Meu pai dizia que ninguém realmente morre
até que não reste mais ninguém para
pensar neles.
Você vive de novo, dizia ele,
toda vez que alguém se lembra de você.
Eu era jovem demais na época para pensar
na morte dele, muito menos na minha.
Tudo o que eu conseguia pensar era naquele momento
em Peter Pan em que a plateia
aplaudia para manter a Sininho viva.
Minha mãe morreu há trinta anos,
e eu me lembro dela todos os dias:
seu bico de viúva1, seus lilases, o jeito como ela dizia
“Oh, querida…” quando minha vida dava errado.
Pai, raramente penso em você.
Será que o releguei a um purgatório
de esquecimento porque você punia
o que chamava de insolência
com dias de silêncio?
E, no entanto, aqui está você agora.
Trad.: Nelson Santander
- Expressão usada para a linha de cabelo que algumas pessoas apresentam em forma de “V” na parte frontal superior da testa ↩︎
Immortality
My father said nobody really dies
until there’s no one left behind
to think of them.
You live again, he said,
each time someone remembers you.
I was too young then to believe
in his death, let alone in mine.
All I could think of was that moment
in Peter Pan the audience
clapping to keep Tinker Bell alive.
My mother has been dead now thirty years,
and I remember her every day:
her widow’s peak, lilacs, the way she said
“Oh, sweetheart…” when my life went wrong.
Father, I seldom think of you.
Have I consigned you to a purgatory
of neglect, and is it because you punished
what you called insolence
with days of the silent treatment?
And yet, here you are now.