alameda dos Carvalhos

Velha e sozinha, à noite ela adormece
sentada diante da televisão.
A casa está quieta agora. Ela tece,
ergue-se para ferver a infusão,

assiste a um cowboy ser assassinado,
lê na gazeta quem nasceu ou morreu,
dorme em ‘Mísseis nucleares estocados’.
Um mundo que um mal pior prometeu

some. Sonha com uma vida passada
na mesma casa: de novo o sofrimento,
pobreza, doença, a sorte negada,
a morte de um filho, o derretimento

do cérebro de um irmão que enlouqueceu.
Setenta anos de aflições; a chaleira
chia. À meia-noite, ela ora, servil,
tira a dentadura e junta suas tranqueiras.

Trad.: Nelson Santander

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In Oak Terrace

Old and alone, she sits at nights
nodding before the television.
The house is quiet now. She knits,
rises to put the kettle on,

watches a cowboy’s killing, reads
the local Births and Deaths, and falls
asleep at ‘Growing stockpiles of war-heads’.
A world that threatens worse ills

fades. She dreams of a life spent
in the one house: suffers again
poverty, sickness, abandonment,
a child’s death, a brother’s brain

melting to madness. Seventy years
of common trouble; the kettle sings.
At midnight she says her silly prayers,
and takes her teeth out, and collects her night-things.

Jules Laforgue – Mediocridade

No infinito coberto de eternas belezas,
Como átomo perdido, incerto, solitário,
Um planeta chamado Terra, dias contados,
Voa com os seus vermes sobre as profundezas.

Filhos sem cor, febris, ao jugo do trabalho,
Marchando, indiferentes ao grande mistério,
E quando um dos seus é enterrado, já sérios,
Saúdam-no. Do torpor não são arrancados.

Viver, morrer, sem desconfiar da história
Do globo, sua miséria em eterna glória,
Sua agonia futura, o sol moribundo.

Vertigens de universo, todo o seu só festa!
Nada, nada, terão visto. Partem do mundo
Sem visitar sequer o seu próprio planeta.

Trad.: Régis Bonvicino

REPUBLICAÇÃO: poema originalmente publicado na página em 27/02/2016

Mary Ruefle – Meu amigo moribundo

Eu visitava um amigo moribundo no hospital e passei por um quarto cheia de bebês que ainda não tinham recebido nomes. Todos estavam alinhados em uma fileira, como projetos científicos. Aqueles que tinham nomes ganharam uma pulseira e foram levados embora. Mas os que ficaram eram bastante interessantes, a julgar pela tristeza já evidente em seus traços. Como devo te chamar, pequeno cordeiro deitado aqui nesse leito de algodão? Detive uma pessoa de uniforme que estava familiarizada com eles: “Volte amanhã”, ela disse, “todos já terão partido”.

Trad.: Nelson Santander

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My Dying Friend

I was visiting a dying friend in the hospital and passed by a room full of babies who had not yet been given names. They were all lined up in a row, like science projects. Those with names had won a bracelet and been taken away. But those who remained were quite interesting, judging by the sadness already evident in their features. What do I call thee, little lamb lying here on a bed of cotton? I stopped someone in a uniform who was familiar with them. “Come back tomorrow,” she said, “they will all be gone”.