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Albano Martins – Haicais

Juncos em movimento.Os cabelos da águapenteados pelo vento. *Num frutosazonado é o tempoque amadurece. *Romãs: as últimasbrasas do incêndiodo verão. *Maçã – disse a criança.E era apenas o soldependurado nos ramos. *Morango. O frágilCoração da terralevado à boca. *O mel no frasco:exposto, para consumo,o suor da abelha. *Mais cedo ou mais tardeo silêncio viráperguntar por…
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Thomas Hardy – Autoinconsciência

A pé, ao longo daquela viaEle caminhou naquele dia,Cismando as formas que os sonhos retratavam,E ele só parecia terRaramente olhos para verAqueles momentos que o rodeavam. Cintilantes pássaros douradosFaziam um tropel animado,Bicando longas palhas, efervescentes.E, levando ramos de azevinho,Voavam cruzando o caminhoQue ele percorria, só, indiferente. Da margem até o interiorE por cima e em…
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Manuel António Pina – de “Cuidados Intensivos”

I “A esta hora e neste sítio(miocárdio ventricular esquerdo)é a abstracta vida que me assalta.Eles não sabemque o seu coração pulsa,ferido, no meu coração,que a minha dor alheiavagarosamente mataos seus sonhos, os seus sentidos,os seus dias visíveis e invisíveis,a linha dos telhadosao longe sobre o céu.Como saberiam(com que palavras exteriores?)que existemdentro de mimde um modo…
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Sharon Olds – Minha mão

Quando olho para a minha mão, e para o dorso do meu pulso,brilhando com o petrolato que esfreguei em suas fissuras — óleo mineral,ceresina, lanolina, pantenol, glicerina,bisabolol, vejo as rugasfinas, muitas formando losangos,algumas delas longas cicatrizes vacilantes —isso me parece comovente e afortunado. E eu gostodas veias salientes do dorso da minha mão.Faço parte de…
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José Mateos – In Memoriam

Para Pedro Sevilla Sempre, diante da dor, estamos sozinhos,não se deseja viver, e tu sabes disso.Há um instante, na penumbra de um quarto de hospital, viste a mão hirta,seu rosto afundado que o lençol ocultou.E foi como olhar-se num espelhoe perceber que somos menos que essa ausência,menos que a névoa que o ar dissipa. Eu…
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Linda Pastan – Graça

Quando o jovem professor juntouas mãos no jantar e falou com Deussobre a minha chegada em segurançaem meio à neve, agradecendo-Lhe tambémpelo alimento que iríamos comer,foi no tom de voz que eu costumousar para falar com meus amigos quando ligoe sou atendida pela secretária eletrônica,com a qual converso sobre isso e aquilousando um tom casual,imaginando…
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Joan Margarit – Ulisses nas águas de Ítaca

Estás chegando à ilha e agora sabeso que é o acaso. Viver, o que significa.Teu arco será pó em uma prateleira.Pó será o tear e a peça que ele tece.Os pretendentes, que no pátioacamparam,são sombras dos sonhos de Penélope.Estás chegando à ilha enquanto o mararrebenta nas rochas da costa,como faz o tempo com a Odisseia.Ninguém…
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Tess Gallagher – Escolhas

Dirijo-me para o lado da casa de onde se vêa montanha, a fim de aparar as árvores novase desobstruir a vista para a neve sobre as serras. Mas quando olho para cima,serrote na mão, vejo um ninho agarradoaos galhos mais altos.Não corto esta.E também não corto as demais.De repente, em cada árvore,um ninho invisívelonde uma…
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Ruy Belo – Através da chuva e da névoa

Chovia e vi-te entrar no marlonge de aqui há muito tempo jáó meu amor o teu olharo meu olhar o teu amorMais tarde olhei-te e nem te conheciaAgora aqui relembro e pergunto:Qual é a realidade de tudo isto?Afinal onde é que as coisas continuame como continuam se é que continuam?Apenas deixarei atrás de mim tubos…
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Li-Young Lee – Comendo sozinho

Colhi as últimas cebolas frescas do ano.O jardim está limpo agora. O solo está frio,gasto e pardacento. O que resta do diaarde nos bordos, nas bordas dos meusolhos. Eu me viro, um cardeal desaparece.Junto à porta da adega, lavo as cebolas,depois bebo da gelada torneira de metal. Certa vez, anos atrás, caminhei ao lado do…