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Jorge Luis Borges – As Causas

Todas as gerações e os poentes. Os dias e nenhum foi o primeiro. A frescura da água na garganta De Adão. O ordenado Paraíso. O olho decifrando a maior treva. O amor dos lobos ao raiar da alba. A palavra. O hexâmetro. Os espelhos. A Torre de Babel e a soberba. A lua que os…
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Belchior – Coração Selvagem
Um ano sem Belchior… Meu bem, guarde uma frase pra mim dentro da sua canção Esconda um beijo pra mim Sob as dobras do blusão Eu quero um gole de cerveja No seu copo, no seu colo e nesse bar Meu bem, o meu lugar é onde você quer que ele seja Não quero o…
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Hans Magnus Enzensberger – Discurso pós-jantar em um noivado

Este eu, um invólucro que, contanto que ninguém o abra, parece compacto, regular como um Kinder ovo, quase apetitoso. Só por dentro é escuro. Quem sabe o que estará esperando por você lá. Obsessões, sem dúvida, hábitos enferrujados, medos incompreensíveis, truques de segunda mão, desejos infantis. Que você deseje tê-la, esta caixa de presente, beira…
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Juan Vicente Piqueras – Véspera de Permanecer

Tudo está preparado: a mala, as camisas, os mapas, a tola esperança. Estou tirando o pó das pálpebras. Já pus na lapela a rosa dos ventos. Tudo está pronto: o mar, o ar, o atlas. Só me falta o quando, o onde, um diário de bordo, cartas de navegação, ventos propícios, coragem e alguém que…
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Carlos Drummond de Andrade – Balanço

A pobreza do eu a opulência do mundo A opulência do eu a pobreza do mundo A pobreza de tudo a opulência de tudo A incerteza de tudo na certeza de nada
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Felipe Benítez Reyes – Aniversário

Outro ano que se vai. Os muitos que se foram deixaram-nos um verbo repetido com significados diferentes e o mapa de um tesouro que não está em nenhum mapa, conversas amenas e o silêncio, e luzes que se apagam e sombras que se acendem e o penar de alma em luto pela alma do que…
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Jaime Gil de Biedma – Lembre-se

Bela vida que se foi e parece já não passar Desde então, afundo sonhos na memória: estremece a eternidade do tempo lá no fundo. E de repente um redemoinho cresce e me arrasta sugado para um profundo abismo, para onde vai, despenhado, para sempre dissipando-se o passado. Trad.: Nelson Santander Jaime Gil Biedma – Recuerda…
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Haroldo de Campos – Servidão de Passagem

forma de fome proêmio mosca ouro?mosca fosca. mosca prata?mosca preta. mosca íris?mosca reles. mosca anil?mosca vil. mosca azul?mosca mosca. mosca branca?poesia pouca. o azul é puro?o azul é pus. de barriga vazia. o verde é vivo?o verde é vírus de barriga vazia. o amarelo é belo?o amarelo é bile de barriga vazia. o vermelho é…
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Rocío Wittib – Outra vez olhas o mundo…

outra vez olhas o mundo como se fosse tarde demais te perguntas se o tempo é uma resposta e aceitas a dúvida do talvez como consolo aprendeste a renunciar sempre de algo mas sobretudo a desistir de ti mesmo por isso foges do desejo como um animal ferido te refugias na certeza fiel de alguma…
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Manuel António Pina – Instituto de Oncologia

Estes cumprem o rito antigo mantendo a chama da morte acesa na obscura água da vida e engrossam o rio dos mortos como pura memória sem nome. Nós rebelamo-nos, levantamos as mãos ao céu, e depois fechamo-las para deter o rio da mudança fluindo por entre os dedos, porque éramos os menos fortes e os…