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Joan Kwon Glass – Novembro

Estamos no início de novembroe minha filha não se impressiona mais com as folhas que caem.Ela me diz que, a partir de agora,devo pedir permissão para abraça-la,e a resposta costuma ser não.As nozes se espalham pelo pátio da escolaao lado de nossa casa e os esquilosexecutam sua corrida frenética,perseguindo-se uns aos outros nos carvalhos,parecendo desafiar…
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Paulo Henriques Britto – Nenhum Mistério

I Não chega a ser desespero,mas não por haver esperança.Falta a ênfase, o tempero,o sal da intemperança, sem o qual não é iguariaà altura de grandes gestos.É mais da categoriadas migalhas, dos restos. Pois dessa matéria escassahá que se tirar sustância.(Até mesmo na desgraçaé pra poucos a abundância.) II Não há nenhum mistério nesta históriaem…
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Mary Ruefle – Desconstrução

Acho que as sereias de A Odisseia cantaram A Odisseia,pois não há nada mais atraente, mais terrível,do que a história de nossa própria vida, aquela que nãoqueremos ouvir e faremos de tudo para escutar. Trad.: Nelson Santander Deconstruction I think the sirens in The Odyssey sang The Odyssey,for there is nothing more seductive, more terrible,than…
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Amalia Bautista – Nu de Mulher

Para ti nunca passei de um blocode mármore. Esculpiste nele o meu corpo,um corpo de mulher branco e formoso,em que não viste nada a não ser pedrae o orgulho, isso sim, do teu trabalho.Nunca imaginaste que eu te amavae que tremia quando, docemente,me modelavas os seios e os ombros,ou alisavas as coxas e o ventre.Hoje,…
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Randall Jarrell – O rosto

O Rosto Die alte Frau, die alte Marschallin!* Não é mais agradável, tampouco belo, Nem mesmo jovem. Este não é o meu. Onde está o antigo, os anteriores? Aqueles eram os meus. É assim: eu tenho fotos, Mas não tão antigas; as pessoas se comportavam De forma diferente antigamente… quando me encontram hoje, dizem: Você…
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América, Aztecas – O rio passa, passa

O rio passa, passae nunca cessa.O vento passa, passae nunca cessa.A vida passa:nunca regressa. Versão: Herberto Helder REPUBLICAÇÃO: poema publicado na página originalmente em 10/12/2018
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Sharon Olds – Destino

Finalmente desisti e me tornei meu pai,sua face oleosa e abatida, brilhando paraqualquer pessoa que eu olhasse, seus olhos castanhos-lodoem meu rosto, cintilando como chão molhado em queas coisas que amamos caíram, e se perderam para sempre. Não mais tenteinão ter o mau hálito dele,sua postura derrotada de fracasso, seu tristesexo pendurado entre suas coxas,…
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Ian Hamilton – Memorial

Quatro lápides gastas apoiam-se na parededo teu asilo Vitoriano.Além dos limites, ajoelhas-te na grama altaDecifrando nomes apagados:Velhos lunáticos que aqui morreram. Trad.: Nelson Santander REPUBLICAÇÃO com alterações na tradução: poema publicado anteriormente na página originalmente em 09/12/2018 Ian Hamilton – Memorial Four weathered gravestones tilt against the wallOf your Victorian asylum.Out of bounds, you kneel…
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Ellen Bryant Voigt – A cúspide

Tão poucos pássaros — os que passam o invernoe os gansos migrando pelos campos vazios,atravessando as hastes retorcidas de milho cortado:ao nosso redor, tudo o que é verde é suprimido,e na melancólica floresta, as árvores nuas,despidas de folhas ou quase sem elas,formam uma morada sombria entre nuvens baixasque têm o aspecto de neve obstinada. Em…
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José Carlos Soares – Camel Blue

No pequeno cemitériocomovente ninguém, a não sero latido de algumcão, o canto de um galovermelho, a tossede um pequeno deus desempregado. Tambémpude repararcomo saía de uma velha campaabandonadaum exército de formigas sob um intensocéu azulque nada respondia.