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Manuel Bandeira – O Rio

Ser como o rio que deflui Silencioso dentro da noite. Não temer as trevas da noite. Se há estrelas nos céus, refleti-las. E se os céus se pejam de nuvens, Como o rio as nuvens são água, Refleti-las também sem mágoa Nas profundidades tranquilas.
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Andrew Marvell – To His Coy Mistress, em 5 traduções

PARA SUA DAMA RECATADA. trad. Matheus “Mavericco”. Houvesse tempo e espaço e então de fato Não seria um delito este recato. Sentados, nós iríamos pensar Em só pensar no outro, e assim passar. Você, do lado indígena do Ganges, Achando rubis, e eu, pois me confrange A dor, junto ao Humber. Décadas antes Do Dilúvio…
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W. H. Auden – Ao Descer a Rua Bristol

Ao descer a rua Bristol uma tarde, eu vi os demais que eram como, antes da ceifa, os já maduros trigais. E ouvi junto ao rio, debaixo da ponte da ferrovia, um namorado cantando como ele sempre amaria: “Vou te amar, meu bem, até que a África se junte à China, que o rio salte…
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Jorge Luis Borges – Aqui. Hoje.

Já somos o esquecimento que seremos. A poeira elementar que nos ignora e que foi o ruivo Adão e que é agora todos os homens e que não veremos. Já somos na tumba as duas datas do princípio e do término, o esquife, a obscena corrupção e a mortalha, os ritos da morte e as…
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Jorge Luis Borges – As Coisas

A bengala, as moedas, o chaveiro, a fechadura dócil, as tardias notas que não lerão os poucos dias que me restam, o naipe, o tabuleiro, um livro e dentro dele a emurchecida violeta, monumento de uma tarde por certo inesquecível já esquecida, o rubro espelho ocidental em que arde uma aurora ilusória. Quantas coisas, atlas,…
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W. H. Auden – Musée des Beaux-Arts

Sobre o sofrimento jamais se enganaram os velhos Mestres: eles bem compreenderam a condição humana, viram como certas coisas acontecem enquanto alguém por aí está comendo ou abrindo a janela ou apenas caminhando sem pressa. Sabem que, enquanto os mais velhos es- tão, reverentemente, apaixo- nadamente, à espera do “birth”…
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Samuraitiger19 – Nos minutos finais de sua vida, Calvin teve uma última conversa com Haroldo…

“Calvin? Calvin, querido?” No escuro, Calvin ouviu a voz de Susie, sua esposa de 53 anos. Calvin se esforçou para abrir os olhos. Deus, ele se sentia tão cansado e foi preciso muita força para conseguir. Lentamente a luz espantou as trevas, e ele enxergou novamente. Aos pés de sua cama estava sua esposa. Calvin…
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Carlos Drummond de Andrade – A Corrente

Sente raiva do passado que o mantém acorrentado. Sente raiva da corrente a puxá-lo para a frente e a fazer do seu futuro o retorno ao chão escuro onde jaz envilecida certa promessa de vida de onde brotam cogumelos venenosos, amarelos, e encaracoladas lesmas deglutindo-se a si mesmas.
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Mário Quintana – Os Degraus

Não desças os degraus do sonho Para não despertar os monstros. Não subas aos sótãos – onde Os deuses, por trás das suas máscaras, Ocultam o próprio enigma. Não desças, não subas, fica. O mistério está é na tua vida! E é um sonho louco este nosso mundo…

