Tony Harrison – Longa distância II

Embora minha mãe há dois anos já fosse falecida,
papai mantinha junto ao fogão os chinelos dela, quentes,
colocava ao seu lado na cama bolsas de água aquecida
e ainda ia renovar seus passes e bilhetes

Não podíamos simplesmente aparecer. Era necessário
telefonar. Ele adiava a visita por uma hora
para poder arrumar as coisas dela e parecer solitário,
como se fosse um crime sua paixão ainda pura.

Ele não podia arriscar a minha maldição da descrença,
embora tivesse certeza de que em breve ouviria
sua chave arranhar a fechadura enferrujada e acabar com sua tristeza.
Ela tinha saído para buscar o chá, ele sabia.

Acredito que a vida termina com a morte, é o que sempre digo.
Vocês não foram juntos às compras; mesmo assim, em minha
nova agenda telefônica de couro preto se aninha
seu nome e o número inativo para o qual ainda ligo.

Trad.: Nelson Santander

Long Distance II

Though my mother was already two years dead
Dad kept her slippers warming by the gas,
put hot water bottles her side of the bed
and still went to renew her transport pass.

You couldn’t just drop in. You had to phone.
He’d put you off an hour to give him time
to clear away her things and look alone
as though his still raw love were such a crime.

He couldn’t risk my blight of disbelief
though sure that very soon he’d hear her key
scrape in the rusted lock and end his grief.
He knew she’d just popped out to get the tea.

I believe life ends with death, and that is all.
You haven’t both gone shopping; just the same,
in my new black leather phone book there’s your name
and the disconnected number I still call.

Joan Margarit – Amor e tempo

Lembras quando ainda desconhecias
que a vida não teria piedade de ti?
Amor e tempo: o tempo nos habita
como a areia do rio que, lentamente,
vai moldando a forma da margem.
O amor, que refletiu em teu olhar
o esplendor da ilha do tesouro.
Sensual, solitária, cercada
pela sonora senectude do mar
e os gritos militares das gaivotas.
O sonho clandestino dos cinquenta anos.

Trad.: Nelson Santander

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Amor y tiempo

Recuerda cuando aún desconocías
que la vida no tendría piedad contigo.
Amor y tiempo: el tiempo nos habita
como arena del río que, despacio,
va cambiando la forma de la costa.
El amor, que ha copiado en tu mirada
la claridad de la isla del tesoro.
Sensual, solitaria, rodeada
por la sonora senectud del mar
y gritos militares de gaviotas.
El sueño clandestino de los cincuenta años.

Emily Jungmin Yoon – Entre o equinócio de outono e o solstício de inverno, hoje

Li um poema coreano
com o verso “Hoje você é o mais jovem
que jamais será”. Hoje sou a mais velha
que já fui. Hoje bebemos
chá de trigo sarraceno. Hoje há calor
em meu apartamento. Hoje penso
na palavra coreana chada.
Significa frio. Significa estar cheio.
Significa bater. Vestir. Hoje estamos gastos.
Hoje você veste o frio. Sua pele gelada.
Meu coração bate sob a pele. Alguém disse
que o inverno quebrou suas janelas. O calor de dentro
e o frio de fora lançaram raios através da vidraça.
Hoje meu coração veste-se de você como de cortinas. Hoje
ele se enche de você. A janela do meu quarto
está cheia de folhas prestes a cair. Chada, você diz. É chá.
Nós bebemos. Faz frio lá fora.

Trad.: Nelson Santander

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Between Autumn Equinox and Winter Solstice, Today

I read a Korean poem
with the line “Today you are the youngest
you will ever be.” Today I am the oldest
I have been. Today we drink
buckwheat tea. Today I have heat
in my apartment. Today I think
about the word chada in Korean.
It means cold. It means to be filled with.
It means to kickTo wear. Today we’re worn.
Today you wear the cold. Your chilled skin.
My heart kicks on my skin. Someone said
winter has broken his windows. The heat inside
and the cold outside sent lightning across glass.
Today my heart wears you like curtains. Today
it fills with you. The window in my room
is full of leaves ready to fall. Chada, you say. It’s tea.
We drink. It is cold outside.

Manuel António Pina – As vozes

A infância vem
pé ante pé
sobe as escadas
e bate à porta

– Quem é?
– É a mãe morta
– São coisas passadas
– Não é ninguém

Tantas vozes fora de nós!
E se somos nós quem está lá fora
e bate à porta? E se nos fomos embora?
E se ficamos sós?

REPUBLICAÇÃO: poema publicado na página originalmente em 12/02/2019

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Julia Hartwig – Assim será

Tudo retornará
E não será em forma de cinzas ou ruínas
tudo será como antes da extinção

à vista e em flor
Amizades não desfeitas
poços não envenenados
combates ainda repletos de esperança de êxito

Incontáveis estrelas
Uma lua desconhecida
Nós ainda ignorantes
do que pode ser realizado
e daquilo que para sempre
nos será arrebatado

Trad.: Nelson Santander, a partir da versão em espanhol vertida do polonês por Antonio Benitez Burraco e Anna Sobieska – i: “Eso volverá”, 2007; Dualidad, Antología poética; Vaso Roto, 2013, pág. 107; Tr. Antonio Benitez Burraco y Anna Sobieska

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Así será

Eso volverá
No será en forma de rescoldos ni de ruinas
todo estará como antes del exterminio

a la luz y en flor
Amistades no desavenidas
pozos no envenenados
batallas repletas aún de esperanza en la victoria

Estrellas incontables
Una luna no reconocida
Nosotros ignorantes todavía
de lo que puede cumplirse
y de lo que para siempre
nos será arrebatado

Manuel Vilas – O último Elvis

Respeita sempre a decadência das mulheres
e dos homens que amaram ou pelo menos tentaram amar
a vida e esta os chamuscou ou lhes quebrou os ossos da face,
as entranhas e as veias e o fígado e o nobre coração.
Respeita todos os sagrados e humildes naufrágios
dos seres humanos.

Respeita aqueles que se suicidaram.

Respeita aqueles que se lançaram aos oceanos.

Por favor, não fales mal deles, suplico-te de joelhos.

Ama toda essa gente, essa multidão, esse rio amarelo
da História de todos quantos foram derrotados tão injustamente,
ou tão justamente,
não importa.

Gente que acelerou em uma curva.

Gente que escondia garrafas pelos cantos de suas casas.

Gente que chorava nos parques dos subúrbios das cidades.

Gente que se envenenava com pílulas, com álcool,
com insônias aterrorizantes, com vinte horas de cama todos os
dias.

Eles tentaram, mas não conseguiram.

Gente a quem sobravam três quartos de suas pequenas
geladeiras.

Gente que não tinha com quem conversar por semanas.

Gente que não comia para não comer sozinha.

Eles são igualmente adoráveis, juro-te.

Um dia haverão de brilhar.

Nomeemos tudo o que
nos tornou seres humanos.

Para que não haja medo, nem inveja, nem maldade.

Amo, celebro e exalto todos os naufrágios
de todos os seres humanos que pisaram neste mundo.

Porque o fracasso jamais existiu,
porque o fracasso não é justo e ninguém merece fracassar,
absolutamente ninguém.

Trad.: Nelson Santander

REPUBLICAÇÃO: poema publicado na página originalmente em 10/02/2019

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El último Elvis

Respeta siempre la destrucción de las mujeres
y de los hombres que amaron o intentaron, al menos, amar
la vida y esta les quemó o les rompió los huesos de la cara,
las entrañas y las venas y el hígado y el buen corazón,
respeta todos los sagrados y los más humildes hundimientos
de los seres humanos.

Respeta a quienes se suicidaron.

Respeta a quienes se arrojaron a los océanos.

No hables mal de ellos, te lo ruego, te lo pido de rodillas.

Ama a toda esa gente, esa muchedumbre, ese río amarillo
de la Historia de todos cuantos perdieron tan injustamente,
o tan justamente,
da igual.

Gente que aceleró en una curva.

Gente que escondía botellas en los rincones de su casa.

Gente que lloraba en los parques de las afueras de las ciudades.

Gente que se envenenaba con pastillas, con alcohol,
con insomnios aterradores, con veinte horas de cama todos los días.

Lo intentaron, pero no lo consiguieron.

Gente a quien le sobraba tres cuartas partes de su pequeño frigorífico.

Gente que no tenía con quién hablar semanas enteras.

Gente que no comía por no comer sola.

Son hermosos igualmente, te lo juro.

Resplandecerán un día.

Nombremos todo aquello
que nos convirtió en seres humanos.

Para que no haya miedo, ni envidia, ni maldad.

Amo, celebro, y exalto todos los hundimientos
de todos los seres humanos que pisaron este mundo.

Porque el fracaso no existió jamás,
porque no es justo el fracaso y nadie merece fracasar,
absolutamente nadie.

Dean Young – Ode às cinzas

Quando a vi mais adiante, corri dois quarteirões
gritando seu nome; depois, percebendo que não era
você, mas uma sósia assustada, continuei
correndo, gritando agora aos céus, perpetuando
sua fama e seu brilho. Desde que
fui incinerado, muitas vezes voltei a este pensamento –
o de que todas as coisas amadas são perseguidas e nunca capturadas,
mesmo enquanto dormia ao meu lado, você estava voando.
Pelo menos não se pode perder o que nunca se teve, a peneira
do eu reteve apenas alguns pedaços maiores, maxilar,
aliança de casamento, um único sonho reiterado,
um acalanto em cada elegia, descrições
do mar inscritas no deserto, sua sombrinha
quebrada, eu afirmando que poderia consertá-la.

Trad.: Nelson Santander

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Ash Ode

When I saw you ahead I ran two blocks
shouting your name then realizing it wasn’t
you but some alarmed pretender, I went on
running, shouting now into the sky,
continuing your fame and luster. Since I’ve
been incinerated, I’ve oft returned to this thought,
that all things loved are pursued and never caught,
even as you slept beside me you were flying off.
At least what’s never had can’t be lost, the sieve
of self stuck with just some larger chunks, jawbone,
wedding ring, a single repeated dream,
a lullaby in every elegy, descriptions
of the sea written in the desert, your broken
umbrella, me claiming I could fix it.

Walter Savage Landor – Epitáfio

Não lutei com ninguém; nada valia a lida.
Amei a natureza, e, tanto quanto, a arte;
As mãos, estas aqueci no fogo da vida
Que naufraga; estou pronto para o desate.

Trad.: Nelson Santander

REPUBLICAÇÃO: poema publicado na página originalmente em 09/02/2019

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Dying Speech of an Old Philosopher

I strove with none, for none was worth my strife:
Nature I loved, and, next to Nature, Art:
I warm’d both hands before the fire of Life;
It sinks; and I am ready to depart.

Warsan Shire – Feia

“Ugly”, by Anna Ginsburg

Feia

Sua filha é feia.
Ela conhece a perda de perto,
leva cidades inteiras em seu ventre.

Quando criança, parentes não a seguravam.
Ela era madeira estilhaçada e água do mar.
Diziam que ela lhes lembrava a guerra.

No seu décimo quinto aniversário, você a ensinou
a trançar o cabelo como corda
e perfumá-lo com incenso.

Você a fez gargarejar com água de rosas
e, enquanto ela engasgava, você dizia:
garotas macaanto como você não deveriam cheirar
a solidão ou vazio.

Você é a mãe dela.
Por que não a avisou,
não a amparou como um barco em ruínas
e não lhe disse que os homens não a amarão
se ela estiver coberta de continentes,
se seus dentes forem pequenas colônias,
se seu estômago for uma ilha,
se suas coxas forem fronteiras?

Que homem quer se deitar
e ver o mundo arder
em seu quarto? 

O rosto de sua filha é uma pequena rebelião,
suas mãos, uma guerra civil,
há um campo de refugiados atrás de cada orelha,
um corpo repleto de coisas feias,

mas Deus, 
o mundo não
lhe cai bem?

Trad.: Nelson Santander

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Ugly

Your daughter is ugly.
She knows loss intimately,
carries whole cities in her belly.
 
As a child, relatives wouldn’t hold her.
She was splintered wood and sea water.
They said she reminded them of the war.
  
On her fifteenth birthday you taught her
how to tie her hair like rope 
and smoke it over burning frankincense.
 
You made her gargle rosewater
and while she coughed, said
macaanto girls like you shouldn’t smell
of lonely or empty.
 
You are her mother.
Why did you not warn her,
hold her like a rotting boat
and tell her that men will not love her
if she is covered in continents,
if her teeth are small colonies,
if her stomach is an island
if her thighs are borders?
 
What man wants to lay down 
and watch the world burn 
in his bedroom? 
 
Your daughter’s face is a small riot,
her hands are a civil war,
a refugee camp behind each ear,
a body littered with ugly things
 
but God, 
doesn’t she wear
the world well.

Giuseppe Ungaretti – In Memoriam

  Locvizza, 30 de setembro de 1916

Chamava-se
Moammed Sceab

Descendente
de emires de nômades
suicida
porque não tinha mais
Pátria

Amou a França
e mudou de nome

Foi Marcel
mas não era francês
e já não sabia
viver
na tenda dos seus
onde se escuta a cantilena
do Alcorão
saboreando um café

E não sabia
desatar
o canto
do seu abandono

Acompanhei-o
junto com a dona da pensão
onde vivíamos
em Paris
do número 5 da rue des Carmes
esquálido beco em declive

Descansa
no cemitério de Ivry
subúrbio que parece
sempre
em dia
de
decomposta feira

E talvez apenas eu
ainda saiba
que viveu

Trad.: Geraldo Holanda Cavalcanti

REPUBLICAÇÃO: poema publicado na página originalmente em 08/02/2019

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In Memoria

  Locvizza il 30 settembre 1916.

Si chiamava
Moammed Sceab

Discendente
di emiri di nomadi
suicida
perché non aveva più
Patria
Amò la Francia
e mutò nome

Fu Marcel
ma non era Francese
e non sapeva più
vivere
nella tenda dei suoi
dove si ascolta la cantilena
del Corano
gustando un caffè

E non sapeva
sciogliere
il canto
del suo abbandono

L’ho accompagnato
insieme alla padrona dell’albergo
dove abitavamo
a Parigi
dal numero 5 della rue des Carmes
appassito vicolo in discesa.

Riposa
nel camposanto d’Ivry
sobborgo che pare
sempre
in una giornata
di una
decomposta fiera

E forse io solo
so ancora
che visse