Charles Simic – O dicionário

Talvez haja uma palavra em algum lugar
para descrever o mundo nesta manhã,
uma palavra para o jeito como a primeira luz
se deleita em perseguir as sombras
pelas vitrines e entradas das lojas.

Outra palavra para o modo como ela se detém
sobre um par de óculos de aros finos
que alguém deixou cair na calçada
na noite passada e cambaleou às cegas,
falando sozinho ou começando a cantar.

Trad.: Nelson Santander

REPUBLICAÇÃO: poema publicado na página originalmente em 08/02/2020

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The dictionary

Maybe there is a word in it somewhere
to describe the world this morning,
a word for the way the early light
takes delight in chasing the darkness
out of store windows and doorways.

Another word for the way it lingers
over a pair of wire-rimmed glasses
someone let drop on the sidewalk
last night and staggered off blindly
talking to himself or breaking into song.

Mary Oliver – A Tartaruga

A Tartaruga

irrompe da pele arroxeada
da água, arrastando sua carapaça
com escamas musgosas
através das águas rasas, entre os juncos
e pelos lodaçais, para a elevação,
até a areia dourada,
para cavar, com suas patas desajeitadas,
um ninho, e ali se abaixar, expelindo
seus ovos brancos
na escuridão, e você pensa

em sua paciência, sua perseverança,
sua determinação em completar
o que nasceu para fazer —
e então você percebe algo ainda maior —
ela não leva em conta
o que nasceu para fazer.
Ela está apenas repleta
de um anseio cego e antigo.
Que nem sequer é dela, mas veio a ela
na chuva ou no vento suave
que é um portal pelo qual sua vida continua passando.

Ela não se vê
separada do resto do mundo
ou do mundo do que precisa realizar
a cada primavera.
Rastejando colina acima,
luminosa sob a areia que se acumula em sua pele,
ela não sonha
ela sabe

que é parte da lagoa em que vive,
que as altas árvores são suas crias,
que as aves flutuando acima
estão ligadas a ela por um fio indissolúvel.

Trad.: Nelson Santander

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The Turtle

breaks from the blue-black
skin of the water, dragging her shell
with its mossy scutes
across the shallows and through the rushes
and over the mudflats, to the uprise,
to the yellow sand,
to dig with her ungainly feet
a nest, and hunker there spewing
her white eggs down
into the darkness, and you think

of her patience, her fortitude,
her determination to complete
what she was born to do —
and then you realize a greater thing —
she doesn’t consider
what she was born to do.
She’s only filled
with an old blind wish.
It isn’t even hers but came to her
in the rain or the soft wind
which is a gate through which her life keeps walking.

She can’t see
herself apart from the rest of the world
or the world from what she must do
every spring.
Crawling up the high hill,
luminous under the sand that has packed against her skin,
she doesn’t dream
she knows

she is a part of the pond she lives in,
the tall trees are her children,
the birds that swim above her
are tied to her by an unbreakable string.

Lope de Vega – Desmaiar, ousar, ficar furioso

Desmaiar, ousar, ficar furioso,
áspero, terno, generoso, esquivo,
entretido, mortal, defunto, vivo,
leal, falso, covarde e corajoso;

não achar, para além, paz e repouso,
mostrar-se alegre, triste, humilde, altivo,
irritado, valente, fugitivo,
satisfeito, ofendido, receoso;

furtar o rosto ao claro desengano,
sorver veneno por licor suave,
esquecer o proveito, amar o dano;

crer que um céu em um inferno cabe,
dar a vida e a alma a um desengano;
isto é amor, quem o provou o sabe.

Trad.: Nelson Santander

REPUBLICAÇÃO: poema publicado na página originalmente em 07/02/2020

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Desmayarse, atreverse, estar furioso

Desmayarse, atreverse, estar furioso,
áspero, tierno, liberal, esquivo,
alentado, mortal, difunto, vivo,
leal, traidor, cobarde y animoso;

no hallar, fuera del bien, centro y reposo,
mostrarse alegre, triste, humilde, altivo,
enojado, valiente, fugitivo,
satisfecho, ofendido, receloso;

huir el rostro al claro desengaño,
beber veneno por licor süave,
olvidar el provecho, amar el daño;

creer que un cielo en un infierno cabe,
dar la vida y el alma a un desengaño;
esto es amor, quien lo probó lo sabe.

Kim Addonizio – O que os mortos temem

Em noites de inverno, os mortos
veem suas fotografias escorregarem
das abas das carteiras,
e suas cartas serem jogadas numa caixa
junto com as roupas para doação.
Ninguém se lembra de suas piadas,
dos tiques nervosos, do medo
de lugares fechados.
Nesses pesadelos, os mortos sentem
a ponta macia de uma borracha
apagando seus ossos. Eles despertam
em pânico, vão pegar um copo de leite
e veem a lua, a neve fresca,
as árvores despojadas.
Talvez preparem um sanduíche de peru,
ou assistam aos padrões no televisor.
É tudo um sonho de qualquer modo.
Em alguns meses,
os relógios serão adiantados*, e quando
os mortos dormirem saberão que os vivos
estão de luto por eles, insuportavelmente sós
e indiferentes à beleza. Nessas noites
os mortos se sentem melhor. Levantam-se
de manhã e quando as flores
cortadas são depositadas diante de seus nomes,
eles sorriem como noivas tímidas. Obrigado,
Obrigado, dizem. Não precisava,
dizem, mas muito baixinho, de modo que soa
como o vento, como nada humano.

Trad.: Nelson Santander

  1. Refere-se ao ajuste dos relógios para o horário de verão, quando se adianta uma hora para aproveitar melhor a luz do dia durante a primavera e o verão. No poema, é um marcador de passagem do tempo, indicando que alguns meses se passaram desde a morte. A mudança de horário também representa uma mudança na vida dos vivos. O mundo continua girando, as estações mudam, a vida segue em frente, o que contrasta vividamente com a existência estática dos mortos. ↩︎

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What the Dead Fear

On winter nights, the dead
see their photographs slipped
from the windows of wallets,
their letters stuffed in a box
with the clothes for Goodwill.
No one remembers their jokes,
their nervous habits, their dread
of enclosed places.
In these nightmares, the dead feel
the soft nub of the eraser
lightening their bones. They wake up
in a panic, go for a glass of milk
and see the moon, the fresh snow,
the stripped trees.
Maybe they fix a turkey sandwich,
or watch the patterns on the TV.
It’s all a dream anyway.
In a few months
they’ll turn the clocks ahead,
and when they sleep they’ll know the living
are grieving for them, unbearably lonely
and indifferent to beauty. On these nights
the dead feel better. They rise
in the morning, and when the cut
flowers are laid before their names
they smile like shy brides. Thank you,
thank you, they say. You shouldn’t have,
they say, but very softly, so it sounds
like the wind, like nothing human.

Juan Vicente Piqueras – História universal

Um homem nasce chora cresce ri
sofre e faz sofrer caminha canta
tem sede fome frio medo
se perde extravasa arde sorri.

Um homem sozinho no meio da noite
assobia para domar as bestas que o habitam.

Abraça empurra mata beija morre
se cansa de si mesmo se apaixona
se entrega à vida sabe que se finda
que o que é escoa por entre os dedos.

Um homem olha o céu as nuvens e se diz
em silêncio o quão breve
bela e fugidia foi a vida.

Trad.: Nelson Santander

REPUBLICAÇÃO: poema publicado na página originalmente em 06/02/2020

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Historia universal

Un hombre nace llora crece ríe
sufre y hace sufrir camina canta
tiene sed hambre frío miedo
se pierde se desborda arde sonríe.

Un hombre solo en medio de la noche
silba para amansar las bestias que lo habitan.

Abraza empuja mata besa muere
se cansa de sí mismo se enamora
se da a la vida sabe que se acaba
que se cae lo que es de entre sus dedos.

Un hombre mira el cielo las nubes y se dice
en silencio lo breve
lo hermosa y fugitiva que es fue la vida.

Tennessee Williams – Não temos muito tempo para amar

Não temos muito tempo para amar.
Nenhuma luz é eterna.
Não costumamos nos desvencilhar
de todas as coisas ternas.
Os tecidos grosseiros são aqueles
para uso corrente.
Mudo, vi você desembaraçar
seus cabelos com um pente.
Imperava um silêncio profundo,
aconchegante e baço.
Eu poderia, mas não consegui,
não pude tocar seu braço.
Eu poderia, mas não quis, romper
toda aquela mansidão.
(até mesmo o menor dos sussurros
seria uma explosão)
E assim os momentos passam como
se não quisessem passar.
Não temos muito tempo para amar.
Uma noite. Um raiar…

Trad.: Nelson Santander

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We Have Not Long to Love

We have not long to love.
Light does not stay.
The tender things are those
we fold away.
Coarse fabrics are the ones
for common wear.
In silence I have watched you
comb your hair.
Intimate the silence,
dim and warm.
I could but did not, reach
to touch your arm.
I could, but do not, break
that which is still.
(Almost the faintest whisper
would be shrill.)
So moments pass as though
they wished to stay.
We have not long to love.
A night. A day….

Hugo Mujica – Há escassos dias

Há escassos dias morreu meu pai,
há muito tempo atrás.

Caiu suavemente,
como as pálpebras ao chegar
a noite, ou uma folha
que o vento não arranca, embala.

Hoje não é como outras chuvas,
hoje chove pela primeira vez
sobre o mármore de sua lápide.

Sob cada chuva
poderia ser eu quem jaz, agora eu sei,
agora que morri em outro.

Trad.: Nelson Santander

REPUBLICAÇÃO: poema publicado na página originalmente em 05/02/2020

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Hace apenas días

Hace apenas días murió mi padre,
hace apenas tanto.

Cayó sin peso,
como los párpados al llegar
la noche o una hoja
cuando el viento no arranca, acuna.

Hoy no es como otras lluvias
hoy llueve por vez primera
sobre el mármol de su tumba.

Bajo cada lluvia
podría ser yo quien yace, ahora lo sé,
ahora que he muerto en otro.

José Infante – A ausência

Ali estão eles. Povoam
meus dias, preenchem minhas noites
com seus corpos distantes.
Não preciso chamá-los pelos nomes.
Estão ali. Sinto-os como eram,
belos, jovens, desejados,
infiéis ao sagrado juramento
do amor.

Eles formam a ausência
que envolve as paredes,
que reveste minha alma,
que se expande como o magma
implacável de meus dias.

Eles foram minha vida. Foram
a vida e agora retornam
à medida que a vida se afasta
de minhas mãos.

Não confundo
seus olhos, nem suas vozes.
Não confundo suas mãos, suas carícias,
nem o aroma de seus corpos.

Mas quando chega a noite
apenas um fantasma aparece:
o da ausência do amor
que usou seus corpos e seus nomes
para me iludir com a felicidade.

Trad.: Nelson Santander

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La Ausencia

Ellos están ahí. Pueblan
mis días, llenan mis noches
con sus cuerpos lejanos.
No necesito llamarles por sus nombres.
Están ahí. Los siento, como fueron,
hermosos, jóvenes, deseados,
infieles al juramento sagrado
del amor.

Ellos forman la ausencia
que envuelve las paredes,
que recubre mi alma,
que se expande como el magma
sin tregua de mis días.

Ellos fueron mi vida. Fueron
la vida y ahora vuelven
cuando la vida se aleja
de mis manos.

No confundo
sus ojos, ni sus voces.
No confundo sus manos, sus caricias,
ni el olor de sus cuerpos.

Pero cuando llega la noche
sólo un fantasma acude:
es la ausencia del amor
que utilizó sus cuerpos y sus nombres
para engañarme con la felicidad.

Joan Margarit – A aventura

Quando me ausento por um momento, ao finalizar
uma inspeção de obra em algum bairro estranho
e entro para tomar café em um pequeno bar
onde não me conhecem, penso que sou
alguém que parte para não mais voltar.
Quando me refugio no vazio
de um entreato e procuro a escada
que leva aos banheiros,
sinto que ali poderia começar minha ausência.
Instantes que são fendas para o frio.
Imagino as ruas que sempre nos aguardam
em futuros perdidos dentro de um só instante.
Ao redor está a eternidade:
atravessamo-la velozes
neste trem blindado que é o tempo.
A eternidade
se move tão devagar que a lua
na janela é a mesma da infância.
Não sei o que mais me surpreende nesta história,
se o quanto odeio o mundo cotidiano
ou quantos anos poderei
permanecer paralisado por uma covardia.

Trad.: Nelson Santander

REPUBLICAÇÃO: poema publicado na página originalmente em 04/02/2020

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La aventura

Cuando me ausento un rato, al acabarse
una visita de obra en algún barrio extraño
y entro a tomar café en un pequeño bar
donde no me conocen, pienso que soy
alguien que se está yendo para ya no volver.
Cuando me escapo en el vacío
de un entreacto y busco la escalera
que va hacia los lavabos,
siento que allí podría dar comienzo mi ausencia.
Instantes que son grietas hacia el frío.
Imagino las calles que siempre nos aguardan
en futuros perdidos dentro de un solo instante.
Alrededor está la eternidad:
la atravesamos raudos
en este tren blindado que es el tiempo.
La eternidad
se mueve tan despacio que la luna
del cristal es la misma de la infancia.
De esta historia no sé lo que más me sorprende,
si cómo se odia el mundo cotidiano
o cuántos años puedo
permanecer helado por una cobardía.

Adam Zagajewski – O portão

Para Barbara Torunczyk

Aprecias as palavras como um tímido ilusionista aprecia o momento de quietude
depois de deixar o palco, sozinho em um camarim onde
uma vela amarela arde com sua chama oleosa e negra como breu?

Que anseio te impulsionará a empurrar o pesado portão, a sentir
uma vez mais o cheiro daquela madeira e o gosto ferroso da água de um antigo poço,
a ver novamente a pereira altaneira, a matrona orgulhosa que nos presenteava
aristocraticamente com seus frutos perfeitamente formados a cada outono,
e depois caía na muda expectativa pelos males do inverno?

Ao lado, a impassível chaminé da fábrica fumegava, e a feia cidade permanecia quieta,
mas a terra fértil e infatigável trabalhava sob os tijolos dos jardins,
nossas memórias sombrias e a vasta despensa dos mortos.

Quanta coragem é necessário reunir para abrir o pesado portão,
quanta coragem para nos vermos de novo,
reunidos na pequena sala sob uma lâmpada gótica?
A mãe folheia o jornal, as mariposas chocam-se contra as vidraças,
nada acontece, nada, apenas a noite, a oração; ficamos à espera…

Só se vive uma vez.

Trad.: Nelson Santander a partir da versão do poema em inglês traduzido por Clare Cavanagh

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Gate

To Barbara Torunczyk

Do you love words as a shy magician loves the moment of quiet
after he’s left the stage, alone in a dressing room where
a yellow candle burns with its greasy, pitch-black flame?

What yearning will encourage you to push the heavy gate, to sense
once more the odor of that wood and the rusty taste of water from an ancient well,
to see again the tall pear tree, the proud matron who presented us
aristocratically with its perfectly formed fruit each fall,
and then fell into mute anticipation of the winter’s ills?

Next door a factory’s stolid chimney smoked and the ugly town kept still,
but the indefatigable earth worked on beneath the bricks in gardens,
our black memory and the vast pantry of the dead, the good earth.

What courage does it take to budge the heavy gate,
what courage to catch sight of us again,
gathered in the little room beneath a Gothic lamp –
mother skims the paper, moths bump the windowpanes,
nothing happens, nothing, only evening, prayer; we wait . . .

We lived only once.